Crítica

Once upon a time... sempre

Como é possível regressar, depois da orgia com a Noiva, O-Ren Ishii, Vernita Green e Elle Driver? Como recomeçar, depois de interrompido o coito?

Dizia-se, na altura da estreia de "Kill Bill Vol. 1", que "Kill Bill Vol. 2" iria ser um filme "diferente" - parecia uma forma de sossegar as acusações de "pirotecnia" e de "vazio de conteúdo" que receberam o primeiro tomo desta história do périplo de vingança de uma mulher.

É uma evidência: "Kill Bill Vol. 2" é diferente. E, se calhar para Quentin Tarantino, essa diferença supera o insuperável - afinal, era nos píncaros do império dos sentidos que "Kill Bill Vol. 1" terminava, e com o tempo a resfriar o intervalo entre as duas partes, era impossível repor da mesma maneira o estado de excitação.

A diferença, se quisermos enumerar, corresponde ao que era esperado: mais diálogos com a marca Tarantino, menos cenas de acção, mais desenvolvimento das personagens. (Um parêntesis, falemos delas: desaparecidas em combate O-Ren Ishii, dita Cottonmouth, e Vernita Green, dita Copperhead, a Noiva, dita Black Mamba, continua o seu périplo atrás de Elle Driver, atrás de Bud e do irmão deste, o sempre nomeado Bill, que finalmente conhecemos; o cenário muda, o que era predominantemente oriental no tomo anterior, sobretudo nipónico, é ocidental neste, sobretudo americano, apenas com um interlúdio de artes marciais para permitir à Noiva desenferrujar os ossos às mãos de um temível mestre, Pai Mei, especialista em fazer explodir corações inimigos).

Parêntesis fechados...

"Kill Bill Vol. 1" era uma história de vingança. "Kill Bill Vol. 2" é uma história de amor? Sim, entre assassinos, a Noiva (Uma Thurman) e Bill (David Carradine). Não há como fugir às diferenças, e no entanto... e no entanto dizer que "Kill Bill Vol. 2" é um filme diferente de "Kill Bill Vol. 1" reduz e trai a experiência dos nossos sentidos. Porque "Kill Bill Vol. 1" e "Kill Bill Vol. 2" são um filme só, em dois tons, em duas velocidades até, mas um filme só. E um épico. E uma das aventuras mais lúdicas, exaltantes do cinema contemporâneo.

sem fim. É natural que se comecem a formar preferências, equipas pró e contra. Que os decepcionados com o primeiro "Kill Bill" se descubram, agora, mais perto de serem adeptos (ou porque encontraram finalmente uma caução, ou porque ficaram ainda mais decepcionados com o Vol. 2, e assim, mal por mal...); e que fãs aguerridos do cerimonial de luxúria e sangue encontrem agora a sua vez de se desiludirem, porque... porque, por exemplo, não há nada de tão estonteante como o "Showdown at the House of Blue Leaves".

Pode-se prosseguir no jogo de variantes, mas há que contar com esta alternativa: a de que ver "Kill Bill 2" é estar sempre com "Kill Bill 1"; a de que Tarantino eleva-nos para um espaço de agudização e euforia dos sentidos, onde temos disponíveis e em movimento permanente as imagens de uma e de outra parte, que se existem num presente contínuo.

"Kill Bill 1" era um filme de acção, "Kill Bill 2" é um filme de maior contenção? Sim, a câmara realmente afasta-se, para não nos deixar ver nada, quando a Deadly Viper Assassination Squad interrompe o ensaio do casamento da Noiva, e assim o "western spaghetti" coloca o sangue em elipse e torna mais poética a tragédia. Mas a tragédia já estava em "Kill Bill 1", na fúria incontrolável das personagens - agora é que ninguém esbraceja o desespero de forma tão esfuziante, parecem acidentados de um "film noir". E "Kill Bill 1" encontra-se em várias esquinas de "Kill Bill 2". Experimentem: no duelo entre a Noiva e Elle Driver (segunda parte) está espelhado o duelo entre a Noiva e Vernita Green, no início da primeira parte. Não há "Showdown at the House of Blue Leaves", parte 2? Até há: a troca de diálogos final, doce, áspera, entre amantes danados, Thurman e Carradine (estamos sempre à espera que citem as recriminações e preces que Joan Crawford e Sterling Hayden trocavam em "Johnny Guitar"), num cenário em que a relva verde parece ter coberto aquele outro de neve branca, onde a Noiva acabou com a vida de O-Ren Ishii - é aí que Bill escolhe para morrer de forma tão ritualizada como o final da parte anterior.

Até o "Bang-Bang" da canção de Nancy Sinatra volta a ser soprado... descubram onde e não é numa canção...

E assim por diante, como se fosse impossível olhar para um filme e para outro, separadamente. Vemos sempre os dois, que são um.

"Kill Bill 2" é um outro fôlego da vida das personagens de "Kill Bill 1". E isto é um universo em expansão, contém outras vidas. Por exemplo: Tarantino revelou já em entrevistas que a versão de "Kill Bill 2" em exibição no Japão e em Hong Kong é diferente da americana, mais de acordo com os hábitos desses espectadores. E por que não um "Kill Bill 3"? Eis a hipótese, colocada por Tarantino: a filha de Vernita, que viu a mãe ser morta pela Noiva na primeira parte, daqui a 15 ou 16 anos poderia iniciar o seu périplo, transformando a Noiva no seu objecto de vingança tal como esta fez a Bill. E alguém sabe o que aconteceu a Sofie Fatale, para além de ter ficado sem braços na primeira parte? E Elle Driver morreu mesmo, ponto de interrogação?

"Once upon a time..." sempre pronto a ser refeito. No momento em que temos disponível em DVD a obra completa do realizador [ver texto nestas páginas] podemos, até, olhar para as piruetas narrativas de Tarantino (a mais famosa: matar John Travolta algures a meio de "Pulp Fiction" e depois regressar ao passado para ir buscá-lo e poder continuar o filme) e destacar o que nasce menos da necessidade de estampar virtuosismo do que do desejo de que nada acabe, de que tudo possa começar de novo, "era uma vez..." sem "fim". E se algo tiver que acabar (momentaneamente, antes de outro filme ou outra parte), que se volte a ver tudo outra vez no genérico final, a maneira de se homenagear os que já morreram.

É assim, pelo menos, "Kill Bill" (sem 1 e sem 2, apenas um filme), onde o olhar de Tarantino está mais próximo da inocência (será a palavra certa? acrescente-se "perversidade" ou então apaguem-se as duas para as substituir por "disponibilidade sem limites") de uma criança. E assim temos de falar de Uma Thurman.

"Kill Bill" não seria o que é sem uma personagem, como a dela, passar por tantas mortes e renascimentos. Mulher devota, amante desprezada e funesta, assassina libidinosa, o seu reencontro como criança - conhecemos finalmente o nome da Noiva, aquele que era apagado por um apito - e, para o ciclo de metamorfoses ficar completo, mãe devota.

Tarantino diz que Uma é o seu Clint Eastwood, o seu vingador "man with no name", e a sua Marlene Dietrich (sendo ele o Von Sternberg dela, em vez de filtros e redes, paramentou-a com ferimentos, nódoas negras e lama, e acabaram então de fazer o "Blonde Venus" dos dois - nesse encontro Sternberg/Dietrich, o espectro de metamorfoses de Marlene era igualmente vasto, amante, puta até mãe). Para continuar com a psicanálise: Quentin também disse que esta mulher é a sua mãe. Falou assim ao diário espanhol "El País": "Sou filho de uma mãe solteira saída de um ambiente dos mais desfavorecidos, de uma cidadezinha do Tennessee, que, sem dinheiro, nem classe nem educação, conseguiu superar todos os obstáculos e converter-se numa executiva poderosa e de êxito. Sempre estive rodeado por este tipo de mulheres, e assim acabei por acreditar que não há nada que uma mulher não consiga fazer."

Começou aí, então, este era uma vez...