Crítica

Era uma vez em Itália

De meados dos anos 60 à Primavera de 2003 - é este o arco temporal de "A Melhor Juventude", espécie de saga familiar e intimista com fôlego suficiente para "engolir" 40 anos de história da Itália. Será preciso dizer, até para explicar a duração, o curioso "formato" em que o filme será exibido (duas partes de três horas cada), que o projecto de "A Melhor Juventude" começou por ser uma série de televisão em quatro episódios, e que foi já com a produção em andamento que uma mudança de estratégia da direcção de programas da RAI deu origem a uma reformulação.

Em boa hora: é duvidoso que, se tivesse sido pensado directamente para cinema, "A Melhor Juventude" pudesse ostentar esta amplitude, e sobretudo pudesse exibir esta respiração de "film fleuve". Ao mesmo tempo, num efeito semelhante ao provocado pela trilogia de Lucas Belvaux ainda em exibição ["Um Casal Encantador", "Em Fuga", "Depois da Vida"], é um filme que vai "crescendo" junto do espectador, à medida que ele vai entrando naquele mundo e familiarizando-se com aquelas personagens - há um lado folhetinesco, terrivelmente sedutor e eficaz, no filme de Marco Tullio Giordana. Por outro lado, e embora se adivinhe que, pelo menos em termos de montagem, pouco haverá em comum entre este filme e a série inicialmente prevista, será forçoso reconhecer que se detectam alguns traços dessa origem, mormente um certo "empastelamento" narrativo aqui e ali, ou ocasionais quebras de ritmo. O que não impede, tudo somado, que "A Melhor Juventude" até seja detentor de uma notável economia narrativa, com não poucos episódios importantes deixados em elipse (as mortes do pai e da mãe, por exemplo), e capaz da proeza, tão mais assinalável quanto se trata de um filme de seis horas e de uma narrativa de quarenta anos, de não incluir um único "flashback", um único momento de "recapitulação". Anda-se sempre para a frente em "A Melhor Juventude", o tempo nunca volta, literalmente, para trás - esse movimento é sem dúvida determinante, e que o espectador o viva sempre sem regresso é fundamental para a sua experiência narrativa e emocional.

tangente à História. Já alguém se referiu ao filme de Marco Tullio Giordana como "a terceira parte de '1900'", pegando mais ou menos no ponto em que Bertolucci deixara o seu filme e cobrindo a vida italiana desde então aos nossos dias. É um exagero, já que nada há de comum entre o filme de Bertolucci e este, totalmente isento do maniqueísmo crédulo e militante de "1900". Nada a não ser, de facto, o espírito de saga, a vontade de, numa golfada, narrar uma história que se prolonga por décadas, sempre em tangente à História com "h" grande.

"Tangente": será a melhor maneira de definir o modo como a história dos últimos 40 anos italianos entra no filme. "A Melhor Juventude" nunca é um filme "sobre" essa história, ela aparece como notação, sinalização temporal e contextualização, ou, à boa maneira melodramática, como algo que se intromete, de modo decisivo, na vida das personagens - seja em grandes linhas narrativas (como a história de Giulia, "perdida" para o marido e para a filha por se ter deixado atrair pelo activismo nas Brigadas Vermelhas), seja como fonte de encontros ou reencontros entre as personagens (as inundações de Florença em 1966, o assassinato do juiz Falcone em 1992), ou ainda, nalguns casos, como simples (mas eficaz) contraponto dramático (como quando a euforia da vitória italiana no Mundial de Futebol de 1982 serve de fundo contrastante a uma cena particularmente pesada).

De qualquer modo, a História é importante, quanto mais não seja porque este é, de modo mais ou menos expresso, um relato geracional que parte da impressão de uma "fractura" entre a geração daqueles que cresceram no pós-II guerra e a geração precedente. Essa demarcação surge expressa na cena em que o protagonista Nicola faz o seu exame na faculdade e o professor lhe deixa como conselho que abandone a Itália, "um país que tem que ser destruído, muito bonito mas inútil, dominado por dinossauros"; quanto Nicola lhe pergunta por que razão não abandonou ele a Itália, o professor responde: "Meu caro, eu sou um dos dinossauros". Nessa medida, a importância no filme dos anos 70, os "anos de chumbo" das Brigadas Vermelhas, é um verdadeiro nó central: porque rima com a "destruição" preconizada pelo professor, porque é o momento em que os sonhos contestatários da geração do pós guerra e dos anos 60 se transforma no seu próprio pesadelo distorcido e porque, em termos narrativos, permite a Marco Tullio Giordana uma definição da atitude das personagens, tornando explícita a capacidade de integração de Nicola (que, demasiado lúcido ou demasiado avesso a romantismos, tenta mudar o "sistema" por dentro) e a incapacidade da personagem de Giulia (que o filme não precisa de condenar porque a História já a condenou, podendo assim filmá-la como uma personagem de tragédia).

nostalgia. Falta ainda falar de outra personagem fundamental, a de Matteo, irmão de Nicola, que vive outro tipo de inadaptação, numa espécie de longo "exílio interior" que só se resolverá "post mortem". É por Matteo (e pela bela história de amor com a semi-louca Giorgia) que "A Melhor Juventude" incorpora uma melancolia que está à margem (ou aparentemente mais à margem) das questões históricas. Matteo é a personificação de uma nostalgia "ambulante", recordação viva, para o filme e para o espectador, das cenas iniciais, com um Verão ainda muito anos 50 e vivido quase no estereótipo do "Verão italiano", reminiscente de alguns verões de Valerio Zurlini e, ao longo de toda a duração de "A Melhor Juventude", a lembrança cada vez mais vaga de "um tempo em que era sempre festa". Sem essa dimensão, que é como a evocação de um ponto aonde as personagens desejam, no fundo, voltar, "A Melhor Juventude" não teria a carga emocional que tem - e no fim, quando os "sobreviventes" fecham o círculo para reconstituir, na medida do que lhes é possível, esse outro tempo, percebe-se bem como "A Melhor Juventude" é, afinal de contas, um filme sobre um enorme desejo de pacificação, pessoal e colectivo.