"Alma Salgueirista" promete resistir ao fim do futebol

Dívidas a ex-atletas levaram à suspensão
da modalidade
na categoria sénior. Apesar da desilusão,
os sócios do
Salgueiros mantêm o apoio ao clube

A Comissão Administrativa do Sport Comércio e Salgueiros anunciou através de um comunicado colocado no sítio oficial do clube na Internet que cessará por tempo indeterminado a actividade futebolística profissional. No ano em que o clube completa 94 anos, a comissão tornou oficial aquilo que já tinha sido anunciado há algum tempo. Devido às dívidas ainda pendentes a antigos jogadores do clube de quase 1.8 milhões de euros, o emblema portuense vê-se na impossibilidade de se inscrever nas provas oficiais (III Divisão), apesar de a comissão ter "proposto aos ex-atletas um acordo [para pagar 50 por cento da dívida], não logrando, até ao momento, ter recebido qualquer resposta positiva da esmagadora maioria deles", pode ler-se no comunicado. A comissão administrativa que gere neste momento os destinos do clube garante estar a fazer tudo para que "daqui a um ano o Salgueiros esteja a competir", revela Vítor Barros, elemento integrante daquela comissão, que informou ainda que as dívidas ao fisco e à Segurança Social (mais de 12 milhões de euros) já foram saldadas. "Já assumimos os nossos compromissos, que era coisa que o clube não fez durante 15 anos", acusou Vítor Barros, referindo-se à gestão do anterior presidente do clube, José António Linhares.

Alma Salgueirista resisteOs sócios do Salgueiros sentem-se indignados, não com a decisão da comissão, mas com o estado em que os dirigentes deixaram cair o clube. "É uma enorme tristeza. Para quem gosta realmente de um clube é muito difícil de aceitar", lamenta Ricardo Sá, sócio do clube e elemento da claque "Alma Salgueirista" há 12 anos. Por seu lado, André Machado, também integrante da claque e sócio do clube há 15 anos, lembra o passado glorioso do clube do seu coração: "Termos sido considerados o segundo maior clube da cidade e vermo-nos, de um momento para o outro, nesta situação é complicado". E aponta veementemente o dedo ao ex-presidente José António Linhares, que considera o grande culpado pela situação: "O seu único objectivo era delapidar tudo o que o Salgueiros tem e vendê-lo aos retalhos".
Apesar de tudo, ambos concordam que a missão das duas comissões que tentaram gerir os destinos do clube nos últimos anos era bastante ingrata. "Era difícil para qualquer comissão, embora tudo tenham feito para que o clube não tivesse de chegar a esta situação", admitiu André Machado, prevendo que "dentro de seis anos o Salgueiros estará num campeonato profissional, que é o lugar que merece". "Não deixo de ser salgueirista. Apesar de tudo, vou continuar a pagar as quotas e a assistir aos jogos dos juniores e da equipa de pólo aquático [undecacampeão nacional]", garante Ricardo Sá.

Uma queda anunciadaDepois de 21 épocas não consecutivas na Primeira Divisão, o Salgueiros viu-se relegado em 2002 para a Liga de Honra, tendo no ano seguinte caído à então denominada II Divisão B por decisão administrativa. As dívidas à Liga de Clubes obrigaram a equipa a utilizar apenas atletas jovens, oriundos dos escalões de formação durante toda a temporada. Na época passada, os resultados alcançados foram desastrosos, não tendo conseguido fugir ao último lugar da classificação final, logrando conquistar apenas cinco pontos - menos 20 do que o penúltimo classificado. Naquela que foi uma das mais negras épocas da sua longa história, o clube de Vidal Pinheiro registou um total de 19 golos marcados e 128 sofridos.