Os argumentos dos terroristas

Sérgio Vieira de Mello e dezenas de funcionários da ONU foram assassinados num ataque terrorista. Quando o camião-bomba explodiu, estava a decorrer nesse edifício uma conferência que visava divulgar medidas de apoio alimentar ao povo do Iraque. Em Israel, um assassino explodiu-se dentro dum autocarro, matou dezenas de pessoas e feriu muitas mais. Como aconteceu há dois anos, no 11 de Setembro, imediatamente há quem se apresse a lamentar as vítimas para em seguida, tal como fizeram há dois anos, subestimarem a questão da autoria dos atentados e passarem ao ataque. Contra os terroristas? De modo algum. Contra os EUA, Israel e toda e qualquer medida que se tome em qualquer latitude contra o terrorismo. Para este grupo, todas as medidas, mas todas mesmo, são sempre consideradas um atentado aos direitos dos cidadãos - infelizmente este grupo nunca se interessou pelos direitos das vítimas - e, para este mesmo grupo, todas as medidas são ineficazes. Dentro desta inquestionada ineficácia das medidas antiterrorismo, algumas medidas têm ainda, segundo estes analistas, o efeito perverso de "darem argumentos aos terroristas".Quantas vezes, nos últimos tempos, temos ouvido esta expressão: "Isso é dar argumentos ao terrorismo"? Mas, afinal, o que é "isso"? "Isso" pode ser investigar os contactos e influências dos grupos fundamentalistas na Europa ou no continente americano. "Isso" pode ser afastar os taliban do poder no Afeganistão. "Isso" pode ser intervir militarmente no Iraque. "Isso" pode ser Israel manter postos de controlo nas estradas por onde entram palestinianos em territórios israelita. "Isso" pode ser não ceder à chantagem das FARC na Colômbia. "Isso" pode ser ilegalizar os partidos que funcionam como cobertura legal da ETA em Espanha. "Isso" pode ser tudo o que signifique expressar aos grupos terroristas que há quem não esteja disposto a viver sob a sua tutela de terror.É certamente lógico e necessário que se questione a eficácia e as implicações das medidas policiais e militares que se tomam contra o terrorismo. Mas outra coisa bem diferente é a convicção expressa por certos arautos de que certas medidas, ou todas em geral para muitos dos autodenominados pacifistas, podem dar argumentos aos terroristas. Esta expressão - "dar argumentos aos terroristas" - não só é um profundo embuste, como não faz qualquer sentido. As ideologias ou as religiões que sustentam espiritualmente os grupos terroristas dão-lhes inúmeros argumentos para actuar. Se alguma coisa não falta aos grupos terroristas, são argumentos. Os terroristas não são criminosos de delito comum. Não precisam dum móbil para o crime. Já o têm. Ele está nesta sociedade em que podemos circular à vontade, comprar e vender, estudar o que quisermos, lermos o que quisermos, rezar ou não rezar, amar ou não amar pessoas doutro ou do mesmo sexo, discutirmos, votarmos... O móbil está nesta sociedade para cujo bem-estar contribuíram mais homens como Henry Ford do que Karl Marx. E para cuja liberdade é mais importante a palavra dos homens do que a palavra que alguns homens dizem ser de Deus, tenha esse Deus o nome que tiver.Recordem-se a este título as atitudes em tribunal dos líderes do Sendero Luminoso, do "terrorista sorridente" responsável pelo atentado de Bali ou as imagens da morte do jornalista Daniel Pearl ou dos vídeos dos suicidas palestinianos. Eles riem diante das famílias das vítimas. Eles gritam que vão matar. Eles matam. Serão eles uns monstros? Serão eles pessoas cruéis? Não creio. São seres humanos que estão absolutamente convictos da superioridade moral das suas causas e dos seus argumentos. Mas o fenómeno que leva a dizer-se, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, "isso só vai dar argumentos aos terroristas" tem ainda outros aspectos mais profundos e preocupantes: ao aceitarmos entrar num universo em que os argumentos são escolhidos pelos terroristas e em que, mau grado, há quem lhe dê esses pretextos, aceitamos implicitamente que os terroristas são o sujeito, praticam a acção e que todos os outros não passam de simples complementos directos dessa acção. À luz desta lógica institui-se o pressuposto que não há que combater os terroristas, mas sim evitar ofendê-los. Porque, caso não os ofendamos, eles não nos fazem mal. Aos escolhidos, claro. Porque igualmente à luz desta teoria há grupos ou povos que só por existirem irritam os grupos terroristas. É este o caso dos israelitas e dos norte-americanos para os fundamentalistas islâmicos. Sendo que nessa sua convicção acerca de Israel e dos EUA são os terroristas claramente corroborados por certos sectores da esquerda e da extrema-direita europeias. "Os americanos estavam a pedi-las!" - diziam a seguir ao 11 de Setembro. Dizem-no agora de novo, quando ouvem que mais um soldado norte-americano morreu no Iraque. Dizem-se solidários com índios, berberes, aborígenes. Flores e baleias em vias de extinção. Sofrem com os cães abandonados e as batatas trangénicas... mas, quando um autocarro cheio de israelitas explode, não se impressionam com o sangue - antes lhes parece que o suicida agiu daquela forma para protestar contra a existência de postos de controlo nas estradas.Para não ofender os terroristas, para não lhes dar argumentos, o ideal seria que não existissem americanos nem israelitas. Mas, como tal é impossível, esses povos deviam adoptar face ao terrorismo uma atitude expiatória do seu pecado original de existir. Um pouco como fazem as antigas potências coloniais europeias em relação a África: enviam-lhes alimentos e equipas médicas de vez em quando. Quando chegam notícias de catástrofes um pouco maiores que aquelas que se tornaram rotina, fazem-se muitas campanhas com artistas. As audiências televisivas sobem e a auto-estima também. Faz-se o bem e não se passa por imperialista. E se, mesmo assim, dessas profundezas onde ninguém os incomoda, e onde governam a seu bel-prazer, alguns desses líderes terroristas convertidos em carismáticos caudilhos, se lembrarem de desviar aviões e atirá-los cheios de gente contra edifícios? Ou se os fizerem despenhar num qualquer local? Ou se tentarem envenenar as redes de água potável? Ou se sequestrarem pessoas? Se entrarem nas casas e as degolarem como fazem na Argélia? Ou se explodirem camiões carregados de explosivos em Beirute ou Bagdad?... Mais uma vez vai haver quem conclua que foi porque demos argumentos aos terroristas. Mais uma vez vai haver quem defenda que se combate ou convive com o terrorismo sobrevivendo de cócoras e calçando sapatinhos de lã no terror de ser apanhado pelo argumento dos terroristas. Mais uma vez também haverá quem ache que os terroristas não podem escrever esse argumento que se chama História.