Intus, de Helena Almeida, é inaugurada hoje em Veneza

Helena Almeida é uma das dez presenças mais aguardadas em Itália. Mostra fotografia e vídeo.
A bienal abre domingo com a segunda maior presença portuguesa de sempre

Em Santa Croce, na ilha da Giudecca, o vaporetto da linha 1 que faz o Canal Grande deixa os seus passageiros num cais que se abre em praceta. É ao fundo, ao lado da igreja de Santo Stae, que fica o pequeno edifício Scoletta Tiraoro e Battioro, este ano transformado em espaço de representação oficial portuguesa na Bienal de Veneza.A bienal propriamente dita - o mais importante encontro internacional para as artes plásticas, em que participam 72 países e centenas de artistas - abre ao público apenas no domingo, mas a exposição portuguesa, desta vez a cargo de Helena Almeida, é inaugurada já hoje, às 18h, com uma comitiva oficial de que fazem parte, entre outros, o primeiro-ministro José Sócrates, o seu assessor para a Cultura Alexandre Melo, a ministra da Cultura Isabel Pires de Lima e o ministro da Economia Manuel Pinho.
Intitulada Intus ("de dentro"), a exposição arranca com uma obra histórica da artista, Tela Habitada, de 1977, com que se evoca o seu já longo percurso. Os trabalhos feitos expressamente para a bienal são a série inédita de 12 fotografias Eu Estou Aqui e o vídeo A Experiência do Lugar II, apresentado pela única vez no princípio do ano na exposição do prémio Besphoto, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa (Helena Almeida foi a vencedora).
No vídeo, apenas o segundo que mostra em quase 30 anos, a artista surge a percorrer de joelhos o chão do seu atelier. O ambiente é o de uma inesperada peregrinação dessacralizada, mas está lá o tipo de reconhecimento do seu espaço de trabalho que a artista tem vindo a explorar. As fotografias de Eu Estou Aqui partiram desta experiência (ver caixa). Nelas, como na série Seduzir, apresentada pela primeira vez na grande retrospectiva Pés no Chão, Cabeça no Céu (CCB, 2004), a artista desarma quem a observa.
Numa coreografia mínima, uma mulher aparece num gesto de generosidade, braços abertos, como que a oferecer-se a outro corpo. Noutro momento inclina-se para a frente, numa vénia. E de repente, numa só imagem, a boca abre-se-lhe para revelar um vermelho vivo de sangue que se entorna, princípio de dor.
"Quando as pessoas julgam que estão a entender as coisas largam as defesas, é a altura de lhes cravar um punhal. Temos que ter alguma argúcia, alguma malícia", dizia a artista em relação à série Seduzir, onde, envolvida numa dança íntima, quase coquette, deixava, a dada altura, um rasto vermelho no chão.
Para a comissária da mostra, Isabel Carlos, não deixa de ser curioso que estes sejam os trabalhos que a artista criou para mostrar em Veneza: desmonstram, diz, a "subtileza corrosiva com que trata os grandes altares da consagração artística".
Curadora independente, Isabel Carlos foi no ano passado comissária geral da Bienal de Sydney, o maior evento internacional alguma vez dirigido por um português. Foi lá que a conhecida crítica e ensaísta norte-americana Peggy Phelan conheceu e se apaixonou pela obra de Helena Almeida. Assina um dos textos do catálogo português de Veneza. Nele escreve: "Paul Klee observou: "Uma linha é um ponto que foi passear." Helena Almeida mostra-nos uma história desses passeios através do espaço do seu atelier, através da história dos últimos 38 anos. A sua obra atravessa suportes e meios, unindo as linhas que habitualmente separam o desenho, a pintura, a dança, a fotografia, o vídeo e a arquitectura."
Representante oficial portuguesa, a par com nomes como Ed Ruscha, pelos Estados Unidos, ou Gilbert & George, pela Inglaterra, Helena Almeida é uma das 10 presenças mais aguardadas na bienal, anunciaram há uns meses as comissárias gerais do evento, as espanholas María de Corral e Rosa Martínez, que já comissariaram mostras da artista em espaços como o Centro Galego de Arte Contemporânea (Corral) e eventos como a Bienal de Istambul (Martínez). Foram María de Corral e Rosa Martínez quem, directamente, convidaram os outros três artistas portugueses que vão estar na bienal além da representação oficial (ver textos ao lado) e que fazem a segunda maior presença de sempre no evento.