Dançar até cair... no festival Andanças

O cheiro a incenso, as cores do artesanato e a gastronomia nas tendas montadas junto à igreja servem de convite aos forasteiros que chegam à aldeia de Carvalhais atraídos pelo "prazer de dançar". Durante sete dias, a pequena povoação do concelho de S. Pedro do Sul recebe o Andanças - Festival Internacional de Danças Populares. De todos os lados, chegam milhares de pessoas que têm em comum o gosto pela música e pela dança. As enormes tendas onde se ensinam os ritmos e onde se realizam os bailes nocturnos estão montadas no interior do campo de futebol da aldeia. O desafio é lançado desde há oito anos pelo Pédexumbo, uma associação de Évora que se dedica à divulgação e promoção de danças populares. Num dos oito palcos, centenas de pessoas aprendem a dançar "rock and roll". Uns preferem dançar calçados - com ténis, sandálias, sapatos ou botas -, outros descalços. De cabelo compridos e "rastas", Bruno Caracol, de 22 anos, residente em Sintra, prefere os ténis. Segue atento as instruções da monitora para entrar no ritmo. "Este é o terceiro ano que venho. Atrai-me o ambiente e também a diversidade de danças e músicas", explica, com um sorriso. Ana Marcão e Laurinda Santos, habitantes em Alverca, olham com interesse para a oficina de danças ciganas, mas preferem não entrar logo. "Já participámos em quase todas as danças. Estamos muito cansadas", desabafa Laurinda. A amiga realça que participam no festival pela segunda vez "pelo prazer de dançar". A opções são diversificadas: "bourrée", capoeira, "country fun", danças tradicionais portuguesas, africanas, tribais, danças alpinas, ciganas, russas, europeias, salsa, sapateado, valsa, "street dance", "hip-hop", do ventre, entre outras. Ambas preferem "as danças de roda" feitas à noite.O Andanças chama pessoas de todas as idades. Michael Kerr, um inglês de 71 anos, participa pela terceira vez. Veste camisa florida e calções estampados, ambos em tons avermelhados. Ao pescoço usa um fio de corda, com uma pedra colorida. Nos pés, uma sandálias "confortáveis". Apesar dos cabelo brancos, a vitalidade recusa a idade no BI. "Venho cá porque gosto muito de dançar e tenho poucas oportunidades para o fazer. E gosto do espírito português, que tem muita vida e vitalidade", explica. Kerr prefere as danças francesas: "No coração da Europa, conseguiram manter uma dança tradicional com elementos que são comuns a todos".Gabriel Resende, de 21 anos, vive em Paris. Este ano adaptou as férias ao Andanças. "Já tinha ouvido falar do festival. Por isso, eu e um amigo parisiense decidimos vir cá. E é mesmo bestial. Deve ser o melhor festival de Portugal ou mesmo da Europa", afirma, enquanto alisa a barbicha no queixo.Longe das danças, Nuno Patrício, está sentado a afinar o "sabar" - um instrumento de percussão. Participa no festival pelo amor à música. "Aqui encontro músicos de vários países! O Andança ganhou uma fama no estrangeiro completamente fora do normal! É importante um festival como este em que as pessoas, com ondas muito diferentes, se encontram e misturam".Aldeões gostam do "ambiente de festa"Os forasteiros são bem acolhidos pelos habitantes de Carvalhais. Glória Gomes, de 55 anos, assiste entusiasmada à oficina onde meia centena de pessoas aprende a dançar com o rancho de S. João da Serra. Os olhos da idosa brilham ao afirmar: "Dançam muito bem! Estou muito contente com o que tenho visto. Venho cá espreitar, todos os anos". A seu lado, Dores Moreira, de 73 anos, concorda: "Já cá venho há cinco anos, para mostrar o ciclo do linho. Muitos vêm perguntar-me as voltas que dá até chegar aqui", explica, enquanto aponta uma toalha incluída na mostra de artesanato montada junto à entrada do recinto. E já não estranha as "rastas" nos cabelos e as vestes descontraídas dos que vão ao festival. Mais importante do que isso é o "convívio, alegria e fama" que o certame traz à aldeia.