Crítica

Vida animal

Três histórias, três capítulos. Amor, perda e redenção. Mosaico visceral, "Amor Cão" deu a conhecer Alejandro González Iñárritu. "Um grito contínuo", segundo o cineasta mexicano.

Octavio, um jovem de um lar miserável, vive com a mãe, o irmão mais velho e a mulher deste, Susana. Para poder fugir com a cunhada, por quem está apaixonado, aposta o cão, Cofi, em sanguinolentos combates clandestinos. Valeria, uma modelo de sucesso, consegue que Daniel, o amante quarentão, abandone finalmente a família. Juntos, instalam-se num apartamento luxuoso, preparando-se para uma vida a dois (ou a três, pois há que contar com o inseparável "caniche" de Valeria). El Chivo, vagabundo que já foi guerrilheiro, percorre as ruas com os seus cães. Assassino a soldo, tenta reconciliar-se com o passado através da filha que o desconhece.

É com o cruzamento destas três histórias que se constrói "Amor Cão/Amores Perros" (2000), o DVD de hoje na série Y. Uma primeira obra, alvo dos mais entusiásticos elogios, que pôs nas bocas do mundo o nome de Alejandro González Iñárritu: de um momento para o outro, o cineasta mexicano passava de ilustre desconhecido a realizador aclamado. Para trás ficava uma carreira como "disc-jockey". A seguir, veio a publicidade e a criação da agência Zeta Film em 1990. Depois, finalmente o cinema, de que o primeiro fruto constituiu a média-metragem "Detrás Del Dinero", com Miguel Bosé.

O salto para projectos de maior envergadura demorou três anos a concretizar-se, período durante o qual a parceria de Iñárritu com o escritor e argumentista Guillermo Arriaga deu origem a 36 versões diferentes para o argumento de "Amor Cão". O realizador descreveu assim o resultado final: "Se pudesse resumir tudo numa palavra, seria visceral. É o que é para mim este filme, um grito contínuo". Uma forma de abordar a intensidade dramática de uma experiência emocional que se estende por duas horas e meia, ao longo de três capítulos que espelham a fragilidade da condição humana, prisioneira de pulsões incontroláveis, nasçam elas na base ou no vértice da pirâmide social.

Histórias de amor

No fundo, estamos perante um trio de histórias de amor. Doloroso, obsessivo, sofredor. Paixões desabridas e trágicas, sejam elas vividas entre seres humanos ou entre homens e animais. À partida, são mesmo os fortes laços que unem donos e cães que funcionam como principal elemento aglutinador dos episódios paralelos que compõem o filme. De tal modo que, numa inversão extrema da máxima que diz que todos os donos se parecem com os seus animais, estes surgem como projecção daqueles que deles cuidam: o "doberman" guerreiro de Octavio; o "caniche" "fino" de Valeria; os vira-latas indigentes de El Chivo...

No entanto, um outro dispositivo, mais relevante ainda, serve igualmente para fazer convergir as várias narrativas: um brutal acidente de automóvel, a abrir "Amor Cão" e ao qual Iñárritu regressa por mais de uma vez, para o observar segundo diversos ângulos e perspectivas, consoante o ponto de vista de cada uma das personagens principais. É a chave que permite desmontar um complexo quebra-cabeças, em relação à qual serão depois contextualizados no tempo todos os acontecimentos do filme: utilizando o desastre como ponto de partida, a história de Octavio passar-se-á no "passado", a de Valeria no "presente" e a de El Chivu no "futuro".

É precisamente essa intrincada estrutura narrativa que mais salta à vista em "Amor Cão". Não tanto por uma pretensa originalidade - o modelo de "filme coral" há muito que deixou de ser novo (para não irmos mais longe, bastará pensar, como matrizes claramente influenciadoras, em Robert Altman ou Quentin Tarantino, a quem o filme resgata até o começo de "Cães Danados", com um cão ensanguentado a "substituir" Tim Roth) - mas pela segurança com que ela é manuseada. O encadeamento dos vários episódios é meritório (o próprio Iñárritu participou activamente na montagem, durante sete meses em que se fechou em casa), ainda para mais numa longa de estreia.

Acima de tudo, a prova de que, já antes do passaporte para Hollywood e da primeira experiência em terras americanas - "21 Gramas", nomeado este ano para dois Óscares - Iñárritu sabia lidar com "puzzles" labirínticos à volta de amor e morte, perda e redenção.