A excessiva importância social e política que damos ao futebol é ditatorial e asfixiante

%Natália Faria Fernando Veludo

Começou por fazer parte da alta burguesia ligada aos ingleses. Depressa se alargou a todas as classes sociais e Salazar não tardou em usá-lo como instrumento legitimador. Hoje, a sociedade portuguesa está totalmente futebolizada, espelhando um país litoralizado e imobilista. O sociólogo João Nuno Coelho diz que há uma total futebolização da sociedade portuguesa e havemos de pagar um preço depois do Euro 2004.P. Em que momento é que, em Portugal, o futebol deixou de ser um fenómeno de elites para se democratizar e tornar num espectáculo de massas? Nos anos 1920 e 1930. O primeiro jogo de futebol envolvendo portugueses foi em 1888, promovido pela aristocracia e alta burguesia de Lisboa, que tinham contactos com os ingleses ou alguns filhos a estudar em Inglaterra, e que trouxeram bolas e começaram, no fundo, a convidar os seus pares para jogar futebol. Até ao final do século XIX, é essa a realidade: um desporto praticado de forma desinteressada, sem estruturas, sem clubes, apenas brincadeira de amigos. P. Mas expande-se rapidamente a toda a sociedade. Curiosamente, o futebol teve alguma dificuldade de inserção por causa do Ultimato inglês, que levou a que se considerasse mau tudo o que estivesse conotado com os ingleses. O futebol era, aliás, chamado o "jogo do coice" dos ingleses. Só no início do século XX é que surge o primeiro clube de base claramente popular, quando diversos casapianos se juntam para criar o Sport Lisboa e Benfica (na altura Sport Lisboa de Belém). O Sporting e o Porto, que nasceram também nessa altura, foram criados por pessoas de condição social superior e ainda com muitas ligações aos ingleses. P. O futebol português não ajudou também a alcandorar à condição de heróis indivíduos de classes baixas? A popularidade do futebol está muito ligada ao associativismo e às identidades locais. Por volta de 1910, o futebol começa a representar o local em competição com outros locais, proporcionando a sensação de pertença, de fazer parte de algo. É a partir do momento em que se tornam legítimos representantes do local (da nossa cidade do nosso país...) que os jogadores são elevados à condição de heróis. Aquilo que eles dão, no fundo, é a validação da nossa identidade. P. Essa equiparação dos de condição baixa à condição de heróis não baralhava a lógica salazarista, que promovia a conformação social, o viver pobre e alegremente? Sim, mas até 1960 não havia profissionalismo no futebol em Portugal. Ninguém podia dizer que havia jogadores profissionais a ganhar imenso dinheiro. Não era legal nem assumido. Ou seja, essa ideia do herói não era correspondida por pagamentos e por capital económico. Por outro lado, Salazar não permitiu que vários jogadores fossem para o estrangeiro. O Eusébio podia ter ido jogar para o estrangeiro ganhar imenso dinheiro nos anos 60, mas foi proibida a sua saída, porque era um símbolo nacional. P. E daí passa-se para o aproveitamento do futebol enquanto instrumento de afirmação do orgulho pátrio? Apesar de não gostar nada de futebol, Salazar teve a noção de que ele podia ajudar a manipular os processos identitários. O Benfica (não por culpa sua mas pelo facto de ganhar) tornou-se muito apelativo em termos de discurso identitário. Mas Salazar serviu-se muito do futebol sobretudo na questão da multirracialidade do Império, aproveitando o facto de haver muitos jogadores oriundos das ex-colónias. P. Isso era usado para legitimar a presença portuguesa nas colónias? Completamente. Numa altura em que havia enorme pressão internacional no sentido do reconhecimento da independência das colónias, o futebol apresentava essa presença de forma positiva, dando a entender que existia respeito pelos colonizados e uma grande multirracialidade, o que não era verdade. P. Como é que o futebol, na altura como agora, reproduz a ideia de nação? O futebol propicia a criação da tal unidade nacional, que é a pedra de toque do nacionalismo, fazendo-nos crer que somos todos iguais, todos portugueses e todos juntos. E esse é o grande perigo, porque esse discurso de unidade facilmente faz esquecer as tais diferenças que são salutares. E porque o futebol faz a tal representação da nação como interesse supremo é que muitas vezes o discurso reproduzido pelos jornalistas e também pelos políticos coloca o interesse da selecção acima de todos os outros interesses, dizendo, em termos simbólicos, que o que interessa é a nação. Aliás, se há ideologia bem sucedida é o nacionalismo, que é apresentado como mais importante do que a própria vida.P. Que consequências é que isso pode ter no viver colectivo?O caso português é muito interessante porque faz parte de um conjunto de países em que a identidade nacional está muito ligada ao futebol. E isso decorre, como dizia o [sociólogo] Boaventura Sousa Santos, do défice de produção de cultura e de identidade nacional, na escola e a vários níveis, por parte do Estado português. P. Que se serve do futebol como muleta para colmatar essa falha? Sim. E chegamos a esse ponto simbólico que é o Euro 2004, que traduz uma grande e quase patética imaginação do centro: estamos nós a tentar fazer parte do centro. E depois vemos os políticos, que detêm as responsabilidades, a falarem permanentemente da sua importância na auto-estima dos portugueses. É algo que a mim me choca profundamente. Sou um grande apaixonado por futebol, mas acho muito grave ver a auto-estima dos portugueses dependente de um evento futebolístico. P. Até porque o futebol é um jogo todo ele dominado pela arbitrariedade: a sorte e o azar... ... E por uma bola de futebol que bate num poste e pelo mau momento de um jogador. Estamos a atravessar um momento de total futebolização da sociedade portuguesa. E havemos de pagar um preço, nomeadamente depois do Euro 2004, por esta excessiva importância social e política do futebol, que é ditatorial e asfixiante. Não faz sentido que o futebol profissional, que tem supostamente tantas potencialidades económicas, seja apoiado pelo poder político. O que faz sentido é apoiar o futebol amador. P. Haverá aqui uma inversão da lógica inicial? A nação usava o futebol para se legitimar e agora é o futebol que se impõe à política. Na medida em que os políticos esperam que o apoio aos clubes se traduza em votos no dia das eleições. E isso também se passa devido à tal simplicidade do futebol que permite que a maior parte das pessoas o compreenda e se sinta capaz de discutir e de manejar os conceitos. Note que a maior parte das esferas mediatizadas surge como complexas e difíceis de interpretar pelas pessoas, enquanto o futebol é muito simples e por isso é que há tantos treinadores de bancada: as pessoas sentem que controlam esses factores. Para os políticos, a colagem ao futebol é também uma maneira de se tornarem compreendidos. P. O que é que o futebol português, dentro e fora do campo, diz daquilo que somos? Por um lado, vemos uma concentração do poder à volta de três clubes. E o facto de os três grandes terem ganho 97 por cento dos títulos diz muito acerca de uma sociedade conservadora e imobilista. E mesmo o Belenenses e o Boavista são clubes das grandes cidades (Lisboa e Porto, respectivamente), o que traduz uma litoralização, uma desigualdade brutal em termos territoriais e sociais. Depois: como é que um fenómeno social que consegue fazer parar o país várias vezes ao ano e abre telejornais e bate recordes de audiência e tem capacidade para vender mais de 300 mil diários desportivos por dia não consegue ter nos estádios mais de uma média de cinco mil espectadores por jogo? O que é que isso diz acerca do processo de mediatização brutal na sociedade portuguesa? O que é que isso diz acerca da participação dos portugueses nas coisas ou da sua acomodação? Acho que diz muito. P. Então o que é que se está a jogar verdadeiramente no Euro 2004? O que se devia estar a jogar era um Campeonato da Europa de Futebol, que é realmente uma festa fantástica. O que me parece é que, ao mesmo tempo, se está a jogar essas representações de pequenez e de grandeza, de decadência, de fazer parte do centro... P. O investimento de dinheiros públicos no evento está à espera de ser justificado com uma vitória portuguesa? Sem dúvida. P. O que é que acontece num cenário de derrota? Há aqui duas coisas diferentes: organização do campeonato e aspecto desportivo. É mais aceitável que corra mal em termos desportivos - embora me preocupe a forma como foi concebida a ideia de que a auto-estima dos portugueses poderá ficar muito melhorada com uma vitória - do que na própria organização do evento. Se a organização falhar, se houver problemas de segurança, então sim, será grave. De resto, não faz sentido que Portugal, com as suas lacunas em termos económicos, organize um campeonato desta dimensão. Os outros países que organizaram campeonatos europeus são centrais: a França, Alemanha, Inglaterra... A Holanda e a Bélgica optaram por organizar juntas o campeonato. P. A Inglaterra, por exemplo, tem diários desportivos? Não. Tem imensas revistas e semanários de desporto, mas, em termos de diários, há jornais generalistas com secções de desporto. P. E como explica o facto de em Portugal haver três diários desportivos? Talvez porque o futebol cumpre funções muito mais vastas do que seria desejável e racional. Isso decorre também da tal incapacidade de o Estado promover políticas de cultura, de desporto que não só o futebol, de educação. É um factor do nosso subdesenvolvimento. P. Pode-se dizer que o futebol tem um efeito terapêutico na vida das pessoas? Não sei se é terapêutico, é com certeza factor de excitação numa sociedade cada vez mais inexcitante, em que as emoções são cada vez mais controladas. Há todo um processo civilizacional que leva ao controlo dos comportamentos e a uma redução cada vez maior dos espaços de transgressão. Nessa medida, o futebol permite um descontrolo controlado das emoções. Mas tenho um cuidado brutal em não me deixar apanhar pelo discurso legitimador, porque o futebol não pode ser tudo na vida, tem que haver outras formas de êxtase.P. E tem os ingredientes de que se compõe a vida: a arbitrariedade, a sorte e o azar, a meritocracia. Porque funciona como uma condensação simbólica das sociedades é que o futebol tem tanta popularidade. E tem, além dos factores que referiu, um elemento neutro, o árbitro, que nos permite justificar as derrotas. Se não houvesse esse bode expiatório, seria terrífico, insuportável para algumas pessoas. Aquele senhor que está ali permite que a derrota nunca seja total. O adepto racionalJoão Nuno Coelho, 34 anos, foi pioneiro na eleição do futebol como objecto de estudo em Portugal. Sociólogo desde 1993, soube fintar os narizes torcidos da academia e hoje tem três livros publicados sobre a matéria. O primeiro, "Portugal, a Equipa de Todos Nós - Nacionalismo, Futebol e Media", saiu em 2001 e valeu-lhe o prémio do Centro de Estudos Sociais para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa. No ano seguinte, arrisca uma história do futebol português no livro "A Paixão do Povo", em parceria com Francisco Pinheiro. A mesma dupla regressou, no início deste mês, às livrarias, com a publicação de "A Nossa Selecção em 50 Jogos". Comum às diferentes publicações é um discurso desempoeirado e uma recusa de olhar o futebol enquanto fenómeno limitado ao relvado. Se calhar porque o seu conhecimento sobre o objecto de estudo vai muito para além da mera perspectiva teórica: além de frequentador assíduo dos estádios, João Nuno Coelho é treinador numa escola para miúdos até aos 10 anos de idade. Afinal, como dizia Ernest Hemingway, só quem vive as coisas pode aspirar a compreendê-las e essa é uma máxima que o sociólogo segue religiosamente. Ou não considerasse ele que as investigações académicas só fazem sentido quando partem de inquietações. No seu caso, a inquietação advém da época em que, ainda miúdo, acompanhava os passos do pai até ao Estádio das Antas. Dez anos de estudo, garante, permitiram-lhe racionalizar a sua condição de adepto. A paixão pelo FC Porto, essa, mantém-se intocável. A identidade nacional está ligada ao futebol devido ao défice de produção de cultura e de educação por parte do EstadoO Euro 2004 traduz uma grande e quase patética imaginação do centro: estamos nós a tentar fazer parte do centro.