"O sonho jamaicano" de Avelino Ferreira Torres

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Os que contestam Avelino são "psicopatas" ao serviço do "bando do pistola" Marco Maurício/PÚBLICO

Com piscinas, cascatas, muitas flores, uma casa apalaçada, um campo de futebol para os momentos de descontracção. E uma réplica do Cristo Rei no topo de um monte, porque o eterno presidente da Câmara do Marco de Canaveses (está à frente da autarquia há 25 anos) é um católico fervoroso.

Quando regressou a Portugal, o autarca eleito pelo CDS/PP apressou-se a comprar, por 48 mil contos, a quinta da Segoiva, numa zona privilegiada do Marco, que "estava à venda há mais de 12 anos". Nos anos seguintes foi juntando parcelas à propriedade, que hoje se estende por montes e vales, num total de 22 hectares, completamente rodeado por muros de dois metros de altura. Agora quer transformar o empreendimento num complexo de luxo denominado Estalagem Santa Teresa.

Aos que contestam os métodos usados para concretizar o seu "sonho jamaicano", acusando-o de um comportamento menos transparente na aquisição das parcelas de terreno e na abertura de ruas municipais que valorizaram a propriedade, Ferreira Torres chama-lhes simplesmente "psicopatas". Psicopatas ao serviço de um misterioso "bando do pistola", bando esse o autarca se recusa a identificar publicamente, mas que tem por missão exclusiva, garante, o seu "assassínio político". Jornalistas pouco escrupulosos, um "filósofo barato" que procurou carreira profissional na política, um alegado "molestador de crianças", um ex-deputado que terá lesado o Estado no caso das "viagens fantasmas" e um relaxado trabalhador da Função Pública são os tenebrosos conspiradores, que, supostamente, querem arruinar Ferreira Torres.

O autarca só não identifica os conspiradores publicamente porque foi desaconselhado pelo seu advogado, como contou ontem, durante uma conferência de imprensa na quinta da Segoiva, que decorreu num terraço em construção com vista para o Cristo Rei e para a extensa propriedade, onde estão a decorrer obras de terraplanagem do campo de futebol. Sentado a uma mesa de madeira, rodeado pelos dois filhos adultos (um homem e uma mulher), com uma dúzia de apoiantes encostados às paredes de cimento e com os jornalistas empoleirados em cadeiras de plástico à beira de uma varanda sem protecção, Ferreira Torres atacou tudo e todos, disse que o querem destruir, e concluiu com uma tirada gloriosa: "A não ser a morte, nada, rigorosamente nada, será capaz de me impedir de ser o próximo presidente da Câmara de Amarante."

Quando Ferreira Torres chegou à quinta ao volante do seu carro desportivo vermelho, esperava-se que avançasse explicações para a maneira como construiu o seu extenso património imobiliário. Mas o autarca cedo refreou os ânimos, ao ler um comunicado de quatro páginas recheado de acusações a uma jornalista que assinou recentemente uma reportagem sobre o seu património.

Às questões directas, respondeu com evasivas. "Esta quinta é sua?", quiseram saber os jornalistas. "Não tenho nada em meu nome pessoal", retorquiu, para mais à frente admitir que é sócio, em conjunto com os filhos, de duas empresas que se dedicam à compra e venda de propriedades e à construção civil.

Confessou não saber se é dono de 12 se de 17 propriedades, confessou ainda que deve 1,5 milhões de euros à banca, mas escusou-se a dizer quanto vale o seu património, estimado pelos seus adversários políticos em muitos e muitos milhões de euros. Disse que a casa em formato de U que está a construir no centro da quinta não se destina a habitação pessoal, mas sim a uma estalagem de luxo, que vai criar 24 novos postos de trabalho, e anunciou que há um grupo espanhol ligado a um clube de futebol disposto a instalar na quinta um centro de estágio.

Falou do "nojo" que lhe metem alguns jornalistas, garantiu que não lê nenhum jornal por não ter "tempo nem arcaboiço para ler as tropelias" que, alegadamente, escrevem sobre ele, e censurou a atitude de uma jornalista da Rádio Renascença que lhe pediu para ser menos evasivo. "Não sabia que numa rádio católica aceitavam pessoas com tão poucas maneiras", ironizou. Mais tarde dirigiu-se à mesma jornalista e disse-lhe, conciliatório: "Você é muito bonita. Se tivesse que fugir com alguém escolhi-a a si." Depois meteu-se no carro vermelho, benzeu-se junto ao Cristo Rei e mandou fechar os portões da quinta.

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