Ex-coordenadora da formação de professores critica ministério

Ana Paula Curado, ex-coordenadora da formação de professores do Ministério da Educação (ME), critica a decisão da tutela de integrar esta área na Direcção-Geral de Recursos Humanos e Educativos (DGRHE), a antiga Direcção-Geral de Administração Educativa, responsável pelos concursos. A professora diz que se trata de uma estrutura "muito pesada" para incluir uma área que deve ser "flexível e transversal". Ana Paula Curado foi demitida pelo secretário de Estado da Administração Educativa no final de Fevereiro, de uma forma "arrogante e prepotente", conta. Em comunicado, o ME declara que a demissão se fez "por razões que têm a ver com a eficiência da administração educativa".Ana Paula Curado assumiu funções em Maio de 2002, a convite pessoal do ministro da Educação, David Justino. Se inicialmente a sua área estaria sob a alçada da secretária de Estado da Educação - a professora chegou a ter uma reunião com Mariana Cascais -, um ano depois a formação de professores foi integrada na Direcção-Geral da Administração Educativa (DGAE), da responsabilidade do secretário de Estado Abílio Morgado.Em Novembro passado, Ana Paula Curado reuniu-se com a directora-geral, Joana Orvalho, e manifestou o seu "desagrado pela forma como a área de formação de professores funcionava no seio da DGAE", conta."Informei que não me parecia que aquela Direcção Geral, devido o enfoque quase exclusivo dado aos concursos de professores e à gestão nacional de recursos humanos, fosse um bom sítio para desenvolver a formação de professores", explica.Nessa altura, Ana Paula Curado defendeu que o serviço de formação de professores deveria ser "suficientemente flexível para constituir uma área transversal de apoio ao processo de desenvolvimento de escolas e professores, em termos curriculares e organizacionais". Na mesma reunião, Ana Paula Curado informou que pretendia pôr o seu lugar à disposição.Um mês depois, a professora pede a Joana Orvalho que lhe sejam pagos não só os serviços de coordenação como as despesas de representação. É que Ana Paula Curado, além de coordenar a formação, representou o ministro David Justino em encontros internacionais, no Grupo Europeu de Peritos para a Melhoria da Qualidade da Formação de Professores e Formadores (integrado no Programa Educação e Formação 2010 da União Europeia) e na Rede Europeia para as Políticas de Formação de Professores. A professora auferiu sempre o mesmo ordenado que receberia se estivesse na escola, a dar aulas. Sem qualquer resposta por parte de Joana Orvalho, a coordenadora decide pedir uma audiência ao ministro. "Atingi um ponto em que considero que continuar a aceitar desempenhar as funções, da forma como o tenho feito, seria continuar a aceitar uma permanente desconsideração profissional", escreve nesse pedido. Em vez de uma audiência, Ana Paula Curado recebe uma carta assinada pelo chefe de gabinete de Justino onde lhe é apenas dito que a "sua exposição configurava uma desistência da requisição".Em Fevereiro, Abílio Morgado chama a coordenadora para uma reunião onde lhe diz que só teria direito ao pagamento de retroactivos depois de sair a lei orgânica do ministério e se quisesse continuar responsável pela área. Ana Paula Curado volta a reafirmar que a formação de professores não deve estar integrada na DGRHE, por isso, não quer continuar. "'Então vai já para a escola', respondeu-me o secretário de Estado. Foi de uma arrogância prepotente e de uma arbitrariedade total, sem justificação", lamenta Ana Paula Curado.Para a tutela, não fazia sentido prolongar a requisição até ao final, uma vez que Ana Paula Curado não tinha a intenção de continuar. Para a professora, o que "não faz qualquer sentido é sair deste modo", sem ter entregue os "dossiers" a quem a vai suceder. "Este ME destruiu o que existia e está a trabalhar no vácuo, sem massa crítica", conclui, aludindo ao extinto Instituto Nacional de Acreditação e Formação de Professores.