Crítica

Inesquecível

Neste filme, Chaplin ainda é Charlot e já não é Charlot: a silhueta aparece intocada, mas encontra-se investida de consideráveis ventos de mudança. Para todos os efeitos, considera-se como a última aparição da sua "persona" cinematográfica icónica, mas se Charlot nascera da pobreza dos tempos da Guerra, afrontava agora o mundo proletrizado do operariado industrial.

Por detrás do filme aparece, pois, uma clara influência da estética formalista dos cineastas soviéticos, numa distopia do indivíduo alienado pela máquina em tempos da Grande Depressão, depois do "crash" da bolsa de 1929.

O "gag" da bandeira vermelha caída do camião, com a qual parece liderar a manifestação dos desempregados, ou a metáfora das ovelhas, representando as massas humanas, continuam a possuir enorme impacte hoje. Todos os efeitos cómicos da linha de montagem ou da máquina de alimentar os operários repegam numa concepção crítica das vantagens da técnica que Keaton já satirizara, com menor amplitude política, em "The Electric House".

Existe em "Tempos Modernos" uma quase anárquica intervenção, até pelo facto de o vagabundo encontrar a sua alma gémea numa outra "desafortunada", Paulette Godard, assumindo-se os dois nem como vítimas, nem como heróis, apenas seres humanos num mundo de autómatos.

Inesquecível permanece a cena musical em que a voz de Chaplin se ouve praticamente pela primeira vez, embora numa canção sem sentido, porque a personagem perdeu a cábula com as palavras. E o final suspende o caminho do par, de costas, face ao horizonte desconhecido.

P24 O seu Público em -- -- minutos

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