Crítica

O Despertar da Mente

Uma relação chega ao fim: ela resolve apagá-lo (literalmente) da memória; ele, corroído pela dor, decide fazer o mesmo; mas, a meio do processo, arrepende-se... É assim que corre o "boy meets girl" de "O Despertar da Mente". E se (como não podia deixar de ser) a premissa para este ensaio sobre o amor já é bizarra q.b., o mais surpreendente poderá ser mesmo a escolha do protagonista. É que no papel de Joel Barish, um homem tímido e calado, mais um exemplo das colecções ambulantes de inseguranças, temores e neuroses "made in" Kaufmanlândia, encontramos nem mais, nem menos do que... Jim Carrey.

Tímido e calado? Sim, não é bem o que se espera de quem ainda não há muito detinha o epíteto de "herdeiro de Jerry Lewis". Não que o canadiano não nos tivesse presenteado já com alguns golpes de rins - bem vistas as coisas, Carrey é capaz de ser uma das estrelas mais experimentais de Hollywood - mas em nenhuma das "reinvenções" anteriores tinha ousado ir tão longe como no filme de Gondry. Que é como quem diz, arriscar a sua composição mais vulnerável e minimal, apagando todas as marcas exteriores de uma "persona" excessiva.

Olhando para trás, "O Despertar da Mente" pode muito bem significar não só o apogeu como o corolário lógico de um percurso singular. No início (que não é bem o início, pois para trás ficavam dez anos de participações secundárias em filmes como "Peggy Sue Casou-se", de Francis Ford Coppola, ou "Earth Girls Are Easy", de Julien Temple), Carrey abanou o mundo com um humor físico tão particular quanto extremo: perante o frenesim lunático e a elasticidade de um corpo aparentemente nas tintas para as leis da plausibilidade, parecia estar o hipotético elo perdido entre humanos e "cartoons".

Foi assim em "Ace Ventura: Detective Animal" (onde se "rebobinava" a si próprio e falava pelo ânus...), "A Máscara" (operando segundo a lógica de um "cartoon", o veículo ideal para um desenho animado de carne e osso) ou "Doidos à Solta" (primeiro "opus" de Peter e Bobby Farrelly), um trio de êxitos comerciais que transformou o actor em supervedeta e fez de 1994 "o ano de Carrey". Os primeiros sinais de que o futuro não se faria apenas de comédias tontas e patetas alegres vieram logo a seguir, com "O Melga" (1996), sátira ácida de Ben Stiller, a revelar o lado "negro" de Carrey. De repente, sem perder a hiperactividade maníaca, o "clown" infantilizado deixava entrever sombras de uma perturbação inquietante, inscrevendo-se numa fascinante "terra de ninguém", próxima de uma espécie de burlesco malévolo.

Apesar do "flop" de bilheteira, estava aberto o caminho para Carrey poder continuar a frustrar expectativas, dinamitando uma imagem que já se lhe colara como segunda pele. Passos seguintes, ainda mais decisivos: "The Truman Show" (1998) - fábula premonitória, por Peter Weir, sobre manipulação mediática, a prenunciar "Big Brothers" e outros horrores televisivos do género - e, principalmente, "Homem na Lua" (1999), de Milos Forman, extraordinário "biopic" dedicado a Andy Kaufman, génio iconoclasta da "stand-up comedy". Ao cruzarem comédia e drama, funcionaram como reforço de uma disponibilidade para correr riscos e tentar territórios inexplorados.

Como se Carrey se tivesse apercebido de que, por mais entusiasmante que pudesse ser (a sensação única de que, com ele, tudo é permitido e nada impossível), o "boneco" construído atingiria a saturação ao permanecer num mesmo nível "de superfície". Por isso, ofereceu-lhe uma segunda dimensão (até aí apenas vislumbrada em "O Melga"), acrescentando-lhe gravidade. Conclusão: dois "tours de force" magníficos, que lhe valeram um par de Globos de Ouro, embora a Academia se tenha teimosamente esquecido dele.

No entanto, todo esse virtuosismo assentava ainda em elementos característicos de um "carimbo" próprio, como a expressividade exagerada ou o esgar de fazer inveja a Jack Nicholson. No primeiro caso, reconhecíamos o "tonto" inocente e puro (afinal, era o único que não sabia que a sua vida não passava de um programa de TV) de outras aventuras. No segundo, estava bem patente a energia selvagem de um corpo quase irreal, em transfiguração permanente, multiplicando-se por um sem-número de identidades e máscaras. Uma voracidade cimentada no pequeno ecrã, entre 1990 e 94, no "show" que o tornou conhecido, "In Living Color", série afro-americana de comédia em "sketches" criada pelos irmãos Wayans, onde Carrey, "o tipo branco", compôs uma galeria de excêntricos (entre eles, um bombeiro horrivelmente desfigurado, cujos conselhos pouco recomendáveis provocaram a fúria de vários grupos de protecção civil).

Se o que se lhe seguiu - um regresso a material mais ligeiro, com melhores ("Ela, Eu e o Outro", em 2000, reencontro com os Farrelly) ou piores (o fraquinho "Bruce, O Todo-Poderoso", no ano passado) resultados - pareceu um retrocesso, pode ser visto agora como recuperação de fôlego, uma pausa antes de um gesto do mais puro radicalismo.

Em "O Despertar da Mente", as transmutações de uma carreira são levadas às últimas consequências, com o actor a despir-se de tudo o que se associa à sua essência de "performer". O Jim Carrey que conhecemos não está aqui: a "tomada" foi desligada e no seu lugar surge uma figura triste e torturada, vestida em tons cinzentos, com barba por fazer e um olhar que alterna entre a angústia e o desespero.

Quem for à procura de caretas, contorções e espasmos ou dos tiques de um "número de actor", descobrirá apenas uma comovente interioridade, feita de subtileza e contenção (o "underacting" de certo modo ensaiado três anos antes, em "The Majestic", fantasia capriana assinada por Frank Darabont, mas que aí surgia algo tolhido pelo artificialismo do empreendimento). Mais do que nunca, após este assombroso acto de "desaparecimento", importa exigir, de uma vez por todas, o Óscar.

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