O NOME DA RUA
"Essa placa precisava de ser pintada!", resmunga José Paiva, dono de uma sapataria, na Rua de Eduardo Coelho, em Coimbra, enquanto aponta para a lápide, colocada na fachada do prédio número 73/77, onde se lê a seguinte inscrição: "Nesta casa, nasceu, em 22 de Abril de 1835, José Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, benemérito da imprensa popular, o qual faleceu em Lisboa, em 14 de Maio de 1899". "Isto não pode ser pintado, ó artista! Isto tem é de ser limpo!", grita Jaime Cruz, que também trabalha numa das várias sapatarias existentes na artéria, encostado à parede da casa onde nasceu o jornalista.Eduardo Coelho, que, em 1864, lançou, juntamente com Tomás Quintino Antunes, o primeiro número do matutino Diário de Notícias, começou por trabalhar na área do comércio, mas cedo a sua vocação para a escrita se impôs. Eduardo Coelho chegou a ser tipógrafo, mas as suas ambições jornalísticas e talento fizeram-no subir às redacções de várias publicações: Nacional, Crónica dos Teatros, Conservador, Revolução de Setembro, entre outras. A sua arte não se ficou pelo espaço da informação e do comentário, estendendo-se aos domínios da tradução, da dramaturgia e do romance. Entre as obras que publicou, destacam-se Opressão e Liberdade, A vida de um príncipe, A castelã, O filho das artes e Visconde por meia hora.
Hoje em dia, o arruamento, situado na Baixinha de Coimbra, está apetrechado de estabelecimentos comerciais, mas não foi sempre assim. O vereador da Cultura na autarquia, Mário Nunes, recorda que, em tempos, "o teatro se concentrava ali". De acordo com o edil, até ao princípio do século XX, grande parte da actividade cultural de Coimbra, nomeadamente nas áreas do teatro e do cinema, acontecia nesta zona da cidade, sobretudo nas ruas de Adelino Veiga e de Eduardo Coelho. De acordo com o livro Ruas de Coimbra, de Mário Nunes, "na Rua de Eduardo Coelho fundaram-se, em 1876 e 1886, respectivamente, duas associações de amadores dramáticos: a Sociedade Dramática da Rua dos Sapateiros, tendo a dirigi-la o poeta-operário Adelino Veiga e o negociante João Alves Brandão; e a Sociedade União Recreativa".
Mas a rua não teve sempre este nome. Foi apenas em 1904, mais precisamente no dia 9 de Dezembro, por deliberação camarária e a pedido da Associação de Jornalistas de Lisboa, que o topónimo passou de Rua dos Sapateiros para Rua de Eduardo Coelho, tendo já, em outros tempos, conhecido topónimos como Rua dos Pintadores, Rua de Mompilher e Rua da Saboaria. Do antigo topónimo de Rua dos Sapateiros, ainda há alguma memória que persiste, não tanto no ofício, mas na versão moderna dele: a artéria está repleta de sapatarias. Já não são artífices do calçado, mas vendedores e, pelo menos, José Paiva e Jaime Cruz, vizinhos no negócio, mostram-se afeiçoados às relíquias da rua, tendo ficado a discutir a melhor forma de conservar a lápide pendurada na casa onde nasceu Eduardo Coelho.