Duda Mendonça O homem que vestiu Lula com um fato Armani

O publicitário de 61 anos conseguiu vender a milhões
de eleitores em 2002 a imagem do líder operário, a mesma que agora
põe em risco com as suas declarações sobre o "mensalão"

Duda Mendonça é, ao lado de Nizan Guanaes, um dos publicitários mais famosos do Brasil. Entre nós, o "marqueteiro" - como a profissão é chamada naquele país - ficou conhecido como o homem que conseguiu pôr Lula da Silva na cadeira da Presidência da República. A missão era algo ciclópica: o líder do PT vinha de três derrotas consecutivas, duas delas contra o adversário mais próximo, o PSDB de Fernando Henrique Cardoso. As estratégias de sucesso de Duda consistiram, por exemplo, em dissolver o índice de rejeição de Lula entre a população idosa e feminina, mas sem descurar a sua vertente humana e simples. Outra carta na manga foi a mudança no visual do antigo torneiro mecânico.Houve quem ficasse boquiaberto ao ver Lula vestindo um fato Giorgio Armani, mas Duda sempre repudiou a ideia de que estava a "maquilhar" um homem simples, oriundo do operariado e que foi eleito precisamente na qualidade de líder dos trabalhadores federados nos poderosos sindicatos paulistas. Durante a campanha, Duda dizia estar apenas a cuidar da forma do candidato e não do seu conteúdo. "Porque o Lula, se der sopa, bota uma camiseta [t-shirt] e um ténis [sapatilhas]", disse o publicitário numa entrevista recente. "Você se vestir bem é uma maquilhagem? Se você vai para uma festa, você não coloca uma roupa melhor? Se você vai para uma formatura, você não tem que usar uma roupa mais solene em vez de um jeans? Então não é maquilhagem. É o traje que o título exige. (...) Ele estava vestido de político, candidato a presidente da República. Todos têm que se vestir daquele jeito. Se você tiver um candidato de jeans, de camiseta, você vota nele?", argumentou.
Mais do que um mediático "marqueteiro", Duda é visto como um homem de sete instrumentos. Além de tratar da imagem de políticos (aliás, já foi estigmatizado ter como cliente o controverso Paulo Maluf), Duda tem experiência reconhecida como redactor publicitário, criativo, director de televisão e criador de jingles que colam ao ouvido. Também é um adepto fervoroso de lutas de galo, uma paixão que lhe rendeu um incómodo escândalo em Outubro do ano passado. Durante uma operação da Polícia Federal para reprimir este tipo de jogo ilegal na zona oeste do Rio de Janeiro, Duda foi preso em flagrante num casarão onde funcionavam três arenas e um viveiro com mais de cem animais.

"Papa da propaganda" e pai de sete filhos
Nascido em São Salvador da Bahia há 61 anos, este pai de sete filhos goza hoje de um estatuto impensável para alguém que cresceu numa casa humilde do Nordeste brasileiro. Pelo trabalho que desenvolveu na publicidade a partir de 1976, o "marqueteiro" - como a profissão é chamada no país do Carnaval - arrebatou os grandes prémios da especialidade, incluindo seis Leões em Cannes em três anos consecutivos (1982, 1983 e 1984). Com todo esse currículo, o baiano tornou-se uma espécie de "papa da propaganda" no Brasil.
O senso comum sempre rezou que uma empresa (ou personalidade) que punha a sua imagem nas mãos de Duda pagava caro, mas, em contrapartida, tinha resultados. O especialista acabou por criar uma agência com o seu nome, com cerca de 150 empregados e filiais em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, que arrebatou contas cobiçadas, como a da indústria de bebidas Guaraná Antárctica e da refinaria Petrobrás. Em Junho de 2005, por exemplo, o publicitário foi aplaudido de pé pela assistência que participava na 19ª Semana Internacional da Criação Publicitária, em São Paulo.
É certo que teve o mérito de, pela primeira vez, levar até Brasília um homem do povo, mas confessou numa entrevista recente que já estava "enchendo o saco tanta campanha política". Tendo em vista as próximas presidenciais, agendadas para 2006, Duda Mendonça disse há alguns meses que manteria a mesma estratégia de campanha. A única diferença é que, em vez de "vender" as promessas do PT, a agência publicitária planeava promover a obra feita. E também os projectos na calha, como os sistemas de irrigação com base no rio São Francisco que, mais uma vez, prometem acabar com a seca no Nordeste. Por certo Duda Mendonça não contava ter pela frente o escândalo do "mensalão" e, por ironia do destino, ser ele próprio a manchar a imagem que ajudou a entronizar.