Relatos de OVNI podem ser apenas clarões de satélites

O fenómeno luminoso avistado nos céus terça-feira, em vários pontos do país, pelas 23h30, pode não passar do reflexo dos painéis solares dos satélites Iridium. A teoria é do astrónomo José Matos, da Universidade de Aveiro, que registou a coincidência temporal entre os avistamentos e as previsões para a visibilidade desses clarões. Outros astrónomos, no entanto, ficam-se por considerar que se trata apenas de um objecto voador não identificado (OVNI), na verdadeira acepção do termo."A grande maioria dos casos de OVNI são explicados. Mas sobra sempre um por cento que não se conseguem explicar por fenómenos atmosféricos ou astronómicos. Isto não quer dizer que sejam discos voadores - são apenas objectos não identificados", comentou Rosa Doran, do Núcleo Interactivo de Astronomia. José Afonso, astrónomo do Observatório Astronómico de Lisboa, partilha da visão: "A explicação dos paineis solares parece provável, mas não explica os relatos de fumo, os alvos detectados nos radares e o movimento ascentente". José Matos simplifica a explicação. O astrónomo consultou o "site" http://www.heavens-above.com, onde se fazem previsões do avistamento de satélites e verificou que, a 1 de Junho, era suposto que fossem visíveis a partir de Portugal vários clarões, provocados pelo reflexo da luz do Sol nos satélites de comunicações Iridium. Um era pelas 23h24 e outro para as 23h57. Para as noites de 2 e 3 de Junho previam-se novamente clarões deste tipo."Um observador na Terra pode ver clarões muito fortes: uma linha de luz brilhante, que dura dois ou três segundos", diz José Matos. Quem viu diz que o fenómeno luminoso durou dois ou três minutos, o que parece contrariar esta hipótese. Mas "os satélites podem muitas vezes ser vistos no céu à vista desarmada, durante dois ou três minutos", replica José Matos.O porta-voz da Força Aérea Portuguesa (FAP), coronel Carlos Barbosa, disse ao PÚBLICO que os radares de defesa detectaram "vários alvos" durante dois ou três minutos. "Entre as 23h00 e as 23h30 foram detectados alguns alvos de diferentes velocidades, altitudes e posições que duraram dois ou três minutos", sublinhou. Um dos movimentos apresentou uma trajectória ascendente dos sete mil para os 30 mil pés, e outro movia-se nos 40 mil pés. Dois controladores de tráfego aéreo, um de Beja e outro do Montijo, também reportaram o incidente. "Apesar da distância, os dois relatos foram coincidentes. Ambos viram uma luz branca intensa com um rasto de fumo", acrescentou Barbosa, ao salientar que não havia registo de qualquer voo naquelas áreas. Estes registos não se coadunam com a hipótese "Iridium". "Os radares não poderiam detectar os satélites que estão em órbita a 780 quilómetros de altitude. Também os relatos de fumos não encaixam bem na teoria. "Apesar de serem sinceros, os observadores ocasionais vêem coisas inesperadas, e por vezes fazem descrições exageradas", replica o astrónomo de Aveiro.Já os radares da Navegação Aérea de Portugal (NAV), empresa que controla o tráfego aéreo no território nacional, não detectaram nada, apesar de haver zonas em existe "uma cobertura quádrupla na mesma zona", referiu Paulo Lagarto, porta-voz da empresa. A NAV confrontou os cinco pilotos que voavam durante o fenómeno e todos afirmaram não terem registado nada de "anormal". Contudo um controlador aéreo do Porto reportou visualmente um "movimento ascendente". Lagarto não estranha as diferentes respostas dos radares: "Os radares civis e os militares têm missões distintas e, por isso, funcionam em frequências e espaços diferentes". Carlos Barbosa corrobora. O Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) contabilizou duas dezenas de telefonemas oriundos de vários pontos do país na noite de terça-feira. "Todos descreviam uma luz acompanhada com fumo, que uns diziam ser branco e outros preto", constatou o comandante Jorge Vicente, do SNBPC.