Carrilho e os limites do jornalismo

Todos nós demos conta de que a campanha eleitoral para as autárquicas de Lisboa já começou. Os cartazes invadiram as ruas, subiram de tom as conversas entre amigos, os órgãos de comunicação social começaram a agarrar o tema e a "lançar" ou a "atacar" candidatos. Tudo em nome do rigor, isenção, objectividade e pluralismo da informação, valores estes que lhe cabe a si, senhor director, defender, porque estão inscritos no estatuto editorial do seu (nosso) jornal, para não referir a Constituição da República. Creia que não lhe invejo a missão. Ser árbitro nesta contenda a quatro, arredar pressões (in)suspeitas, descodificar mensagens cifradas, pesar e medir palavras, não me parece coisa fácil e compreendo que se refugie à sombra da directoria para não ter que se incomodar.
Apesar disso, peço-lhe que preste atenção ao que vai saindo no seu (nosso) jornal, que isto promete aquecer daqui até Outubro. E o pior de tudo é que dantes os jornalistas escreviam notícias, agora escrevem artigos de opinião disfarçados de notícias e a atenção tem que ser redobrada - a sua e a nossa. Se calhar é um direito que lhes assiste. Todos nós temos opiniões e gostamos de as transmitir aos outros, então, por que razão obrigar um jornalista a conter-se, a ser isento e objectivo, a não utilizar o seu (nosso) jornal para nos dar a conhecer os seus "estados de alma", a sua visão sobre o mundo em geral e as coisas em particular, num jornalismo subjectivo e intimista que, pelos vistos, está na moda?
Vem isto a propósito - ele há sempre um propósito escondido - da "notícia" saída no PÚBLICO a 8 de Junho, sobre a apresentação formal da candidatura de Carrilho, assinada pela jornalista Ana Sá Lopes.
Quer se goste ou não do vídeo que precedeu a dita apresentação - e eu, pessoalmente, não gostei -, o certo é que ele não deveria ser o tema fundamental da notícia, visto que, na perspectiva do leitor, o essencial é a linha de rumo traçada pelo candidato, as ideias chave do seu projecto, o futuro que aquele concreto candidato ambiciona para a cidade e ainda as questões que a jornalista entendesse dever serem levantadas sobre tudo isso. E, sobre isso, meia dúzia de linhas no final do texto, apressadas e esvaziadas de conteúdo. Na meia página ímpar restante, a jornalista trunca frases que, desligadas do contexto em que foram pronunciadas e das imagens que as suportavam, adquirem outro sentido e se tornam ridículas.
É isso jornalismo, senhor director? É que, se for, eu passo a comprar o Correio da Manhã, que, pelo menos, é mais transparente.
Rita Matias
Lisboa

Sampaio na Cova da Moura

Sampaio visita pela terceira vez o Bairro da Cova da Moura. Que diligências promoveu Jorge Sampaio, como Presidente da Republica, para resolver os problemas daquele bairro, após as primeiras duas visitas? Nenhumas. Porque tudo continua pior.Ireneu Diniz, assassinado no início do ano com 22 balas na Cova da Moura. Lembrar-se-á Sampaio do seu nome? Suspeito que não. E Soeira, o que será isso? É a aldeia distante do agente Ireneu, morto em serviço aos 33 anos, e que não mereceu a visita do presidente. A centena de habitantes daquela esquecida aldeia do concelho de Vinhais, Trás-os-Montes, teria apreciado o gesto que significaria uma visita do presidente naquele momento de dor.
O gesto teria sido do mesmo modo sentido pelos milhares de agentes da autoridade espalhados pelo país e que viram que aquela morte poderia muito bem ter sido a de qualquer um deles, no desempenho do seu trabalho, difícil e ingrato. Viveram por isso aquele luto de um modo especialmente intenso.
Mas o presidente não esteve em Soeira. Está na Cova da Moura, comovido e certamente consternado com os sinais de racismo que surgem em Portugal e com o dedo inquisidor que o país real aponta aos jovens delinquentes daquele bairro envolvidos no mega assalto da praia de Carcavelos.
Eles apenas são vítimas da sociedade em que vivemos; há que os integrar, dar-lhes oportunidades, etc. Mas mais uma vez pergunto: o que fez Jorge Sampaio, em concreto, após as suas duas primeiras visitas à Cova da Moura para resolver o problema desses jovens desenraizados? Nada. E o que vai fazer agora? Nada.
Daqui a uns dias voltam os fogos e volta-se a esquecer que a Cova da Moura existe, até à próxima desgraça, seguida de mais uma visita do Presidente comovido.
Francisco Oliveira
Lisboa