Entre a contestação aberta e a resignação

Socialistas procuram digerir medidas de austeridade anunciadas pelo Governo

O facto de as medidas de austeridade terem sido anunciadas em pacote e sem a concreta explicação deixa também os militantes um pouco perplexos
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O facto de as medidas de austeridade terem sido anunciadas em pacote e sem a concreta explicação deixa também os militantes um pouco perplexos Manuel de Almeida/Lusa

José Sócrates pediu o apoio do partido para acompanhar o Governo na aplicação das medidas de austeridade, mesmo reconhecendo que não foi capaz de cumprir integralmente o que tinha prometido durante a campanha.

"Uma alteração das circunstâncias significa uma alteração de decisões", justificou, para tentar explicar o aumento dos impostos. No seio do partido, no entanto, os militantes de base parecem querer explicações mais detalhadas, principalmente em matérias ligadas às questões sociais. Já no que respeita às regalias da classe política, os cortes são aplaudidos e só pecam por tardios.

Numa das mais participadas reuniões do PS realizadas no Porto - onde, aliás, se incluíam dezenas de simpatizantes -, António Costa teve de ir buscar a sua larga experiência política para "dar a volta" ao clima de confronto aberto que se instalou logo após as primeiras intervenções contra as medidas de contenção decretadas pelo Governo de José Sócrates. "Ao princípio, houve declarações muito radicais, algumas quase antiparlamentares, que mereceram aplausos", confirmou ao PÚBLICO um dos dirigentes nacionais na reunião, advertindo, no entanto, que subjacentes a perplexidades e críticas estão, em muitos casos, "motivações de ordem corporativa".

Mas também "crispações" que resultarão do desconhecimento de algumas das medidas e as consequências concretas que terão sobre os trabalhadores, com especial enfoque nos casos relativos aos funcionários públicos. Segundo alguns relatos, foram inúmeras as interrogações a propósito dos cortes na segurança social e, sobretudo, no prolongamento da idade de reforma, que passa dos 60 para os 65 anos na Função Pública. "A ideia da sustentabilidade do sistema de segurança social recua perante os casos pessoais. As pessoas querem saber se perdem já os seus direitos e percebe-se uma vaga de inquietação", reconheceu um outro dirigente nacional. Ainda assim, Costa - que terá conseguido travar a onda de contestação - terá levado matéria suficiente para transmitir ao secretário-geral a necessidade de um maior esclarecimento sobre o conjunto de medidas que o Governo pretende pôr em prática.

Na véspera, em Lisboa, coube ao ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, inaugurar o ciclo de plenários destinados a explicar aos militantes as medidas de austeridade. O principal apelo foi para que não se mimetize a "obsessão do défice" operada pelo Governo do PSD-CDS, mas os participantes no encontro - que decorreu à porta fechada - não se esqueceram de sublinhar que, nesta matéria, se exige do Governo que adopte um comportamento exemplar na redução de despesas.

A maioria dos socialistas pertenciam à função pública, pelo que muitas questões colocadas continham preocupações sobre os efeitos das medidas de austeridade junto destes trabalhadores.

Questões muito concretas foi também o que teve de enfrentar o líder parlamentar socialista na sessão promovida pela distrital de Braga. Realizado no Vale do Ave, em Vila Nova de Famalicão, o encontro foi aproveitado por muitos militantes para tentarem perceber em que medida a sua situação de pré-reforma (muito frequente na região face ao encerramento de empresas têxteis) poderia ser alterada. Sem resposta para a minúcia das questões, Alberto Martins procurou centrar a discussão nas questões da militância, lembrando que o papel do partido passa pelo apoio às medidas do Governo e que só a este caberá dar as explicações. "As coisas estão a ser anunciadas em grosso, sem se ter a noção que faltam respostas concretas, explicações", disse ao PÚBLICO um antigo presidente da distrital, como que a justificar o ambiente de desconforto do encontro. Outra crítica dirigiu-se ao desfasamento entre as medidas que visam os trabalhadores e as que retiram privilégios a políticos. Estas até "poderiam ter um efeito positivo, que funcionasse como amortecedor junto da população, mas o facto de só entrarem em vigor para o ano acaba por diluir esse impacto", conclui.

O facto de as medidas de austeridade terem sido anunciadas em pacote e sem a concreta explicação deixa também os militantes um pouco perplexos. "Foi o que aconteceu com o horário laboral de 40 horas adoptado por Maria João Rodrigues quando foi ministra. O que era uma boa medida e uma bandeira do PS, acabou por se converter numa dor de cabeça para o Governo, precisamente porque não foi devidamente explicada", aponta, a título de exemplo, outro dirigente.

Depois do clima de enfrentamento que se viveu nos primeiros encontros, a sessão organizada, no dia seguinte, em Viana do Castelo acabou por decorrer num ambiente "que naturalmente não foi de entusiasmo, mas de resignação", como explicou o deputado Jorge Fão. Talvez prevenido pelo que tinha presenciado na véspera no Porto, Carlos Lage, o dirigente destacado para a sessão, teve o cuidado de contextualizar e explicar as medidas, tendo apelado à militância, pedindo "disponibilidade para aguentar o impacto negativo e dar apoio ao Governo na aplicação das medidas".