Historiador de arte dirige Torre do Tombo

O gabinete do primeiro-ministro assinou ontem a nomeação do historiador de arte Pedro Dias, da Universidade de Coimbra, para director do Instituto de Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT), que substitui no cargo Miriam Halpern Pereira. Pedro Dias, com 53 anos e professor catedrático desde 1990, escolheu para subdirectora Maria do Carmo Dias Farinha, responsável até aqui pela Direcção de Serviços de Arquivística da Torre do Tombo. José Maria Salgado, subdirector da anterior direcção, poderá ou não manter-se em funções.O historiador de arte Vítor Serrão, que fez o seu doutoramento em Coimbra com Pedro Dias, saúda esta nomeação inesperada: "É a primeira vez que um historiador de arte é nomeado para a direcção da Torre do Tombo. É bom porque corresponde a um mediatismo que a história de arte ainda não teve." Sobre o olhar particular de um historiador de arte na Torre do Tombo, Vítor Serrão diz que pode "privilegiar a imagem, nomeadamente a iluminura e a gravura", ou seja, "os estudos iconográficos". Segundo a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, da Universidade Nova de Lisboa e ex-directora do Instituto Português de Museus, Pedro Dias tem um trabalho pioneiro na época dos descobrimentos: "Renovou muito o trabalho da história de arte do império, dos séculos XVI a XVIII." Hoje, continua uma referência da história de arte, mas Raquel Henriques da Silva lamenta "a falta de dinamismo do Instituto de História de Coimbra", que Pedro Dias deixou de dirigir no ano passado. Os dois estiveram em Dezembro envolvidos numa polémica, depois de um júri de que fazia parte Pedro Dias ter chumbado o historiador de arte Rafael Moreira nas provas de agregação à Universidade Nova.Antes de ser um historiador de arte, Pedro Dias diz que é um historiador: "O meu perfil é igual ao dos anteriores directores da Torre do Tombo. Um historiador de arte é um historiador, não sou um crítico de arte. É a mesma coisa do que ser um historiador de história económica." Inscrito no PSD desde Maio ou Junho de 1974, o novo director lembra que "é dos primeiros 300 militantes". A sua actividade partidária liga-se ao Gabinete de Estudos do PSD para a área da cultura, "cujo último coordenador foi Vasco Graça Moura, mas de que também faziam parte André Dourado, o número dois e actual assessor do primeiro-ministro para a Cultura, ou José Amaral Lopes, secretário de Estado da Cultura". A ida para a Torre do Tombo "está definida há dois anos, desde que o Governo tomou posse".Sobre a direcção do IAN/TT, Pedro Dias diz que o seu plano é a seis anos, ou seja, para dois mandatos: "Não é a Torre do Tombo que me interessa particularmente, mas os arquivos nacionais. A Torre do Tombo é evidentemente o arquivo mais importante, onde é preciso apressar o tratamento dos fundos documentais." Para incorporar na Torre do Tombo alguns arquivos históricos dos ministérios - uma medida prevista no futuro decreto-lei, à espera de ser promulgado pelo Presidente da República - "e que tem vantagens nalguns casos, há que dotar o IAN/TT de alguns meios técnicos, humanos e financeiros", diz. Embora haja a intenção política de fazer as incorporações, "elas não deverão acontecer antes de Janeiro de 2005". O novo director, que tem para 2004 um orçamento de 10 milhões de euros, uma subida de nove por cento em relação ao ano passado, espera ainda uma dotação maior em 2005 e "adequada às novas realidades".Quanto ao Diagnóstico aos Arquivos Intermédios da Administração Central -feito pela direcção anterior e que analisou o estado dos arquivos dos ministérios que já não estão a uso corrente mas ainda não são históricos -, Pedro Dias diz que foi "importantíssimo". O diagnóstico, considerado muito preocupante, foi revelado nas últimas semanas, tendo provocado alguma polémica entre os arquivistas, que afirmaram ser a situação conhecida. "Uma coisa é sabermos, outra coisa é ter um diagnóstico feito com pés e cabeça", comenta. Definir prioridades para a direcção ainda é cedo, uma vez que só serão estabelecidas após uma avaliação "clara" da situação: "Depois de visitar todos os arquivos distritais e analisar com os técnicos a legislação que aí vem. Não me passa pela cabeça ter atitudes de gestão desenquadradas das pessoas. É um cargo político para executar a política do Governo em estreita colaboração com o saber dos técnicos, particularmente dos arquivistas do Ministério da Cultura, mas também dos que não são." Um dos seus primeiros interlocutores será Silvestre Lacerda, presidente da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. InflexãoLacerda, um dos críticos ao diagnóstico dos arquivos intermédios, disse ao PÚBLICO que espera uma "inflexão" na acção do IAN/TT: "Que passe a ser uma política menos orientada pelo pendor historicista e mais voltada para a preservação da memória dos organismos sociais." Para isso, define duas linhas de actuação estratégicas. "A primeira questão fundamental é pôr o IAN/TT no século XXI. O instituto tem que tomar em linha de conta que há a questão da gestão documental. Tratar os arquivos como um sistema global de informação, desde o planeamento dos sistemas até ao destino final do documento, que pode ser a sua destruição ou a conservação permanente." A segunda inflexão estratégica é a criação de uma rede nacional de arquivos, uma infraestrutura que organize os arquivos portugueses: "Quero que exista um organismo coordenador da rede, que em conjunto com os operadores delineie uma política." Essa rede incluiria os arquivos distritais, que já fazem parte do IAN/TT, os municipais, os dos ministérios, mas também arquivos particulares, como os da igreja ou da Fundação Mário Soares. Uma das tarefas desse organismo seria, por exemplo, coordenar "todas as questões relacionadas com a troca da informação, pôr todos a falar uma linguagem compatível". Se a Torre do Tombo já traduziu as "Normas Gerais Internacionais de Descrição em Arquivo", falta fazer ainda as regras nacionais, "decidir por exemplo se se escreve paróquia ou freguesia".O IAN/TT tutela directamente 16 arquivos distritais, com excepção de Coimbra e Braga, ambos dependentes das respectivas universidades. Por razões históricas, a Biblioteca Pública de Évora também faz parte deste universo. Em relação aos arquivos municipais, que não são tutelados pelo IAN/TT, a Torre do Tombo criou em 1998 o Programa de Apoio à Rede de Arquivos Municipais, pois uma das suas competências é apoiar as autarquias. O programa, segundo o "site" do IAN/TT, financiou cerca de 100 câmaras.