Martins da Cruz, um diplomata que gosta de ter inimigos

Aos 56 anos, 30 dos quais dedicados à carreira diplomática, António Martins da Cruz confronta-se com um dos momentos mais difíceis da sua vida. Quem conhece bem a sua peculiar personalidade, raramente dada a concessões e temperada com laivos de irascibilidade, supõe que Martins da Cruz deve ter revelado todas as suas resistências antes de ceder a esta demissão do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Para um homem que sempre ostentou uma folha curricular impecável, ornada com importantes funções diplomáticas nas Nações Unidas, na NATO ou na UEO (União da Europa Ocidental), a saída atribulada do Governo português representa uma mancha indelével. A confiança e a velha amizade pessoal de Durão Barroso, demonstrada mesmo nos momentos mais difíceis do seu mandato, não lhe valeram de muito num processo de casos obscuros que resultou também na demissão do ministro da Educação, Pedro Lynce. Muitas das suas afirmações e medidas foram alvo de contestação - recordem-se, por exemplo, a recusa em sancionar a entrada do presidente da Bielorrússia na União Europeia ou a polémica transferência de Seixas da Costa de Nova Iorque para Viena -, mas o seu carácter temperamental e o nível médio de popularidade que granjeou contribuiram para fortalecer a sua posição. As suas fraquezas, por assim dizer, são outras. Desde o seu tempo de debutante nas lides partidárias, em 1985, como assessor diplomático de Cavaco Silva, então primeiro-ministro, que Martins da Cruz tem fama de "outspoken", tendo-lhe sido também atribuído, mesmo por alguns social-democratas, um cariz conflituoso. Mas, afinal, quem é este homem que, recém-chegado ao Palácio das Necessidades, agitou as hostes diplomáticas, rodeando-se de pessoas da sua total confiança? Filho mais velho de dois irmãos, António Martins da Cruz foi baptizado com o nome do seu pai, antigo advogado com escritório na Baixa lisboeta e homem forte da Universidade Lusíada. Quando terminou o liceu, no Colégio de S. João de Brito, o jovem jogador de râguebi seguiu as pisadas do progenitor: licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa e ficou desde logo conhecido no meio académico lisboeta por ter optado pela facção "de direita" em plena crise académica de 62. Os primeiros passos nos corredores diplomáticos aconteceram em 1972, em Moçambique, mas já depois da Revolução dos Cravos, um conflito com o então embaixador de Portugal em Maputo, Albertino Almeida, levou à sua expulsão do país africano. Valeu-lhe Medeiros Ferreira, amigo dos tempos da faculdade, que então chefiava o ministério dos Negócios Estrangeiros e o enviou para o Cairo. Foi lá que casou com Rose, uma brasileira, filha de pai francês. Desta união nasceu a sua única filha, Diana, hoje com 18 anos, fã do "rapper" Eminem. A par da década passada ao lado de Cavaco Silva, António Martins da Cruz teve uma vida pública assaz frenética: passou por várias embaixadas (a última foi Madrid, de onde saiu directamente para o Executivo de Durão Barroso), conheceu quatro presidentes dos EUA, viajou milhares de quilómetros. Apesar de uma agenda sobrecarregada, teve sempre tempo para algumas das suas paixões - o cinema, a literatura (é um fervoroso leitor de Eça) e as artes plásticas (é coleccionador de arte contemporânea). A amizade com Durão Barroso remonta ao final da década de 70. Estava em Genebra, a participar uma reunião da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, quando foi entrevistado pela jovem jornalista Margarida Sousa Uva, mulher do primeiro-ministro. Foi ela quem lhe apresentou Durão Barroso e, a partir de então, os dois casais tornaram-se amigos. Passaram a partilhar as férias, almoçavam juntos uma vez por semana e quando nasceu o segundo filho de Durão e Margarida, Guilherme, a escolha dos padrinhos recaiu em António e Rose Martins da Cruz. A profícua amizade com Durão levou alguns dos seus detractores, quando ainda era assessor diplomático de Cavaco Silva, a associarem o seu nome a pressões para a saída de João de Deus Pinheiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros e consequente ascensão de Barroso a titular da pasta. Martins da Cruz esteve ao lado de Cavaco Silva desde o primeiro ao último dia. Nessa altura, já existia quem o acusasse de ser bastante conflituoso e quem lhe apontasse palavras ofensivas. As queixas provinham muitas vezes dos próprios membros do gabinete de Cavaco. Dentro e fora do PSD arranjou "inimigos" - facto, aliás, do qual se vangloria -, mas as ressonâncias do reflexo que projecta nos outros é algo que, diz, preza: "É fundamental a imagem que os outros têm de nós", afirmou à revista Visão em Abril último. Resta agora saber quais os contornos que poderá adquirir a sua imagem depois da demissão anunciada ontem.