Como Paulo Portas apoiou Cavaco em 1996

A 11 de Janeiro de 1996, três dias antes das eleições presidenciais, Paulo Portas, deputado do CDS/PP, sobe à tribuna da Assembleia da República e faz um discurso surpreendente. Por entre críticas a Jorge Sampaio e a Aníbal Cavaco Silva, anuncia: "Eliminarei, nas eleições do próximo domingo, como cidadão eleitor, a candidatura do dr. Jorge Sampaio e escolherei o mal menor, que, nestas eleições, é a candidatura do prof. Cavaco Silva." O homem que, enquanto director do "Independente", mais tinha contribuído para o desgaste dos governos de Cavaco Silva, estava ali a dizer que a direita, à falta de melhor, devia votar em Cavaco Silva. Para trás ficava uma longa novela de avanços e recuos, de almoços e jantares, que, hoje, Manuel Monteiro reconhece ter sido a causa da sua saída da liderança do CDS."Entrei num jogo em que não devia ter entrado. Tenho a consciência de que é um facto da minha vida política de que não me saí bem", disse Manuel Monteiro ao PÚBLICO, contando a sua versão de como o partido que então liderava lidou com as eleições presidenciais de 1996. "Pessoalmente, sempre entendi que o partido devia apoiar o prof. Cavaco Silva e disse-o dentro do partido. Mas percebi que a animosidade da estrutura do partido era muito grande e que era particularmente testemunhada por Paulo Portas, que já era deputado. E, na tentativa de conciliar tudo, não conciliei nada", analisa Monteiro, hoje líder do Partido da Nova Democracia.Em 1995, Manuel Monteiro era o líder partidário mais popular. Tinha tirado o CDS da agonia dos quatro deputados, conseguindo eleger 15 parlamentares nas legislativas de Outubro desse ano, ganhas pelo PS. Também a sua imagem estava ligada à luta contra Cavaco Silva e as suas maiorias absolutas, que para a generalidade dos democratas-cristãos quase tinham levado o partido à extinção. Daí que fosse difícil anunciar um apoio à candidatura presidencial de Cavaco Silva.Ainda antes do anúncio oficial dessa candidatura, conta Monteiro que chegaram a ser promovidas no Caldas (a sede do CDS/PP) reuniões com possíveis candidatos da direita, como Pedro Ferraz da Costa. Ao mesmo tempo, mantinha-se no ar a possibilidade de Pedro Santana Lopes também correr para Belém.Cavaco Silva avança, a 10 de Outubro de 1995, e Manuel Monteiro recorda que os comentadores de serviço na televisão eram, precisamente, Santana Lopes e Paulo Portas. Este terá dito qualquer coisa como "espero que o CDS nunca apoie este senhor." Aliás, num comentário para o PÚBLICO, o agora líder do CDS e ministro de Estado e da Defesa dizia: "É uma candidatura profundamente viciada no passado e cujo único propósito é arranjar uma enorme instabilidade ao país. A mim, como pessoa de direita, o candidato Cavaco Silva não me diz nada."Entretanto, Monteiro é convidado para um jantar com Cavaco Silva, em casa de Maria João Avillez e no qual também esteve Maria José Nogueira Pinto. O objectivo era saber se o CDS apoiaria Cavaco. Segundo conta, assumiu que "a situação não era fácil", pois "havia ali um ódio de estimação". E comprometeu-se a não falar do jantar, que acabou por ser capa de "O Independente"."Caiu-me o Carmo e a Trindade em cima", diz Monteiro. "Alguém me pede para ir a casa do Pedro Santana Lopes para ver se ele queria ser candidato", continua, assumindo que "era uma forma de o CDS contribuir para dividir o PSD". Conversam e, mais uma vez, "O Independente" dá a notícia."Fui comido como um miúdo", reconhece hoje Manuel Monteiro, que, a seguir, convoca uma reunião da comissão política do CDS/PP alargada às distritais, convencido de que, pelo menos, estas estruturas iriam estar do seu lado. Mas "proponho o apoio a Cavaco e perco". Nuno Fernandes Thomaz e Luís Nobre Guedes são os únicos dirigentes a defender esse apoio. Na mesma reunião, Monteiro diz que pediu autorização para apoiar Cavaco Silva a título pessoal e também aí perde a votação, acabando mesmo por ter a comissão política a dizer-lhe que, se jantou com Cavaco, tem de almoçar com Sampaio, o que acaba por fazer em casa de Laplaine Guimarães. A reunião, diz, "demonstra que de facto não estava a segurar o partido".A seguir, Manuel Monteiro vai à televisão dizer que a direita não sabe em quem votar, mas que, se calhar, muita gente vai votar em branco. Começam, então, declarações individuais de apoio a Cavaco Silva. É o caso de Lobo Xavier. "Deixei este gajo assumir um protagonismo que me cabia a mim", recorda-se de pensar Monteiro, que começa a ser insultado na rua, acusado de traidor.É, então, que percebe que tem de fazer alguma coisa. E conta o que fez: "Peço a Paulo Portas que vá a minha casa e digo 'foi um erro que cometi. Não posso culpar ninguém, só há aqui uma forma de limpar este erro, já não posso voltar atrás. A única pessoa que pode neste momento dar a cara és tu'. Ele dizia 'não me podes pedir isso. Fiz do combate ao Cavaco a luta da minha vida'. Eu insisto com ele e digo que inclusive estou disponível a dar-lhe a presidência do partido. Já tinha perdido o partido do ponto de vista político. Percebi que a autárquicas eram de facto para cumprir calendário."Portas dirá, no Parlamento, que pediu autorização ao líder do partido para fazer a declaração política de apoio a Cavaco. Diz mesmo: "A minha lealdade é ao Partido Popular e ao seu presidente." Defende que o equilíbrio se faz no Parlamento e que aí o CDS será "um travão ao situacionismo se o dr. Jorge Sampaio vencer e um travão à vingança ou à tentação da vingança se o prof. Cavaco Silva vencer". Diz que Cavaco não fez qualquer esforço para unir o centro e a direita, que não se arrependeu, nem se emendou de tantas vezes ter chamado "radical" ao CDS, "não pôs a mão na consciência sobre o grave que foi, por exemplo, ter sujeitado uma geração de portugueses à desgraçada reforma do ensino que promoveu e assinou". Lembra que combateu Cavaco "como poucas pessoas", mas garante que não fazia da sua vida "um ressentimento permanente ou um ajuste de contas". E vai justificando a sua escolha: "Para a direita, Cavaco Silva é um estranho, mas Jorge Sampaio é um adversário ; Cavaco Silva quer os nosso votos, mas não quer as nossas ideias, Jorge Sampaio não quer os nossos votos e tem ideias contrárias às nossas. (...) Escolherei o mal menor. Jorge Sampaio está à esquerda da esquerda, Cavaco Silva está à esquerda da direita. (...) A direita nestas eleições não eleições não escolhe, elimina."Passados oito anos, CDS e PSD governam em coligação, Portas é ministro e líder do CDS, Monteiro saiu do seu partido de sempre e fundou a Nova Democracia, mas, tal como em 1995, Cavaco e Santana são os pré-candidatos da direita. Santana já veio dizer que ele em Belém será melhor para a coligação. Portas, antes, tinha mandado calar os apoiantes de Santana no partido. Nobre Guedes deu o sinal de apoio a Cavaco. No CDS, há dirigentes que dizem que Santana seria o melhor para o partido, mas que Cavaco é o melhor para o país.