Obras de jovens compositores hoje e amanhã na Culturgest

Depois de uma semana e meia de trabalho intenso com a Orquestra Gulbenkian e o maestro Guillaume Bourgogne, o resultado do 2º Workshop para Jovens Compositores Portugueses poderá ser apreciado hoje e amanhã no Grande Auditório da Culturgest. Nestes dois concertos, serão dadas a ouvir, em estreia absoluta, nove obras seleccionadas entre as 17 apresentadas pelos 14 compositores, nascidos depois de 1969, que se candidataram ao concurso público aberto entre Setembro e Novembro de 2003. A selecção foi feita por um júri presidido pelo compositor Emmanuel Nunes, que procederá também à análise destas obras no seu próximo seminário, a decorrer na Gulbenkian a 22 e 23 de Março.Este projecto dá continuidade à iniciativa pioneira da Fundação Gulbenkian, lançada em 2003, passando a integrar o plano anual de trabalho da Orquestra Gulbenkian. Assim, a referida formação reservará todos os anos uma quinzena de trabalho dedicada à leitura e apresentação pública de obras de jovens compositores portugueses, abrangendo inclusivamente os que não têm ainda antecedentes de carreira profissional. Dos nove compositores participantes nesta edição (Gonçalo Lourenço, Bruno Soeiro, Rui Penha, Jaime Reis, Patrícia Almeida, Nuno Miguel Henriques, Hugo Ribeiro, Jorge Campos e Bruno Gabirro), três frequentam (ou frequentaram) a Universidade de Aveiro e os restantes seis o curso superior da Escola Superior de Música de Lisboa.Para o jovem maestro Guillaume Bourgogne, que orientou também o "workshop" do ano passado, esta é "uma experiência excelente" e "uma grande oportunidade para os jovens compositores". Bourgogne considera o nível das obras apresentadas superior ao do ano anterior, um aspecto bastante evidente nos compositores que participam pela segunda vez. "Estão bastante bem escritas, por vezes tivemos de fazer pequenas adaptações, mas isto também acontece com os compositores profissionais", disse ao PÚBLICO. A diversidade estética é outro ponto positivo. "São ainda muito jovens, mas todos têm já uma linguagem bem afirmada. O estilo varia muito, o que é um sinal de variedade e de riqueza. Se houvesse uma estética única é que seria preocupante. Quer dizer que os seus professores lhes dão liberdade para criar a sua própria linguagem." O maestro diz ser difícil encontrar características comuns entre os participantes ou aspectos que se relacionem com o facto de serem portugueses. "Não se pode falar hoje de um estilo português, como também não se pode falar de um estilo francês. O Conservatório de Paris é frequentado por alunos de várias nacionalidades, e aí acontece o mesmo, excepto no que diz respeito aos estudantes de origem asiática. Nesse caso há qualquer coisa que os une e os diferencia dos ocidentais", explica. "Nos portugueses podemos encontrar talvez a marca de Emmanuel Nunes, mesmo se têm estéticas diferentes. Mas também não conheço outros compositores portugueses - em França é difícil encontrar os seus discos."Quanto às obras que vai dirigir, Bourgogne diz ter ficado muito contente pelo facto de Gonçalo Lourenço ter mudado a opinião sobre a sua peça, "Nectar". "É uma bela peça, mas o Gonçalo não estava nada satisfeito com ela. Depois do ensaio, veio dizer-me: 'Afinal não está nada mal!'" Bruno Soeiro compôs uma obra para percussão, "Cristalizations sans être", que "revela uma certa continuidade em relação à partitura apresentada no ano passado, e um trabalho metódico. Tem relação com as suas leituras no âmbito da literatura francesa". Tanto Rui Penha ("Azimute") como Jaime Reis ("Síntese 1.2.") escreveram peças "muito exigentes para os instrumentistas, mas com linguagens muito fortes". A obra de Patrícia Almeida, "Monstrum Horrendum", é também muito difícil de interpretar. "No ano passado, já tinha apresentado uma peça, mas que estava no limite das possibilidades dos instrumentos, pelo que tivemos de desistir de tocar em concerto. Este ano conseguiu chegar a algo de mais realizável". De acordo com o maestro, "Elementos", de Nuno Miguel Henriques, é outro exemplo de continuidade, apresentando uma escrita orquestral maciça, com alguns solos, e "Mensagem-Homenagem", de Hugo Ribeiro, evoca a sua admiração por Ligeti e Boulez. Em "Estudo", Jorge Campos usa "uma linguagem espontânea, próxima da música de cinema", e Bruno Gabirro ("Ponto-Linha-Plano-Volume") explora a "relação entre a música e a geometria", revelando afinidades com a herança de Varèse ou Xenakis".2º Workshop Gulbenkian para Jovens CompositoresOrquestra GulbenkianGuillaume Bourgogne (direcção musical)LISBOA Grande Auditório da Culturgest. Hoje e amanhã, às 21h30. Entrada livre.