Gala do cinema espanhol

"Mar Adentro" arrecada 14 prémios Goya

Amenabar e Belen Rueda celebram mais um Goya entregue a "Mar Adentro"
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Amenabar e Belen Rueda celebram mais um Goya entregue a "Mar Adentro" Juanjo Martin/EPA

"Mar Adentro", o último filme de Alejandro Amenábar, ganhou 14 prémios Goya, o troféu anualmente atribuído pela Academia de Cinema de Espanha. Uma vitória esperada para o filme que retrata a vida de Ramón Sampedro, o marinheiro galego que, ainda jovem, ficou tetraplégico devido a um acidente na praia, e que pôs termo à sua vida bebendo cianeto. Por isso, para além de um bom filme, "Mar Adentro" (com estreia nas salas portuguesas prevista para 24 de Fevereiro) criou a oportunidade para abordar um tema tabu da sociedade espanhola, e não só: o direito a uma morte digna.

"Agora, partimos para o segundo objectivo, e com este Goya penso que o filme pode despertar mais interesse nos Estados Unidos", disse anteontem à noite Alejandro Amenábar, após receber o galardão no Pavilhão de Congressos de Madrid.

Foi o terceiro prémio na carreira deste jovem realizador de 33 anos, após os Goya atribuídos aos seus anteriores filmes, "Tesis" (1996) e "Os Outros" (2001). A estes três galardões, Amenábar somou, agora, as estátuas do prémio para o melhor guião original e melhor música por "Mar Adentro", pelo que já são sete os Goyas que lhe foram atribuídos na sua carreira profissional de nove anos: os dois restantes contemplaram, também, os guiões dos seus anteriores trabalhos.

"Mar Adentro" não só marca um ponto alto na carreira de Amenábar - por ser candidato ao Oscar de melhor filme de língua não inglesa nos Estados Unidos -, mas fixa um novo patamar no cinema espanhol: supera o conseguido, em 1990, por "Ay Carmela", de Carlo Saura, que então conseguiu 13 Goyas. Um autêntico vendaval. Para além dos prémios para melhor filme, melhor realização, música, guião, som, fotografia, direcção de produção e maquilhagem, a Academia de Cinema de Espanha galardoou todos os seus actores: Javier Bardem e Lola Dueñas, protagonistas; Belén Rueda e Tamar Novas, actores revelação; Mabel Rivera e Celso Bugallo, actores secundários.

Pedro Almodóvar ficou em branco

Toda a cerimónia, que durou mais de três horas na noite de domingo, ficou marcada pelo "vendaval" de "Mar Adentro". Outro dos candidatos, Pedro Almodóvar, com "A Má Educação", ficou em branco, e o realizador nem sequer compareceu à cerimónia. Do mesmo modo, "Tio Vivo", de José Luís Garci, um relato ambientado na Espanha dos anos 50, apenas conseguiu o prémio para a melhor direcção artística. Já "El Lobo", baseado na história de um infiltrado na ETA, ganhou dois Goyas técnicos: melhor montagem e efeitos especiais.

Destaque, ainda, para os galardões atribuídos a "O Milagre de Candeal", de Fernando Trueba, que foi galardoado com os prémios de melhor documentário e de melhor canção original - "Zambie Mameto", do brasileiro Carlinhos Brown.

O clássico Goya de honra, em homenagem a uma carreira, foi este ano atribuído ao veterano José Luís López Vazquez, com 250 filmes em 50 anos de trabalho, e que, após séries televisivas, regressou agora aos palcos de teatro.

Se as anteriores cerimónias ficaram marcadas pela polémica - pelo "Não à guerra" de 2003, que desesperou o Governo então presidido por José Maria Aznar -, a cerimónia de domingo, apresentada pela soprano Montserrat Caballé e pelos actores António Resines e Maribel Verdú, ficou marcada pelo reconhecimento oficial ao cinema espanhol. Pela primeira vez em 19 edições, um presidente de Governo - José Luís Zapatero - esteve presente.

Mas nem tudo vai bem no cinema espanhol, como sublinharam diversos intervenientes. Não só, no ano passado, os filmes feitos em Espanha por espanhóis perderam três milhões de espectadores, como a indústria cinematográfica sofre com a concorrência da pirataria. "Não é nada agradável ver o teu trabalho à venda no chão de uma esquina", disse no seu discurso inicial a presidente da Academia, Mercedes Sampietro. E, à porta do Pavilhão de Congressos da capital espanhola, lá estavam os trabalhadores da Madrid Film, empresa de revelação e pós-produção recentemente adquirida por uma multinacional, a denunciar os despedimentos de que estão a ser vítimas.