Crítica

Mãe, esta é a tua RDA

É Outono do lado de lá da "cortina de ferro", é Outubro em Berlim Leste, 1989, nas vésperas das comemorações dos 40 anos da República Democrática Alemã (RDA). Mikhail Gorbatchov está na cidade para congratular o camarada Erich Honecker.

São dias de rituais de festa para Christiane, que vive com a filha, Ariane, e com o filho, Alex, num apartamento de 80 metros quadrados e papel de parede, próximo de Alexanderplatz. Christiane é uma fiel militante do partido, que assim - ou seja, devota (mas sem abandonar totalmente a crítica construtiva) - se tornou depois do marido ter fugido para o Ocidente capitalista (Christiane entrou em depressão, e a sua possibilidade de salvação foi a militância, a que se agarrou com unhas e dentes).

São dias de oposição para Alex, o filho, que por esses mesmos dias se manifesta contra o regime nas ruas sombrias de Berlim Leste, enfrentando as forças da repressão.

Foi assim que, no Outono de 1989, mãe e filho se encontraram por acaso, indo ela para uma celebração oficial reservada a militantes e mostrando ele nas ruas a sua frustração. E foi assim que, 40 anos depois da formação da RDA, Christiane desfaleceu e mergulhou no coma devido ao choque de ver um Alex anti-governamental.

Mas a história não acaba aqui: foi assim que, oito meses depois, e contra todas as expectativas, Christiane acordou. Tinham passado oito, não nove, meses, mas um outro país nascera.

Ariane deixou os estudos, está empregada num Burger King ("Obrigada por ter escolhido o Burger King") e arranjou namorado que veio do "outro lado". Alex, que entretanto conheceu uma enfermeira russa de nome Lara (como uma personagem em "Doutor Jivago"), vende antenas parabólicas, deslizando como pode pelas ilusões das novas oportunidades (fá-lo com a ajuda de Denis, um fura-vidas que veio de Berlim Ocidental, o que significa que Alex e Denis são o teste e a prova, numa dimensão microscópica, da feliz e ideal união que se quer para as duas Alemanhas).

Mas nada disto, dizem os médicos, a mãe pode saber e ver. Para ela, o mundo não pode ter mudado. Sob pena de o choque, desta vez, ser fatal. E é assim que na Primavera de 1989, Alex suspende quer os seus antigos sentimentos anti-RDA quer os seus novos desejos como cidadão sem ideologia no mundo capitalista e monta um cenário: no pequeno apartamento de 80 metros quadrados, inventa a RDA para Christiane/Katrin Sass, a mãe (que a partir de agora, vamos nomear como a Mãe).

home-movie e história. Por esta altura de "Adeus Lenine!", o filme de Wolfgang Becker que este ano foi um fenómeno na Alemanha (e não só), a música de Yann Tiersen que envolve de forma obsessiva as movimentações e esquemas das personagens já nos terá feito lembrar outra figura da manipulação, outra recente inventora de cenários falsos: a Amélie Poulain do filme de Jean-Pierre Jeunet "O Fabuloso Destino de Amélie" (pode ser uma hipótese: Alex/Daniel Bruhl como uma Amélie Poulain no masculino, não de Paris, Montmartre, mas de Berlim, Alexanderplatz).

A obsessão de Alex torna-o um furioso corredor de obstáculos, um ladrão do tempo, um fabricante de imagens e um coleccionador de "memorabilia" de produtos e marcas que desapareceram, como lixo, nos despojos do Muro. É preciso encontrar rótulos para mascarar os frascos, para simular que eles guadram os pickles ou o café favoritos da Mãe. É preciso encenar uma serenata de "pioneiros", com antigos alunos da Mãe, para manter optimismo e a crença. É preciso explicar o facto de um gigantesco anúncio da Coca-Cola se ter instalado em Alexanderplatz (apesar de confinada ao quarto, a Mãe viu, pela janela) ou ainda o facto de a cidade ter sido invadida por gente de vestes diferentes, os "ocidentais".

E assim, com a ajuda do amigo Denis e do vídeo, noticiários e reportagens televisivas, fabricadas ou repescadas do "lixo" da História, Alex serve à Mãe uma informação "nova" sobre os êxitos económicos e políticos do país: por exemplo, que foi o camarada Honecker que concedeu benevolente asilo aos desiludidos do capitalismo que aos milhares atravessam a fronteira em busca da Utopia; ou então, e quanto à Coca-Cola, que o camarada Honecker acabou de descobrir que a bebida foi invenção da RDA e não da América.

Alex, o ex-rebelde de um sistema opressivo tornado, depois, aventureiro das ofertas do capitalismo (corrida para a qual, ele sente, está em desvantagem; afinal, no jogo que foi aberto, a Alemanha venceu mesmo a RDA), torna-se finalmente um seleccionador da memória, um revisionista. Por amor à Mãe, Alex restitui-lhe não a RDA que ela viveu, mas a RDA ideal que só ela poderia ter sonhado (ou que nem ela já era capaz de sonhar). Por amor à Mãe, aos sonhos da infância (como aquele que Alex sonhou, com a irmã, no distante ano de 1978, frente à TV, vendo Sigmund Jahn, o único astronauta da RDA a ir para o espaço) e ao "home movie" familiar, Alex fabrica a mentira e opta por operar no mundo das sombras e dos fantasmas, tornando-se utente desses simulacros. Para assim a verdade familiar, íntima, se opor à da História, que o rejeitou e enviou para a clandestinidade. Quanto mais as imagens públicas se vão mostrando falsas, manipuláveis (até para o espectador de "Adeus, Lenine!", que assiste à impostura), mais próximas do coração, verdadeiras, ficam as imagens privadas. O "home movie" de Alex, incompleto desde que o pai debandou do Leste, vai ser reconstituído. E nas ruas do Leste de Berlim, onde afinal paira a sombra do Muro, ele vai encontrar o ídolo da sua infância na ex-RDA, Sigmund Jahn, que na nova Alemanha é taxista (ou será que é um sósia? Não interessa, é a mesma coisa para quem constrói um mundo de aparências).

"Adeus Lenine!" movimentou milhões de espectadores alemães este ano. Foi um caso nacional, prolongando e lançando a discussão numa altura em que se assiste na Alemanha a uma vaga (ver texto nestas páginas) de nostalgia do Leste - que tem expressões de inefável "kitsch", quando se fica pela colecção de objectos ou de espaços, e que também tem sido problematizada e tornada mais complexa em termos que interrogam a própria memória dos alemães, de todos, não só dos que viveram de facto a RDA, também daqueles que a viveram, ou vivem, como fantasma.

"Adeus Lenine!", onde o próprio "cast" rentabiliza um curto-circuito de memória - o jovem Daniel Bruhl (Alex) era uma criança a viver na ex-RFA quando o Muro caiu; Katris Sass (a mãe), foi uma das mais conhecidas actrizes da RDA, e a sua carreira, interrompida por motivos pessoais, mas que tiveram a ver com a História do seu país (qual deles? a RDA?), só recentemente foi retomada - é simultaneamente sintoma e questionamento. A sua maior virtude, contudo, é autonomizar-se de um contexto histórico preciso, tornar-nos cúmplices de um marginalizado no seu combate com a História e reféns de uma história de amor por uma mãe pálida.