Crítica

A ver passar os comboios

"A Estação" é uma primeira obra, um filme simples e sóbrio, mas com personalidade suficiente para que dê nas vistas.

O realizador, Tom McCarthy, 35 anos, tem trabalhado sobretudo no teatro (como actor, encenador e dramaturgo), participando de vez em quando, como actor, nalguns filmes e séries de televisão. "A Estação" ("The Station Agent" no original) tem deixado um rasto de estima um pouco por todo o lado por onde tem passado, com prémios conquistados em festivais tão diferentes como por exemplo os de Sundance e de San Sebastian, e ganhou inclusivamente um BAFTA - os prémios da indústroa britânica - para o melhor argumento original, que também é da autoria de Tom McCarthy.

Falámos com ele, e tratando-se de uma estreia absoluta na realização a maneira de começar a conversa parecia óbvia. "Não sou como se calhar são, na maioria, os realizadores de cinema, que toda a vida, desde miúdos, sonharam ter essa profissão", diz McCarthy. "O meu interesse foi gradual, começou pela representação, quando estava a estudar em Yale e entrei para o grupo dramático; quanto mais me envolvia como actor, mais me ia interessando pelos outros aspectos e pelas outras funções, e ao fim de algum tempo comecei a experimentar a encenação e, depois, a dramaturgia".

É por esse lado que se explica a passagem à realização cinematográfica? "Não posso dizer que tenha sido uma vontade súbita, mas também não foi uma coisa que transportasse comigo durante muito tempo; de algum modo, experimentar realizar um filme pareceu-me uma extensão natural das minhas outras actividades, até porque, como actor, já estive diversas vezes envolvido com o cinema". vminimalista. "A Estação" é um filme bastante minimalista em termos de "acção" e de "plot". Há uma personagem, um anão (Peter Linklage), que recebe em herança o edifício de uma antiga estação de comboios entretanto desactivada, situada num ermo algures perto de New Jersey. Muda-se para lá, o lugar é propício ao recolhimento e ao isolamento que a personagem procura, mas dois vizinhos entram na sua vida: Joe (Bobby Cannavale), um rapaz cubano extrovertido e palrador que toma conta da roulotte de cachorros quentes do pai, e uma pintora (Patrícia Clarkson) vagamente excêntrica que se encontra numa crise pessoal e também procura afastar-se do mundo. Todos eles estão sozinhos, a história que o filme conta é a da aproximação entre eles, da criação de laços afectivos quase familiares.

O protagonista, como se disse, é um anão; mas essa é uma característica que se torna quase um detalhe, não é o facto de a personagem ser um anão o elemento que mais a determina, nem se pode dizer que "A Estação" seja um filme "sobre" um anão ou sobre anões. Aliás, o papel nem começou por ser pensado especificamente para um anão: "O filme começou a formar-se na minha cabeça quando alguém me mostrou a estaçãozinha, que existe mesmo. Comecei a imaginar uma história, em que o protagonista já era bastante parecido com o da versão final mas... não era um anão. Peter Linklage, o actor, é meu amigo há bastante tempo, e trabalhámos juntos no teatro. Um dia, resolvi convidá-lo para o filme, e foi só então que a personagem se transformou num anão. Na raiz, o que era importante era que fosse um solitário, uma pessoa que escolhe estar sozinha e afastada do mundo".

A verdade é que passada alguma estranheza inicial o espectador deixa ele próprio de estar a "ver" um anão - quer porque Linklage parece óptimo actor, quer porque, de facto, a personagem tem outras facetas que acabam por se impôr. Por exemplo a paixão/obsessão pelos comboios e pela história dos caminhos de ferro americanos, que no fundo é o principal sinal da bizarria da personagem.

"Investiguei imenso sobre os 'railfans', há muitos nos EUA, muitos clubes e associações. São pessoas que sabem tudo sobre comboios, que podem fazer centenas ou milhares de quilómetros só para irem ver e fotografar um comboio em particular, ou uma extensão de linha férrea, ou um apeadeiro. Vivem aquilo com enorme paixão, e no fundo é um 'hobby' como qualquer outro". No filme, a função dessa paixão pelos comboios é sobretudo uma maneira de reforçar a ideia de que a personagem vive num mundo próprio, à parte, um inadaptado que escolheu mergulhar no mundo dos comboios assim como outros se dedicam a fazer modelos de aviões ou a ver filmes e a decorar fichas técnicas. Mas Finbar (assim se chama a personagem), como insiste McCarthy, não é uma personagem triste: "A coisa mais importante que defini com o Peter em relação à personagem é que ela não seria triste; seria solitária, alheada do mundo, e seguramente não a pessoa mais feliz do mundo, mas não seria triste; pelo contrário, Finbar é alguém que se encontra razoavelmente satisfeito, que foi viver para ali porque escolheu ir para ali e que está sozinho porque quis estar sozinho; há muitas pessoas assim e julgo que a maior parte de nós possa ter essa tentação do isolamento nalgum momento das nossas vidas; a grande questão do filme não é essa, mas o tempo: durante quanto tempo conseguimos estar sozinhos?".

Outro aspecto terrivelmente atraente na personagem é o seu laconismo, tudo se passa como se as outras personagens tivessem que conquistar a sua voz, a sua fala, e só a partir desse momento se garantisse que Finbar fora também "conquistado". McCarthy comenta isto com uma comparação bizarra mas, afinal de contas, justa: "É um luxo uma pessoa poder falar só quando quer falar, e dizer só o que quer dizer, na maior parte das vezes temos que falar mesmo quando não queremos, quanto mais não seja para não parecermos uns grandes antipáticos aos olhos dos outros; mas essa faceta de Finbar foi pensada como revisitação nostálgica de algumas figuras, como John Wayne: as personagens dele só falavam quando queriam, e por isso quer a voz dele quer o que ele dizia acabavam por ter um peso esmagador; gosto de pensar em Finbar como se fosse um John Wayne anão..."

"A Estação", na sua rarefação e quase inexistência de "plot" ("quis deliberadamente manter tudo muito simples, acho que muito do cinema independente americano peca por querer ser demasiado complexo e complicado para dar nas vistas e às vezes não tem pés nem cabeça"), escora-se numa gestão dos tempos e dos silêncios (e da inacção) que pode ser, nalguns momentos, bastante sedutora, e nem por isso é muito comum. Remata McCarthy: "Procurei que os actores e as personagens fossem o essencial, que tudo nascesse deles; acho que isso é frequente nos filmes realizados por pessoas que, como eu, têm acima de tudo uma formação de actor; mas também é isso que eu vejo nalgum cinema europeu, nos filmes de Mike Leigh ou de Pedro Almodóvar, e foi o que eu procurei fazer". Essa maneira de tratar cada actor e cada personagem como se cada um fosse, por si próprio, um "filme" - e tanto mais que o trio central de "A Estação" é composto por personagens bastante diferentes - é mesmo uma das principais fontes do charme exibido pelo filme de McCarthy. À imagem do seu protagonista: pequeno, modesto, um tanto ensimesmado - mas cheio de dignidade e "panache".