Nacionalismo basco: o medo aqui tão perto (I)

Os recentes atentados da ETA em Alicante, Benidorm e Navarra trouxeram a questão basca, de novo, para as primeiras páginas dos jornais. Simultaneamente pouca ou nenhuma atenção temos dado à actuação do governo nacionalista basco, nomeadamente à recente apresentação dum documento designado "Estatuto político da comunidade livre associada de Euskadi", que, na verdade, se trata dum projecto de Constituição para um futuro país basco independente.Com a proverbial desatenção que os portugueses dedicam às questões internacionais, habituámo-nos a olhar a vida política do país vizinho com a mesma placitude com que contemplamos o nosso outro vizinho, o Atlântico. Contudo, é urgente que dediquemos mais alguma atenção ao que sucede em Espanha, não só porque partilhamos a Península Ibérica - e uma coisa é partilhá-la a dois, outra a três ou a quatro, caso a Catalunha ou a Galiza resolvam encetar um processo secessionista idêntico ao do governo basco -, mas também porque toca as raias do criminoso o fatalismo com que, há anos, os europeus em geral e os portugueses em particular aceitam o clima de terror e discriminação que se abateu sobre os não nacionalistas no País Basco.É certo que nos chocamos com as bombas, sobretudo quando matam crianças, como aconteceu no ano passado nos atentados de Santa Pola. Ou quando assassinam homens como o militante socialista Ernest Lluch ou mandam bombas disfarçadas de correspondência para casa de jornalistas, como aconteceu com Gorka Landuburu, mutilado para sempre. Igualmente horrorizou-nos conhecer o calvário vivido durante centenas e centenas de dias pelos sequestrados pela ETA, como o industrial José Maria Aldaya, o advogado Cosme Delclaux, o empresário Júlio Iglesias Zamora e sobretudo pelo guarda prisional José António Ortega Lara. Talvez alguém ainda o recorde esquelético - perdeu 23 quilos durante o cativeiro - desorientado como só pode estar quem foi enterrado vivo durante mais de ano e meio. E certamente que há quem ainda não tenha esquecido o rapto e fuzilamento de Miguel Angel Blanco. Será que ao chegar a hora marcada para a sua execução gritou aos seus sequestradores "Matem-me duma vez!", como fez Ortega Lara, que ao fim de 532 dias de cativeiro já não acreditava que viesse a ser libertado e, confundindo os polícias com os membros da ETA, pediu que o matassem?Mas uma vez desaparecido o rasto do sangue, limpos os estilhaços das bombas e esquecido o tormento dos sequestrados, olhamos de novo os nacionalismos com uma bonomia em que se mistura uma espécie de sentimento de culpa - se nós somos independentes, porque não hão-de eles (entendendo-se por este "eles" os bascos, os catalães, os galegos, os corsos, os irlandeses...) sê-lo também?! - com a admiração adolescente pelas últimas aldeias que "resistem ao invasor" e a comiseração pela tragédia dos povos oprimidos. Contudo, a cartada do nacionalismo, sobretudo quando reforçada com o perigoso trunfo do terrorismo, não tem nada a ver com este quadro em que os independentistas ora surgem sob os traços cúmplices do sagaz Astérix, ora sob o manto trágico dos gregos assassinados pelos turcos, no "Massacre de Quios" de Delacroix.Em primeiro lugar o nacionalismo basco não combate qualquer ditadura. Pese usar a repressão franquista para granjear simpatias, a causa basca tornou-se muito mais violenta na democracia e note-se que, quando escrevo "violenta", não me estou a referir apenas ao fenómeno da ETA, mas também e sobretudo ao clima de intimação que, com a conivência do governo nacionalista basco, se tem criado em torno dos não nacionalistas. E este é um aspecto a que deveríamos dar muito mais atenção: como é que os nacionalismos se afirmam nas democracias? No caso basco, às habituais marcas fundadoras dos nacionalismos, como as teses não raramente fantasistas acerca das origens dos povos ou da especificidade das suas línguas (veja-se, no caso, a sobrevalorização da origem linguística do basco ou a relevância xenófoba dada ao predomínio, entre os bascos, dum tipo de sangue raro), junta-se uma forte componente religiosa. O factor fé não é de modo algum exclusivo da causa basca. A partilha duma fé é tão mais necessária aos movimentos nacionalistas quanto, sendo estes transversais à sociedade, dificilmente podem centrar o seu discurso em questões de natureza social - o que no caso basco, com um dos rendimentos mais altos de Espanha, seria no mínimo caricato. Ao contrário até do que acontece na Irlanda, não estamos perante divisões religiosas: os bascos são católicos, tal como a maioria dos espanhóis. Estamos sim perante uma divisão dentro da própria Igreja católica espanhola e perante um conjunto de dioceses, as bascas e as catalãs, que assumem como seu o discurso nacionalista.Não é, por exemplo, de modo algum neutro o papel desempenhado pelos bispos bascos, nomeadamente pelo bispo emérito de San Sebastián, José María Setién, no processo que levou à apresentação do "Estatuto político da comunidade livre associada de Euskadi" pelo chefe governo basco, Juan José Ibarretxe. Não só José Maria Setién desempenhou o papel de assessor político de Ibarretxe, como pugnou pela tese de que, mesmo que se consiga erradicar a ETA, tal não quer dizer que fique resolvido o problema político basco, porque há que "normalizar" a situação basca, ou seja, reconhecer a independência do país basco. Igualmente não é de modo algum neutro o papel desempenhado pelas dioceses bascas na questão da ETA: neste caso, às habitualmente ambíguas declarações dos bispos bascos de que é difícil que com a repressão se consiga a eliminação da violência junta-se a inequívoca decisão de treze bispos espanhóis, todos eles de dioceses bascas e catalãs, de se absterem ou votarem contra uma instrução pastoral que condenava a ETA e definia a Constituição espanhola como um "marco iniludível de convivência".Habituados como fomos a associar a luta pelas independências à luta pela liberdade, esquecemos que à visão romântica dos nacionalismos do século XIX há que juntar a experiência dos totalitarismos do século XX: estes usaram o nacionalismo e não raramente a Igreja para reforçarem o ódio ao estrangeiro e o desprezo pelas instituições democráticas. É esta última face do nacionalismo que, dia a dia, se impõe no País Basco. É essa face que viram Savater, Gotzone Mora e López de Lacalle. É essa face que às vezes, em Portugal, fazemos de conta que não existe. Talvez porque seja demasiado perto.