Entrevista

Isaías Samakuva: "A UNITA vai ganhar as eleições legislativas em Angola"

Samakuva ingressou nas fileiras da UNITA em 1976
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Samakuva ingressou nas fileiras da UNITA em 1976 Miguel Souto/Lusa

Isaías Samakuva, que hoje chega a Lisboa, nasceu em Silva Porto-Gare (actual Kunje, na província de Bié) no dia 8 de Julho de 1946, quando seu pai trabalhava como funcionário público no posto administrativo dessa localidade, antes de ter sido ordenado pastor evangélico.

Em 1964 matriculou-se na Escola Industrial e Comercial do Bié. Fez serviço militar no Exército português e em 1976 ingressou nas fileiras da UNITA, onde em 1978 se tornou responsável pela logística. Em 1989 foi nomeado representante do partido em Londres. Em 2000 designaram-no chefe da Missão Externa do Galo Negro e em Junho último foi eleito para a liderança, no lugar deixado em aberto por Jonas Savimbi. Hoje tem ambições de chegar a Presidente de Angola.

PÚBLICO - Quando é que crê que vão ser as próximas eleições presidenciais e legislativas em Angola?

Isaías Samakuva - O Governo admitiu dois cenários, um para 2004, com constrangimentos, e outro para Setembro de 2005. Sugerimos também que se efectuem, o mais tardar, em Setembro de 2005. Mas para isso é preciso que se executem desde já determinadas tarefas, a partir do próximo mês de Outubro.

P. - Julgam que vão conseguir aumentar o vosso número de deputados, que é de 70 num total de 220?

R. - Vamos não só aumentar o número de deputados como vamos ganhar as eleições, desde que existam condições de abertura, que se circule livremente em todo o país e que haja livre expressão do pensamento.

P. - Tenciona candidatar-se à Presidência da República?

R. - Sim. Os presidentes dos partidos são os seus candidatos naturais à chefia do Estado, embora isso não seja sagrado. Muita coisa pode ainda acontecer. Na democracia tudo é possível. Podem até surgir outras candidaturas na área do próprio partido.

P. - Se a UNITA ganhar, deverá governar sozinha ou em coligação?

R. - O partido vencedor deve implementar o seu programa, mas temos de ter em consideração as capacidades dos quadros, e não apenas o aspecto político. O país tem muitos quadros. Não defendo uma coligação. O partido vencedor deve implementar o seu programa, mas podemos chamar independentes ou até mesmo militantes de outros partidos, com base na sua competência.

P. - Quais as principais medidas a executar, se chegarem ao Governo?

R. - Há a necessidade de reforma da política e de continuar a trabalhar pela consolidação da paz. Temos como prioridades a recuperação económica do país e o aprofundamento da democracia, a boa governação. Queremos a transparência da coisa pública.

P. - Tem pena de não contar na sua equipa com Lukamba Gato (que exerceu a liderança interina, após a morte de Jonas Savimbi, e que foi inclusive candidato a ficar no cargo)?

R. - Naturalmente; mas ele foi um dos apologistas da não existência de uma segunda vice-presidência. Pensei também nele para secretário dos assuntos parlamentares, mas disse que tinha antes interesse em se envolver em actividades filantrópicas. Achou que seria útil nesse campo. É perfeitamente normal.

P. - Angola tem condições para vir a ser, a médio prazo, um país razoavelmente desenvolvido?

R. - Sim. Um país onde os cidadãos se sintam minimamente prósperos, com uma economia diversificada, que não assente só no petróleo e nos diamantes. A agricultura é a base da economia angolana; tem de merecer toda a nossa atenção. É preciso dar comida ao povo, mas ter também excedentes para exportar. Temos de recuperar as culturas de milho, café, arroz e trigo. Ter uma agricultura mecanizada e que contribua para o desenvolvimento da indústria agro-alimentar. Desenvolver a pecuária. E no sector mineiro também temos ouro, ferro, cobre e fosfatos.

P. - Defende a autodeterminação de Cabinda?

R. - Sempre fomos apologistas de que não se deve continuar a luta, mas antes se devem saborear os frutos da paz. É necessário que haja um diálogo sério. A autonomia seria uma boa proposta. Do tipo dos Açores e da Madeira.

P. - Foi bom o Presidente José Eduardo dos Santos ter recebido há pouco o líder histórico da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Holden Roberto?

R. - Ele é um dos monumentos vivos da história do nosso país. Esperamos que isto signifique uma nova forma de fazer política (a retirada do tapete a uma ala pararela da FNLA que era apoiada pelo Governo).

P- A partir de quarta-feira à tarde vai estar em Portugal, onde quinta dá uma conferência no Instituto Adelino Amaro da Costa...

R. - Vou ficar até domingo, em Lisboa e no Porto. Espero ter encontros com as autoridades e com empresários, para além de assistir como convidado ao congresso do CDS/PP, em Matosinhos. Quero falar da situação da UNITA e da necessidade da participação portuguesa na reconstrução do país. Portugal tem um papel muito importante a jogar em Angola.