A segunda morte de A Capital

O encerramento de A Capital é a segunda morte de um título que nasceu vespertino e acaba como matutino. Quando saiu para a rua, a 21 de Fevereiro de 1968, com os nomes de Norberto Lopes, director, e Mário Neves, director adjunto, no cabeçalho, A Capital estava apenas a regressar ao convívio dos leitores. O título principal da primeira página desse dia, "Continuidade", era disso sinal: A Capital retomava o nome e invocava a tradição do jornal fundado por Manuel Guimarães em 1910, pouco antes da proclamação da República, e que acabara logo depois do movimento de 28 de Maio de 1926, que abriu caminho à ditadura. Aquela primeira morte fora um encerramento ditado "por dificuldades administrativas que não conseguiu vencer". Era isso, pelo menos, o que dizia o primeiro número da segunda série.
Ainda antes dess"A Capital do período republicano existiu esporadicamente, na segunda metade do século XIX, um jornal com o mesmo nome, da responsabilidade de Cândido de Figueiredo. Mas a tradição invocada pelos fundadores da segunda série é a do jornal de Manuel Guimarães, que teve como colaboradores André Brun e Júlio Dantas.
Em divergência com a administração do Diário de Lisboa, do qual eram directores, Norberto Lopes e Mário Neves, acompanhados de mais alguns jornalistas do Lisboa, recuperam em 1968 o título republicano. "Surgiu como um jornal não ligado ao regime, como um jornal da oposição, do reviralho", recorda Daniel Ricardo, hoje editor executivo da Visão, repórter nos primeiros anos do vespertino.
A saída de Norberto Lopes da direcção d"A Capital nunca foi bem explicada, mas terá ficado ligada a um bilhete na primeira página titulado "Conversa Fiada", numa alusão a uma das Conversas em Família, do chefe do Governo, Marcelo Caetano, na RTP. Maurício de Oliveira dirige o diário temporariamente.
Os fundadores começam a vender as quotas e a perder o controlo do jornal. Marcelo Caetano terá incentivado os novos proprietários - Grupo Queiroz Pereira, proprietário do Banco Espírito Santo, associado a empresas como a Tabaqueira - a fazerem d"A Capital uma Época da tarde. A Época era o jornal da Associação Nacional Popular, o único partido autorizado.

O único vespertinoA administração é confiada por Queiroz Pereira a Luís Fontoura, a direcção a Manuel José Homem de Mello. Mas é nesta fase, que se inicia em Junho de 1971, que o jornal vai corrigir o rumo, porque, recorda Daniel Ricardo, os fundadores tinham ido "fazer n"A Capital o que faziam no Diário de Lisboa, enquanto o Diário de Lisboa se renovava". Com meios, o jornal apostou forte na cobertura da actualidade e na reportagem, o que o leva dos oito mil exemplares para que caíra aos 40 mil. Era um jornal "popular de qualidade, como não temos nenhum", recorda Daniel Ricardo, que integrou a chefia de Redacção liderada por Rudolfo Iriarte, mais tarde director, Cáceres Monteiro, hoje director editorial da Visão, e Manuel Beça Múrias.
Como toda a imprensa, A Capital é atravessada pelas lutas político-partidárias do pós-25 de Abril. Nacionalizada, conseguiu, apesar das dificuldades financeiras, da dependência do Estado e de uma instabilidade quase permanente, sobreviver. David Mourão-Ferreira e Francisco Sousa Tavares foram dois dos seus directores no período da democracia.
Comprado por Pinto Balsemão em 1988, na fase de reprivatização da imprensa, o jornal nunca conseguiu retomar o fulgor de tempos idos. Helena Sanches Osório foi quem, nessa fase, dirigiu o jornal de forma mais duradoura. Mas os novos tempos pareciam correr contra A Capital, como contra os vespertinos.
Já no fim dos anos 90, perante o fecho iminente, o então director, António Matos, aceitou ficar com o título para evitar o encerramento. Contra os cenários mais pessimistas, o jornal sobrevive. Em 2001, a Prensa Ibérica assume o passivo e o controlo do título. Isolado no mercado de vespertinos, o diário torna-se matutino, reduzindo custos de distribuição. A aposta num teor mais lisboeta também não conquista as graças dos leitores. No último ano, com Luís Osório como director, o jornal procura refrescar a imagem e abandona o carácter mais local. Mas a queda dos números de vendas acentua-se. E a Prensa Ibérica decide abandonar a sua aventura na imprensa portuguesa. João Manuel Rocha