Ressurreição e insurreição

1. Não posso responder hoje às vastíssimas implicações de uma pergunta que vários leitores me enviaram nas duas últimas semanas e provocada pelo filme a "Paixão de Cristo": o que é que nos textos do Novo Testamento pertence à verdade histórica e o que é fruto da fé pascal dos cristãos?Segundo o grande exegeta luterano, R. Bultman (1884-1976), os elementos seguros sobre Jesus podiam caber numa página de papel ou quase. Se esse minimalismo já não é de regra, nenhum exegeta sonha, no entanto, com a utopia de escrever uma biografia moderna do Nazareno. A resposta à pergunta deve ser precedida do estudo da diversidade dos rostos de Cristo ao longo de dois mil anos. Modificam-se continuamente segundo os tempos e lugares, a utopias de cada época e até de cada grupo social. Lembro que foi apenas a partir dos séculos XVIII-XIX que se concebeu e desenvolveu o ambicioso programa de arrancar Jesus ao dogma cristão para o restituir à verdade histórica de um judeu da Palestina do primeiro século da nossa era. De modo algo convencional e muito esquemático, podem distinguir-se três fases na concretização desse desígnio. A primeira durou praticamente até meados do século passado. Desde 1950 até 1980/5, passou a insistir-se - sobretudo na investigação alemã - na ruptura entre Jesus e o judaísmo. Durante as décadas de 1980-2000, Jesus passou a ser estudado - sobretudo nos EUA - no âmbito do judaísmo, porque ele talvez só tenha pensado em "restaurar a casa de Israel". Vários factores contribuíram para estas e outras mudanças de perspectiva. Nos séculos XVIII e XIX procurava-se - uma vez libertado das mãos da Igreja- um Jesus liberal, um sábio acessível a todos e pouco inquietante. Veio depois a preocupação com a originalidade de Cristo. No clima do diálogo judaico-cristão e devido às investigações históricas na sequência das descobertas de Qumrã, com um novo interesse pela obra de Flávio Josefo e pela Palestina do século I, o olhar de alguns historiadores e exegetas ainda não descolou daí. 2. No entanto, assim como me parece absurdo pensar que Jesus tenha alguma vez renegado o judaísmo, também me parecem exageradas as tentativas para o domesticar e alinhar apenas pelas preocupações do judaísmo do seu tempo, aliás, muito plural, esquecendo-se que era um país ocupado. O comportamento de Jesus revelou, em gestos e palavras, uma teologia da graça de Deus tão radical - acolhendo todos os excluídos com amor incondicional - que não cabia em nenhum esquema segregacionista. Realizou, no singular mais restrito, o infinito do dom. O Deus de Jesus não dependia da lei de Moisés. Diz-se, e com razão, que Jesus viveu apenas no quadro de Israel. Raramente transpôs as fronteiras da Terra Santa. S. Paulo, pelo contrário, abriu-se aos não judeus e viveu no horizonte de uma missão sem fronteiras. O seu "slogan" é bem conhecido: "Não há judeu nem grego, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo." (Gal. 3, 29)Segundo S. Paulo, Deus acolhe toda e qualquer pessoa humana, independentemente do seu passado, da sua herança, do seu sangue ou das suas qualidades. Mas Jesus tinha muito antes dele promovido uma visão inclusiva do "povo de Deus", banindo toda e qualquer discriminação de cultura, de sexo ou de imagem social. Para Daniel Marguerat, professor de Exegese da Universidade de Lausanne, seria mesmo essa a causa da sua rejeição pelas autoridades de Jerusalém. Jesus defendeu, a partir do interior de Israel, o que Paulo executou mais tarde fora de Israel. Defendeu uma universalidade interna ao povo eleito. Paulo é o intérprete mais coerente do universalismo radical de Jesus. 3. Segundo as narrativas evangélicas, os discípulos, perante a crucifixação do Mestre, fugiram cheios de medo. Dispersaram profundamente frustrados. A pergunta inevitável é esta: o que terá sido que de novo os reuniu?As múltiplas e anárquicas narrativas da ressurreição de Cristo voam em todos os sentidos. Pertencem à gramática da fé e não à do historiador. Este, enquanto tal, não pode afirmar ou negar a sua autenticidade. A realidade ultrapassa a historicidade. No âmbito desta explosiva gramática da fé, os Actos dos Apóstolos atribuem a Pedro uma afirmação impressionante. Ele não confessa apenas que Deus ressuscitou o Crucificado. Diz que a morte nem sequer podia reter Jesus em seu poder. Porquê?Jesus passou a sua existência terrestre - segundo o que dela sabemos - numa insurreição permanente contra tudo o que degrada a vida humana. Essa insurreição era para ele uma questão de obediência à vontade de Deus e dela se alimentava. O Crucificado, o rejeitado por uma coligação de interesses, abriu, a todos, o caminho e o processo da ressurreição. Jesus, ao perdoar aos próprios inimigos, ao entregar nas mãos do Deus vivo aqueles que o entregavam à morte, consumou a sua insurreição contra tudo o que degrada e separa os seres humanos, isto é, o poder do ódio, o poder da morte. A partir daquele momento Jesus Cristo era, é e será para sempre uma vida dada. Que a celebração da Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as raízes dos ódios que ensanguentam a terra. A todos uma santa Páscoa.