Opinião

Eduardo Prado Coelho sobre Vai e Vem: Morrer em cinema

Um filme como Vai e Vem tem uma gravidade absoluta, um toque de serenidade e reconciliação, uma intenção de inventário e súmula, uma concisão por vezes exemplar.

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Esta crónica foi publicada no dia 4 de Agosto de 2003. 

O último filme de João César Monteiro é algo que não podemos ver sem a ideia de que é mesmo o último: o último filme, a última sequência, o último gesto, o último olhar, o último plano. Há algo de terrível nesta sequência de últimas coisas. E isso não pode ser posto de lado na nossa visão da obra. A morte ganha uma dimensão estética, é um elemento na composição do sentido, não para o esclarecer, mas para o tornar ainda mais denso e incompreensível. Um filme como Vai e Vem tem uma gravidade absoluta, um toque de serenidade e reconciliação, uma intenção de inventário e súmula, uma concisão por vezes exemplar.

Recordo-me ainda da primeira vez que vi um trabalho de João César Monteiro, era um documentário sobre Sophia de Mello Breyner, feito no âmbito de um conjunto de documentários sobre escritores e artistas portugueses. Já nessa altura corria a lenda do César, e as pessoas gostavam de evocar as grandes piadas que ele gostava de repetir. Foi nessa época que ouvi pela primeira vez o trocadilho sobre "o garbo da Greta e a greta da Garbo" — que volto a encontrar, tantos anos depois, neste filme derradeiro de João César Monteiro.

É assim que podemos ver a coerência de uma obra, a radicalidade das suas opções, o perfeccionismo estético, a originalidade imensa do trabalho deste indiscutivelmente grande cineasta português. César Monteiro tem os seus espectadores fanáticos, e o círculo daqueles que o consagraram na genialidade incontroversa. De tal modo isto foi assim que o aparecimento deste filme "póstumo" acabou por suscitar uma espécie de consenso tão generalizado que gerou um academismo às avessas.

Vergílio Ferreira distinguia entre os autores que amamos e os que estimamos. Pode-se estimar em mais alto grau João César Monteiro sem o amarmos em todos os aspectos. Pela minha parte, devo confessar que os maneirismos de uma linguagem petulante articulada em jeito dengoso me são particularmente insuportáveis. João César Monteiro mobiliza todo o conjunto de expressões feitas da língua portuguesa quer para as incorporar, quer para as desfigurar. O que poderia ser um enriquecimento converte-se em tique de efeitos incertos. Como a desfiguração vai sempre no sentido sexual, é toda uma concepção erótica que está em jogo. Se o espectador — o que é o meu caso — considera que o discurso de João César Monteiro é o menos erótico que alguma vez se possa imaginar, alguma coisa emperra no funcionamento da máquina. Se o espectador se sente incomodado com estas corridas aos pulinhos e estes diálogos intermináveis em que a banalidade se cruza por vezes com a demagogia, não deixará certamente de reconhecer que existem algumas sequências absolutamente geniais neste filme, mas também que o conjunto desta obra, tal como o conjunto de toda a obra de João César Monteiro, merece um olhar crítico e generoso, e não uma rendição acéfala e submissa.