País Basco: A resistência de uma língua, a sobrevivência de uma ideia

Os mais acérrimos defensores da independência basca gostam de afirmar que se encontra "cientificamente provado" que a sua nação vive no mesmo território, a Euskal Herria, há 18 mil anos e que a sua é uma história de sobrevivência e resistência colectiva contra tudo e todos. O linguista Luís Michelena não vai tão longe, mas defende ser possível afirmar que a língua basca é falada desde o ano 6000 a.C. e que foi a única de todas as línguas pré-indo-europeias a sobreviver à avalancha da cultura indo-europeia; o basco não tem hoje uma família à qual se possa acolher.Resistentes a cartagineses, romanos, godos e muçulmanos, pela guerra ou pelas alianças, os bascos estabelecem-se pela primeira vez como unidade política com o ducado da Vasconia, no início do século VII. Dois séculos depois, o Reino de Pamplona (depois Reino de Navarra) era a sua primeira entidade independente, numa área sensivelmente semelhante ao País Basco de hoje. No início do século XI foram mesmo traçadas fronteiras entre Navarra e Castela, mas em 1200 Alava, Guipuzcoa e Biscaia abandonaram o reino e integraram-se em Castela.Os tempos de independência de Navarra acabariam por chegar ao fim no início do século XVI, por força de uma invasão castelhana, mas Madrid comprometeu-se a respeitar a soberania dos conquistados, através de Estatutos especiais para as regiões bascas. São estes estatutos que ainda hoje são invocados pelos independentistas como uma das justificações para a sua luta.Nas guerras de secessão carlistas de 1839 e 1876, os bascos estiveram ao lado dos secessionistas. Não só perderam os conflitos, como privilégios. Depois da primeira, os Estatutos especiais foram confirmados mas com uma ressalva essencial: "sem prejuízo da unidade constitucional". Depois da segunda, foi pior, com a proclamação da Lei da Abolição dos Estatutos, significando isso a abolição dos "fueros", leis e privilégios tradicionais, o pagamento de impostos a Madrid e a obrigatoriedade de cumprir o serviço militar sob a bandeira de Espanha.É neste momento, e por oposição a estas disposições, que nasce a ideia moderna de nacionalismo basco, sob a inspiração de Sabino Arana y Goii, fundador do Partido Nacionalista Basco. É Arana que cria o neologismo "Euskadi" para designar o conjunto dos bascos e fala da Euskeria, uma confederação dos povos bascos de Espanha e de França. Funda um nacionalismo fundado na ideia de "raça" e "pureza de sangue".Com a II República, fundada em 1931, há um avanço da autonomia e do nacionalismo basco, mas com divisões na região. A guerra civil de 1936-39 viu a maior parte dos bascos do lado republicano (o tapete de bombas sobre Guernica é um símbolo basco e unievrsal), mas a vitória de Franco resultou no fim da maior parte dos privilégios bascos. A repressão começou também quase imediatamente - não apenas a repressão violenta e policial da oposição política, mas também, por exemplo, através da proibição do ensino do basco nas escolas. A ETA nasceu em 1959 e até à morte de Franco, em 1975, travou contra Madrid uma luta sem quartel. E não desistiu nem depois de, com a transição para a democracia, os bascos terem recuperado os instrumentos de autonomia e a possibilidade de falarem a sua língua. Em 1979, um inquérito indicava que 38 por cento dos residentes se consideravam apenas bascos, 14 por cento apenas espanhóis, 26 por cento bascos e espanhóis, 12 por cento mais bascos que espanhóis, 6 por cento mais espanhóis que bascos; e quatro por cento não sabiam.Foi no último quartel do século XIX que a rica burguesia basca se lançou na industrialização, que levou ao começo do abandono dos campos e, sobretudo, à imigração em massa de espanhóis de outras regiões para o País Basco, fenómeno que Sabino Arana interpretou com uma "invasão espanhola". A segunda industrialização, nos anos 1950-60, acentuou esta tendência.Hoje, as três províncias bascas constituem a zona mais industrializada de Espanha e uma das mais desenvolvidas, beneficiando da sua situação geográfica, de uma poderosa infra-estrutura de comunicações e de uma força de trabalho das mais educadas. Em termos estatísticos, o rendimento per capita do País Basco está, em toda a Espanha, apenas atrás do de Madrid e, na Europa, situa-se no primeiro pelotão, à frente por exemplo da Dinamarca, da França, da Finlândia ou da Suécia.