As comemorações em memória das vítimas do genocídio começam hoje

Ruanda: dez anos de genocídio

O país das almas mortas está em paz mas não esqueceu o tempo das catanas
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O país das almas mortas está em paz mas não esqueceu o tempo das catanas Sayyid Azim/AP

O "momento zero" de uma das maiores tragédias africanas do século XX pode ser identificado como o dia 6 de Abril de 1994: fez ontem 10 anos que a morte violenta, no aeroporto de Kigali, do Presidente do Ruanda, Juvénal Habyarimana, desencadeou o genocídio de cerca de 800.000 pessoas, em grande parte pertencentes ao grupo populacional tutsi, mas abrangendo também elementos da maioria hutu.

Uma vez abatido o avião em que o chefe de Estado regressava do estrangeiro (quem o fez ainda é um mistério), alguns dos seus amigos decidiram passar à prática uma espécie de plano de "limpeza étnica", para se livrarem de todos os contestatários.

De acordo com um recente trabalho da justiça francesa, a própria Frente Patriótica Ruandesa (FPR), que estava na oposição armada, sob o comando do general Paul Kagamé, criado no Uganda, poderia ter arquitectado o ataque ao aparelho, em que também pereceu o Presidente do Burundi, Cyprian Niayamira, facilitando assim a campanha de extermínio que estaria a ser desejada por elementos do poder.

A acreditar nesta tese, a FPR, criada em 1979, no exílio, teria aproveitado a morte de centenas de milhares dos seus concidadãos para chegar ela própria ao Governo, enquanto denunciava aos olhos do mundo "o genocídio cometido pelos extremistas hutus". Mas é óbvio que Kagamé, hoje em dia Presidente da República, nega terminantemente um comportamento tão maquiavélico e insiste na tese de que o crime foi cometido por "bandos armados e treinados pela França". Por isso, a polémica sobre o caso ruandês está longe de terminar.

Mal o avião caiu, a guarda presidencial e outras tropas, sob o comando do coronel Bagosora, apoiadas pelas milícias interahmwe, assassinaram figuras do próprio Executivo e líderes da oposição política, criando um grande vazio, para se lançarem depois ao assalto dos tutsis, tradicionais criadores de gado. O banho de sangue começou a 7 de Abril.

Na sequência de muitos meses de tensão, começou a ser sistematicamente levado à prática um plano que vinha do passado e que se arrastou por mais de três meses, só terminando com a entrada em Kigali, a capital, das forças da FPR, que contavam com a simpatia do mundo anglófono.

Teoria racista

A tragédia teve como base a teoria, de contornos racistas, de que os hutus já se encontravam na região há mais de sete séculos e que os tutsis só tinham surgido depois, provavelmente idos do Alto Egipto ou da velha Abissínia, nas terras da actual Etiópia.


Alguns académicos, porém, alegam que hutus e tutsis nem sequer são muito diferentes, pois até falam a mesma língua, tendo as rivalidades entre eles sido em grande parte fomentadas no princípio do século passado pelos alemães e pelos belgas que nessa altura os colonizaram.

As forças das Nações Unidas que estavam no Ruanda, para tentar manter a paz, retiraram-se do terreno, deixando a população à mercê dos extremistas, enquanto a França se oferecia para uma operação humanitária que foi muito contestada pela FPR. Desde Outubro de 1990, Paris era vista como um aliado do Presidente Habyarimana, tal como a Bélgica ou o Zaire de Mobutu.

O actual secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na altura responsável pelo departamento encarregado das operações de manutenção da paz, foi informado dos preparativos das matanças que iam ser cometidas, mas não tomou qualquer atitude, conforme escreveu em 1998 a revista "New Yorker". Foi ordenado aos "capacetes azuis" que não interviessem; e só recentemente é que Annan veio a reconhecer que a comunidade internacional poderia ter reagido de outro modo.

Chegado o mês de Julho de 1994, um relator da ONU que foi encarregado de investigar o genocídio pediu que um tribunal internacional julgasse os crimes, como se tinha feito em Nuremberga. E esse areópago acabou por ser criado na cidade tanzaniana de Arusha.

Os juízes fizeram a sua primeira incriminação, contra oito pessoas, em 28 de Novembro de 1995, mas até agora já julgaram 13, tendo condenado duas e ilibado uma, o que parece ainda muito pouco para uma tragédia tão grande. A Câmara de Recursos confirmou oito das condenações, incluindo a de um primeiro-ministro ao tempo do genocídio, Jean Kambanda, que recebeu prisão perpétua.

Dentro do próprio Ruanda, outros tribunais têm vindo a julgar réus aparentemente menores, num processo extremamente moroso, devido ao facto de muitos dos juízes que havia no país terem sido eles próprios vítimas do genocídio - ou Itsembasemba, na língua local, o kinyarwanda, falado por oito milhões de pessoas.

No mês de Julho de 1994, mais de um milhão de ruandeses fugiram para o então Zaire, hoje República Democrática do Congo, inundando cidades como Goma e Bukavu, enquanto a FPR se instalava em Kigali, vindo a merecer a simpatia de países como os Estados Unidos e Israel.

"Tempo de Catanas" e "politicídio"

O jornalista francês Jean Hatzfeld já escreveu dois livros sobre o genocídio ruandês: um em que a palavra foi dada às vítimas e outro em que são ouvidos os carrascos: "Tempo de Catanas", a aparecer esta semana nas livrarias portuguesas.


Filho de judeus e nascido em África (Madagáscar), ele estava particularmente sensibilizado para este novo Holocausto, em que os camponeses hutus se prestaram a ser os carrascos dos seus antigos senhores, os tutsis, que há meio século os colonos belgas tinham como seus aliados preferenciais, num processo equiparável ao que os portugueses seguiram quando na Guiné ou em São Tomé e Príncipe recorreram a administradores e capazes cabo-verdianos.

Nos últimos dias, com a aproximação da efeméride, surgiu a teoria de investigadores norte-americanos segundo os quais o que se passou não foi propriamente um "genocídio". Isto porque a maioria das vítimas pertencia à camada populacional tutsi, uma espécie de classe patrícia como a que na antiga Roma estava acima da plebe.

"Muitas pessoas não parecem interessadas em juntar a informação necessária", defendeu Christian Davenport, professor de ciência política na Universidade de Maryland. "Consideramos que foi mais uma depuração totalitária, um politicídio, e não uma limpeza étnica".

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