"Fui eu que dei o cianeto a Goering"

Confissão de veterano soldado dos EUA pode esclarecer um dos maiores mistérios da Segunda Guerra Mundial

Bob Pool, Los Angeles

Como é que, em 1946, o criminoso de guerra nazi Hermann Goering conseguiu matar-se com veneno, quando o Exército dos Estados Unidos se preparava para o enforcar?Há quase 60 anos que circulam mais de uma dezena de teorias sobre como é que o "número dois" nazi logrou suicidar-se, apesar de sujeito a uma vigilância extrema na sua cela de prisão. Alguns historiadores defendem que Goering sempre teve com ele o cianeto, durante os 11 meses do julgamento de crimes de guerra em Nuremberga; o veneno estaria escondido num buraco num dente, debaixo do cabelo, no umbigo ou no recto.
Outros defendem que alguém lhe passou o veneno pouco antes da data marcada para a morte; talvez um oficial americano a quem ele teria subornado com um relógio, ou um oficial das SS nazis que o teria levado dentro de um sabonete, ou a mulher, Emmy, que o teria passado da boca dela para a dele num verdadeiro "beijo da morte", durante a última visita.
Herbert Lee Stivers afirma que estão todos enganados. "Fui eu que lho dei", diz o metalúrgico reformado, que vive em Hesperia, uma localidade de 50 mil habitantes a leste de Los Angeles. Stivers tem 78 anos e diz que manteve este segredo durante quase 60 anos com medo de poder vir a ser alvo de um processo por parte do Exército dos EUA. Agora decidiu contar a história e diz que foi a pedido da filha.
Se mente ou fala verdade, é impossível saber. Outros protagonistas do caso já morreram. Mas os registos mostram que Stivers serviu como guarda durante o julgamento em Nuremberga. E alguns historiadores contactados pelo "Los Angeles Times" acreditam que há algo de verdade na sua história.
"Parece mais credível do que a história habitual sobre o veneno escondido no dente oco", observou Cornelius Schnauber, professor da Universidade da Califórnia do Sul. Ele acredita que alguém levou para a prisão a ampola de veneno que Goering mordeu duas horas antes da planeada execução. "Pode ter sido esse soldado", admite.

Um miúdo seduzido por uma morenaSegundo Stivers, Goering escapou à forca por causa de uma paixão de adolescente. Ele tinha 19 anos e só queria impressionar uma rapariga que encontrou na rua, quando aceitou levar "um remédio" a Goering, que supostamente estaria doente.
Stivers era do 26º Regimento da 1ª Divisão de Infantaria, cuja Companhia D fora encarregada de fazer a guarda de honra no julgamento. Os guardas, de capacete branco, escoltavam os 22 réus nazis e ficavam junto deles durante as sessões.
Era um aborrecimento, diz Stivers. Os soldados podiam falar com os prisioneiros, até pedir-lhes autógrafos. "Goering era um tipo muito agradável. Falava um inglês bastante bom. Falávamos sobre desporto. Ele era da aviação e falávamos sobre Lindbergh", recorda o antigo soldado.
Stivers arranjou uma namorada alemã, uma rapariga de 18 anos, Hildegarde Bruner, a quem dava doces, amendoins e cigarros para que ela e a mãe pudessem trocá-los por dinheiro no mercado negro. Mas um dia, à porta de um hotel onde ficava um clube de oficiais, foi abordado por outra mulher, que descreve como uma beldade morena que disse chamar-se Mona.
Foi Mona que no dia seguinte o levou a um encontro com dois homens que se apresentaram como Erich e Mathias. Eles disseram-lhe que Goering era "um homem muito doente" que não estava a receber a medicação de que precisava. Por duas vezes, conta Stivers, levou a Goering notas escondidas por Erich numa caneta; da terceira, Erich pôs na caneta uma cápsula. "Disse que era medicação e que enviariam mais, se Goering se sentisse melhor", afirma.
Após entregar o "medicamento", Stivers devolveu a caneta à jovem e nunca mais a viu. "Quando a levei a Goering, nunca pensei em suicídio. Ele nunca estava deprimido. Não parecia suicida."
Duas semanas depois, em 15 de Outubro de 1946, Goering suicidou-se. Deixou uma nota a dizer que tinha tido sempre consigo o cianeto. Uma busca efectuada aos bens do chefe nazi num armazém da prisão descobriu outra ampola.
Stivers ficou abalado pelo suicídio. Os guardas de serviço foram sujeitos a interrogatórios severos. Mas a Stivers e a outros só perguntaram se tinham visto algo de suspeito. A investigação oficial concluiu que Goering tinha tido o cianeto sempre com ele. PÚBLICO/"Los Angeles Times"