"Muitos europeus pensam que o tráfico de crianças é uma coisa do terceiro mundo"

O líder mundial da Marcha Global Contra o Trabalho Infantil, Kailash Satyarthi, conta histórias concretas de tráfico e escravatura de crianças e diz que "nenhum país, nem mesmo as Filipinas, gosta de admitir que tem este problema"

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A vida de Kailash Satyarthi, um engenheiro indiano de 51 anos, é indissociável da luta contra a escravatura infantil. No início dos anos 80, quando iniciou a campanha de combate ao trabalho de menores no seu país de origem, essa realidade era rara no vocabulário político do sub-continente. Desde então, o activista ajudou a libertar "67 mil crianças escravas" e desenvolveu um modelo de educação e reabilitação das vítimas.

Uma das últimas libertações lideradas ocorreu a 6 de Junho, em Deli, e reporta a 29 crianças que trabalhavam em condições inumanas numa fábrica. Os menores, com idades entre sete e 12 anos, eram forçados a trabalhar das 9h00 às 3h30. Há meses que não saíam das salas. Naquelas duas salas, trancadas por fora, viviam e trabalhavam sem comida adequada nem atenção médica.

Satyarthy é presidente da Bachpan Bachao Andolan e integra diversas organizações internacionais. Em 2005, a Skoll Foundation USA escolheu-o como um dos doze "novos heróis" do planeta. O líder mundial da Marcha Global Contra o Trabalho Infantil e da Campanha Global pela Educação esteve nos últimos dois dias em Ofir, Esposende, na conferência europeia sobre tráfico de crianças.

PÚBLICO - Como é que começou a interessar-se pelo trabalho infantil?
KAILASH SATYARTHI - O meu primeiro dia de escola foi emocionante, mas também foi chocante. Havia uma criança da minha idade a trabalhar à porta da escola com o pai. Perguntei ao meu professor por que é que aquela criança não vinha à escola e ele não respondeu. Falei com o director e ele disse: "É comum, são crianças pobres". Todos os dias, chegava à escola e lá estava, nas escadas, aquela criança a trabalhar. Um dia, ganhei coragem e fui falar com o pai dele. Ele olhou para mim, eu era um miúdo, e disse: "O meu avô começou a trabalhar na infância, o meu pai começou a trabalhar na infância, eu comecei a trabalhar na infância, agora é a vez do meu filho; nós nascemos para trabalhar."

E qual foi a sua reacção?
Fiquei zangado. Não conseguia entender aquilo: por que é que uns nascem para trabalhar e outros para estudar? Mas era muito pequeno, tinha cinco, seis anos, não podia fazer nada, só podia fazer perguntas. Mais tarde, aos 11 anos, comecei a recolher livros usados para dar às crianças que tinham de deixar a escola por falta de dinheiro para os comprar. Os meus colegas e professores envolveram-se nisso comigo. Depois, cresci, formei-me em engenharia como o meu pai tanto queria. E estive a dar aulas numa universidade.

E o que o fez, ainda jovem, deixar a profissão para se dedicar às crianças? Houve outro episódio marcante?
Fazia uma revista quinzenal que se chamava A luta deve continuar. A revista era sobre as pessoas ignoradas e as suas lutas. Fazia-a sozinho e mandava-a para o Governo, para as autoridades... Um dia, apareceu-me um homem com 40 e muitos anos, cheio de fome e sede com umas revistas dessas na mão. Um leitor tinha-lhe dado aquilo na rua e tinha-lhe dito que me procurasse. Este homem disse-me que tinha sido vendido e que durante 17 anos estivera a trabalhar numa fábrica. Fugiu de noite, com a sua família, porque os patrões queriam vender a filha de 14, 15 anos a um bordel. Ele queria que eu escrevesse a história dele e que a mostrasse às autoridades. Eu nunca tinha estado com um escravo real. Fiquei chocado com aquilo tudo.

Havia mais pessoas nessa fábrica?
Eram 37 no total, viviam como animais - nasciam e morriam ali, não podiam sair. Achei que podia fazer mais do que contar a história. Falei com uns amigos e, na nossa ingenuidade, tentámos libertar aquelas pessoas. Fomos lá, bateram-nos e nós viemos embora sem conseguir nada. Levámos o caso a tribunal e aquelas pessoas foram libertadas. Foi impressionante vê-las chegar à cidade. Algumas nunca tinham visto carros, arranha-céus, semáforos. Algumas, como a filha daquele homem, já tinham nascido dentro da fábrica. E isto foi na Índia, a maior democracia do mundo, em 1980.

Qual a dimensão actual do problema na Índia?
A Índia é um país de grandes contrastes. Por um lado, é um país industrializado, com armas nucleares, tecnologia. Por outro, continuamos a ter escravatura. Temos 60 milhões de crianças a trabalhar a tempo inteiro. Destas, 10 milhões fazem trabalho escravo, trabalham à força. E o tráfico interno é generalizado. Há crianças em todas as cidades traficadas para trabalho doméstico, restaurantes, pequena indústria, prostituição. A África, a Ásia e a América Latina têm um problema sério de trabalho infantil.

E a Europa não escapa...
Esta conferência é muito importante, porque muitos europeus pensam que o trabalho infantil e tráfico de crianças são uma coisa do terceiro mundo, não acontece na Europa, não acontece nos Estados Unidos. Isto é um fenómeno global. E não se faz só para prostituição. Há crianças da Europa de Leste, dos Balcãs, como a Moldávia, a Roménia, a Ucrânia, que são traficadas para a Itália, para a França, para o Reino Unido... Há crianças que vêm da América Latina, de África... Portugal e Espanha são países de trânsito, portas de entrada.

Sim, mas as autoridades portuguesas dizem que os casos de crianças traficadas para serem exploradas no país são pontuais...
Isso é negar. Nenhum país, nem mesmo as Filipinas, gosta de admitir que tem este problema. Os países dizem: há alguma coisa, mas não é sério. Negam porque não querem assumir a responsabilidade de prevenir e combater essa realidade. Se fazem isso, têm de gastar muito dinheiro: mudar leis, formar pessoas, perseguir criminosos, reabilitar vítimas.