Crítica

A qualidade britânica

"O Amor Acontece" faz lembrar a história da galinha dos ovos de ouro. Richard Curtis, que aqui se estreia na realização (depois de vasta carreira como argumentista), tem sido um abono de família do cinema britânico na última década. Procure-se um grande sucesso oriundo de Inglaterra e é certo e sabido que também por lá se encontra Curtis, autor dos argumentos de "Quatro Casamentos e um Funeral", "Notting Hill" e "O Diário de Bridget Jones". De certa forma, se não inventou um género, a comédia romântica "à inglesa", fez muito por isso.

Para a sua passagem à realização (também escreveu o argumento) escolheu uma súmula, uma versão "total" do tipo de comédia romântica que ajudou a criar - "O Amor Acontece" é um "pot pourri" que junta os ingredientes dos outros filmes num só, ficando por saber se restará mais algum ovo de ouro. Na verdade, mais do que um filme, são vários, como várias curtas-metragens montadas em paralelo, tendo como traço de união a relação vaga entre as personagens de algumas histórias e os apontamentos do princípio e do fim, na zona de chegadas do aeroporto de Heathrow, descrito pelo filme como o lugar onde se deve ir para se confirmar que o amor "actually happens".

É inevitável reconhecer que, passe o lado descosido de semelhante programa (um Altman em versão ligeira, suave e televisiva), alguma coisa acontece. A coisa "escorrega" surpreendentemente bem, e isso terá a ver com uma capacidade de fazer aparecer personagens vindas do nada. "O Amor Acontece", no fundo, é um típico "filme de personagens", onde é menos importante aquilo que elas fazem do que o simples facto de estarem ali.

Claro que é impossível dissociar desse pormenor a galeria de actores, que, de Hugh Grant a Emma Thompson, de Alan Rickman a Colin Firth (ou o menos conhecido Bill Nighy, no papel de um velho e decadente rocker, que leva a palma), passa por ser um desfile da nata do "star system" britânico, pleno de "coolness" e "britishness" (e há pessoas para quem essas duas coisas são irresistíveis).

E toda esta gente passeia-se apenas no filme? Não, fazem um bocadinho mais do que isso. Se Hugh Grant repete pela enésima vez o desajeitado cheio de charme (é, imagine-se, o novo primeiro-ministro, solteiro e apaixonado por uma das secretárias) e toda a sua história é talvez o "weakest link" do filme, outros são mais sólidos. Liam Neeson, por exemplo, no papel de um recém-viúvo a ajudar o enteado na sua iniciação sentimental. Ou Colin Firth, a usar às mil maravilhas o seu registo de carantonha impassível (é um escritor que se encontra com uma emigrante portuguesa de Marselha, Lúcia Moniza). Ou o casal interpretado por Alan Rickman e Emma Thompson, na história mais "séria" do filme que ambos interpretam com notável subtileza. É sobretudo por eles que o filme acontece.