"Se fosse 40 anos mais novo, fazer ficção seria um 'hara-kiri' científico"

A vida de Carl Djerassi dava um filme. Fugiu da Áustria em criança, na altura da anexação pela Alemanha nazi, conseguiu ir para os Estados Unidos e foi graças a uma carta enviada à então Primeira-Dama Eleanor Roosevelt que conseguiu prosseguir os estudos na América. Em 1951, foi o primeiro cientista a produzir uma versão sintética da hormona feminina progesterona, que deu origem à pílula contraceptiva. Há quem o culpe e quem o gabe de ser o responsável pela revolução sexual que mudou o mundo, mas ele escusa-se a tal responsabilidade. Reuniu uma das maiores colecções de obras de Paul Klee, é mecenas das artes e hoje, com 80 anos, dedica-se a escrever romances e peças de teatro, em que a intriga serve para fazer reflexões sobre a ciência. Chama a esta escrita "science in fiction", ou ciência na ficção, por oposição à ficção científica, porque nos seus livros a ciência não é especulação, mas um relato fiel da verdade. Está traduzido em muitas línguas, as suas peças foram representadas em muitos teatros e usadas em escolas. Está em Lisboa, para a estreia da primeira peça sua representada em Portugal: "Esse espermatozóide é meu!", que vai hoje à cena no Teatro da Trindade, em Lisboa. "Tenho 80 anos, mas não gosto de falar com pessoas de 80 anos, acho-as velhíssimas. Muitas pessoas mais velhas, mesmo com 60 anos, decidem que terminou, que não vão mudar mais. Eu mudei muitas vezes ao longo da minha vida, o que tem muitas vantagens", disse ao PÚBLICO, numa conversa sobre arte, ciência e... Fernando Pessoa, de quem começa a falar ainda antes da primeira pergunta.CARL DJERASSI - Escrevi uma peça sobre Fernando Pessoa, que está agora em cena, em Londres. Gostaria muito de a apresentar aqui em Portugal. Viajei imenso, durante 60 anos, mas os únicos países a que nunca tinha ido eram a Albânia, a Estónia e Portugal. Mas agora estou a fazer várias coisas em Espanha, e seria óptimo fazer uma incursão por toda a Península Ibérica.As personagens são um psiquiatra, uma mulher e um homem que se quer tornar o Pessoa da ficção. Os seus motivos psicológicos são bastante complicados e devo dizer que, em alguns aspectos, são de auto-análise, porque eu gosto da ideia de fazer coisas sob diferentes entidades. Para mim, é uma peça muito importante. R - Sou casado com uma professora de literatura, embora ela não ensine Fernando Pessoa. Mas quando ia com ela ao encontro anual da Associação de Línguas Modernas, a maior organização académica de literatura, havia sempre uma sessão sobre Pessoa. Fiquei fascinado por Pessoa como uma psicologia patológica - ser patológico não é necessariamente negativo, mas é ser diferente. O meu segundo romance ["Bourbaki's Gambit"], é sobre um matemático francês famoso. Não percebo nada de matemática, mas o fenómeno Burbaki é um pouco como Pessoa, mas ao contrário, pois Nicolas Burbaki é na verdade um grupo de matemáticos, não existe como pessoa, tal como os heterónimos de Pessoa não existem. Mas há publicações sob esse nome, este "nom de plume" colectivo. Sou um polígamo intelectual. Gostava de ter escrito peças sob um nome, coleccionar arte sob outro, fazer investigação com outro nome... Faço isto na minha cabeça, embora não em público. Aliás, a peça tem dois nomes: quando estreou, em Edimburgo, tinha o nome original, "Ego". Mas neste teatro em Londres chama-se "Three on a Couch", porque decidiram fazê-la com humor.Com Pessoa, escolhi um tema muito importante: a insegurança que sentem as pessoas que fazem algo de criativo. A maioria das pessoas famosas, em muitas disciplinas, na ciência, na arte, os actores, parecem ter tudo, mas na verdade são muito inseguras, sempre dependentes da opinião dos outros. Nos cientistas isto é extremo: o público não nos diz nada, apenas os colegas nos avaliam. Estamos sempre inseguros. Mas isso impulsiona-nos a sermos bons. P - Mas como é que começou a escrever ficção, aquilo a que chama ciência na ficção?R - Foi muito tarde, aos 60 anos. Nunca tinha escrito poesia ou ficção, nem tinha nenhuma compulsão para escrever um romance. Foi uma espécie de explosão na minha vida. Em 1983, preparava-me para ir fazer "trekking", do Tibete para o Nepal, e tive de fazer um "check-up", por causa da altitude. Sentia-me em forma, mas descobri que tinha um cancro. Não sabia qual era o prognóstico, estava muito deprimido, e pela primeira vez na vida percebi que era mortal - não era que me achasse imortal, mas uma pessoa saudável não pensa que pode morrer já amanhã. Se tivesse sabido cinco anos antes, teria vivido de forma diferente? A minha resposta, muito categoricamente, foi sim. Portanto, pensei: então e agora, se viver mais cinco anos, o que é que vou fazer? Isto foi há uns 20 anos, e tentei viver uma vida intelectual diferente. Para um cientista, escrever ficção é talvez a coisa mais radicalmente diferente que se pode fazer, porque na ciência podem-se tentar descobrir coisas novas, mas não se podem inventar. Mas, ao mesmo tempo, também tinha vontade de chegar a um público mais alargado, falando sobre assuntos como a reprodução, em que os aspectos sociais e legais são mais importantes que os científicos. Pensei que podia contrabandear estas ideias sob a forma de ficção; é por isso que lhe chamo ciência na ficção, e não ficção científica, porque tudo o que descrevo é impecavelmente correcto. Nesta peça em Lisboa, mostram-se imagens de uma injecção intracitoplasmática [uma técnica de tratamento da infertilidade masculina, que passa por introduzir um único espermatozóide dentro de um ovócito, com uma pipeta] que é mesmo verdadeira, nasceu um bebé daquela micro-injecção. Mas claro que não se pode tornar uma palestra. Por isso digo que tento contrabandear ciência na ficção, para que as pessoas se divirtam e ao mesmo tempo aprendam. Isto não acontece na maior parte das peças de teatro, que giram em torno das relações humanas. E tornei-me consciente de algo que os cientistas deviam saber, mas não sabem: os cientistas modernos, desde Galileu, não sabem dialogar. Isso não acontecia com os gregos e o diálogo é talvez a forma mais persuasiva de comunicação. O teatro e a ópera são as duas coisas que mais gosto para além da actividade profissional, e tornei-me consciente de como a ciência e os cientistas estão pouco representados na ficção, para além das caricaturas de Dr. Estranhoamor ou idiotas sábios. Escrevi três peças: "Immaculate conception" [o nome original de "Esse espermatozóide é meu!"], "Oxygen" [sobre o Prémio Nobel] e "Calculus" [sobre a rivalidade entre Newton e Leibniz]. P - Fala destes assuntos porque esteve muito ligado à contracepção, com a pílula. Nestes 50 anos houve muitas mudanças, e o senhor foi uma espécie de catalisador dessas mudanças. Como as vê?R - Tenho 80 anos, mas não gosto de falar com pessoas de 80 anos, acho-as velhíssimas. Muitas pessoas mais velhas, mesmo com 60 anos, decidem que não vão mudar mais. Eu mudei muitas vezes ao longo da vida, o que tem muitas vantagens. Em especial na América, onde há muita competição, e o que se passa é a sobrevivência dos mais aptos - o que é brutal, e ao mesmo tempo bom e mau. As coisas que ensino agora na universidade são muito diferentes de há 20 anos. Por exemplo, passei a ensinar no programa de estudos femininos, nunca sonharia fazê-lo nos anos 50, nem em leccionar em bioética. Eram coisas que não me interessavam. Mas isto é um reflexo da minha natureza intelectualmente poligâmica. As universidades são muito monogâmicas intelectualmente. Na vida marital, a monogamia é uma coisa boa, mas intelectualmente é ao contrário. Nas universidades tornamo-nos especialistas, muito limitados a uma área, mas a sociedade precisa cada vez mais de generalistas, de pessoas que se interessem por coisas diferentes.P - Essa compartimentação do conhecimento pode ser o motivo pelo qual as pessoas erguem barreiras mentais contra a ciência?R - Sim, mas é mais que isso: a ciência tornou-se tão complicada que até entre cientistas é difícil explicá-la. Sou especialista em química orgânica. Isto já é uma compartimentação, já é difícil falar com alguém da química inorgânica. Mas sou especialista em esteróides e, se falar com outro especialista em esteróides, passado um minuto preciso de papel e caneta para me explicar, porque usamos uma linguagem de pictogramas de estruturas químicas, não de palavras. É como se fosse chinês e lhe quisesse falar do Pessoa chinês, mas só o conseguisse fazer usando caracteres chineses; para me perceber, teria de aprender primeiro chinês. Isto é uma barreira enorme, e poucas pessoas conseguem ultrapassá-la. O segundo problema é o facto de os cientistas passarem muito pouco tempo, ou nenhum, a comunicar com o público. Os cientistas não sentem que isso seja importante, porque a cultura tribal a que pertencem não recompensa o contacto com o público. O facto de escrever peças ou romances não tem qualquer importância para os meus colegas. E eu posso fazê-lo, porque tenho uma reputação científica estabelecida. Se fosse 40 anos mais novo, fazer ficção seria um "hara-kiri" científico. P - Porquê?R - Porque os cientistas não se interessam por isto. Escrever peças de sucesso não tem qualquer relevância para ter sucesso na investigação em química. Mas também acontece o oposto: não é fácil, como cientista, entrar no mundo do teatro. Há um antagonismo razoável, porque nas áreas não científicas existe um complexo de inferioridade, de perseguição. Para algumas pessoas do teatro, fazer peças que falam sobre ciência seria uma espécie de contaminação. P - Tenta fazer as pessoas pensar acerca de assuntos importantes para as suas vidas. Qual é a reacção?R - Sempre pus no fim do meu "site" [ http://www.djerassim.com ] o endereço de E-mail para receber comentários. Se são inteligentes, respondo, se são estúpidos apago-os. Há muitas reacções negativas, nem toda a gente me diz que isto é a maior maravilha desde que a humanidade descobriu o fogo, garanto-lhe. Muitos cientistas me escreveram a perguntar se achava mesmo necessário lavar batas sujas de laboratório em público, por causa da peça sobre Leibniz e Newton, "Calculus". Newton pode ter sido o maior cientista europeu de sempre, mas tinha um lado terrível. Mostro a competição entre dois gigantes intelectuais, e como ambos se portaram mal, para permitir uma reflexão ética.