O que levou Sadat a visitar Jerusalém em 1977

O Presidente de Israel manifestou-se desapontado por o seu homólogo sírio ter recusado um convite para visitar Jerusalém e retomar negociações interrompidas em 2000. "Parece que [Bashar al-]Assad não é feito da mesma fibra do antigo Presidente egípcio, [Anwar] Sadat", lamentou Moshe Katsav. Muitos analistas concordam que o inexperiente líder de Damasco nada tem em comum com o visionário "raïs" do Cairo. As personalidades de ambos e a influência de cada um sobre os seus regimes são diferentes, mas diferentes foram também as circunstâncias que, em 1977, levaram o antecessor de Hosni Mubarak a visitar a cidade santa que judeus e muçulmanos continuam a disputar.Para entender os motivos de Sadat é preciso recuar até 1957, quando os irmãos Dulles (John Foster, secretário de Estado americano, e Allen, chefe da CIA) conceberam a "Aliança da Periferia", integrando Israel, o Irão, a Turquia e a Etiópia. O objectivo era contrabalançar o peso dos árabes no Médio Oriente e conter a influência soviética. O primeiro a ser cortejado foi o Irão, do Xá Reza Pahlavi, que reconhecera "de facto" Israel, embora nunca tivesse estabelecido laços diplomáticos plenos. Até à ascensão ao poder do ayatollah Khomeini, em 1979, a monarquia iraniana fornecia o essencial das necessidades de petróleo ao Estado hebraico. E Israel ajudou a Pérsia a desenvolver armas balísticas e construir uma importante indústria bélica. O problema é que estas relações eram quase clandestinas. O vulnerável imperador temia os poderosos "mullahs", e o seu afastamento de Israel começou quando conheceu Sadat. Numa cimeira islâmica, em Marrocos, em 1969, o ainda "número dois" do pan-arabista Gamal Abdel Nasser propôs ao detentor do Trono do Pavão um novo mapa regional cujo eixo seria Teerão-Riad-Cairo. Sadat já tomara consciência de que o futuro do Egipto não estava no campo da URSS mas numa aproximação aos EUA, e jogou tudo nesse sentido. Em Outubro de 1973, vários países árabes, liderados pelo Egipto, lançaram um ataque surpresa contra Israel. Receando as consequências desta guerra, a Etiópia, de Hailé Sélassié, mandou chamar o seu embaixador em Telavive; a Turquia reduziu a sua representação ao nível de consulado.A "Aliança da Periferia" entrou em decomposição. Terminada a necessidade de uma união anti-soviética, Israel começou a estudar opções de coexistência com os vizinhos árabes. Não foi, todavia, um caminho sem sobressaltos. Foram necessários vários intermediários, do defunto rei Hassan II de Marrocos ao ex-Presidente dos EUA Jimmy Carter.Em 9 de Novembro de 1977, Sadat surpreendeu os seus deputados ao anunciar que estava pronto "para ir ao fim do mundo, e até ao Knesset [Parlamento] em Jerusalém, se isso ajudar a poupar a vida de uma criança no Egipto." Só ao fim de quatro dias o primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, oriundo da burguesia polaca, descodificou o discurso do filho de camponeses do Nilo.À semelhança do que acontece agora em relação a Assad, os líderes de Israel achavam que Sadat apenas queria impressionar os Estados Unidos, mas ele já tinha obtido - em contactos secretos com emissários israelitas e americanos - as garantias que pretendia: em troca de um acordo de paz, receberia o Sinai, península perdida na mais humilhante guerra que os árabes travaram contra Israel, em 1967.Em 15 de Novembro de 1977, Begin fez chegar um convite a Sadat através da embaixada dos EUA. Sadat escolheria o dia e a hora da sua chegada a Israel. O Boeing branco Egypt-01 de Sadat aterrou às 20h01 locais do dia 19. Foi acolhido com uma salva de 21 tiros de canhão e os respectivos hinos nacionais. O que Sadat não sabia, e Charles Enderlin revela no seu livro "Paix ou Guerres- Les Secrets des Négotiations Israélo-Arabes 1917-1997", é que os militares israelitas colocaram comandos de elite em todos os telhados do aeroporto de Ben-Gurion, em Telavive. Receavam o desembarque de um comando suicida que teria eliminado toda a direcção política israelita. Afinal, estavam todos lá: de Golda Meir a Ariel Sharon.O discurso de Sadat no Knesset gerou calafrios: [Israel] tem de abandonar o sonho de conquista e a convicção de que a força é o melhor meio de enfrentar os árabes. [....] Como chegar à paz? É preciso expor com força e clareza as verdades: há territórios árabes que Israel conquistou pela força e que continua a ocupar pela força. Exigimos com firmeza a retirada desses territórios, incluindo Jerusalém. [...]."Ao ouvir estas palavras, o general Ezer Weizman passou discretamente uma nota ao general Moshe Dayan, um dos que iniciara os contactos secretos: "Prepara-te para a guerra". Begin terá sussurrado: "Isto é um ultimato!" Nas ruas, extasiados, israelitas e egípcios celebravam a paz. Mas o mais complicado estava para vir: as negociações. Begin resistiu até ao fim ao desmantelamento dos colonatos no Sinai, e acelerou até a judaização da Cisjordânia. Fez perder a paciência de Carter, e a sua intransigência levou Dayan e Weizman a demitirem-se. Em 1979, o Presidente americano impôs uma maratona negocial até conseguir que, em 26 de Março, o tratado de paz israelo-egípcio (o primeiro entre um país árabe e o Estado judaico) fosse assinado na Casa Branca, em Washington. O fim da história não foi o melhor para os três protagonistas: Carter perdeu a presidência dos EUA em 1980; Sadat, ostracizado pelo mundo árabe, foi assassinado em 1981 por um extremista islâmico. Begin abandonou a política em 1983, depois do fiasco da invasão do Líbano. Quanto a Mohanmmed Hassan el-Touhami, o marechal místico que mais encorajou Sadat a "apertar a mão de Begin", seria internado, em 1984, a pedido da família, num asilo psiquiátrico. Bashar al-Assad provavelmente nunca conseguirá recuperar a totalidade dos Montes Golã. Ao contrário do planalto sírio, o Sinai de Sadat não tinha reservas de água necessárias à sobrevivência do Estado judaico. Mas quem sabe se o filho da "Esfinge de Damasco" não virá um dia a revelar-se um homem de grandes visões. Pelo menos, o seu sonho de criança era ser oftalmologista.