Presidente da Associação da Europa Ocidental garante

Construção naval: Parceria europeia é insuficiente para concorrer com Coreia

A Lisnave mantém uma forte presença nos mercados de reparação naval do Atlântico e Mediterrâneo
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A Lisnave mantém uma forte presença nos mercados de reparação naval do Atlântico e Mediterrâneo Manuel Moura/Lusa

A formação de uma parceria entre empresas europeias de estaleiros navais é "insuficiente" para enfrentar a concorrência sul-coreana, garantiu à Lusa o presidente da Associação da Europa Ocidental de Construtores e Reparadores Navais.

Frederico Spranger diz que, por isso, é necessário um acordo através das negociações que decorrem na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e na Organização Mundial de Comércio (OMC) para que as condições de concorrência sejam as mais disciplinadas.

As condições de concorrência com as empresas sul-coreanas já motivaram uma queixa da União Europeia (UE) à OMC.

"Afinal o que acontece na construção naval não é diferente do que sucede nos têxteis e noutros produtos como a electrónica", comenta o presidente da Associação da Europa Ocidental de Construtores e Reparadores Navais (AWES é sigla inglesa).

A Coreia do Sul é acusada pela UE de praticar preços abaixo do custo (dumping), mas Spranger lembra que ainda não foi possível provar junto da OMC os apoios do governo de Seul à construção naval.

O próprio embaixador sul-coreano junto da organização desmentiu a situação e considerou não haver, de momento, justificação para criação do painel que iria tratar deste assunto, segundo noticia o norte-americano The Bureau of National Affairs.

Frederico Spranger alerta, também, que a concorrência desleal não é a única preocupação do sector.

"A indústria naval obriga à definição duma estratégia Europeia para o transporte marítimo e, enquanto esse objectivo não ficar claro teremos apenas estratégias nacionais, tornando difícil senão impossível acordos globais", adianta.

Um contributo importante para a posição europeia é o diálogo existente entre a Comissão Europeia, a Associação dos Estaleiros Europeus e a Associação de Armadores Europeus, que "irá permitir, desde que haja vontade política, definir essa estratégia que permita uma posição mais forte da União Europeia nas negociações globais no seio da OCDE e OCM", acrescenta.

Perante uma análise do mercado global na generalidade dos produtos, os EUA, Coreia do Sul, Japão e a União Europeia ou a China são os concorrentes, "logo será necessário que a UE se consiga unir para ter capacidade de negociar com aqueles parceiros na OCDE e OCM".

Também a China, que desde a construção dos grandes estaleiros nos últimos 15 anos, passou a deter 13 por cento da quota no mercado da construção civil naval, "nunca poderá ser esquecida, uma vez que representa muitas Coreias do Sul".

"Em alguns produtos industriais, por enquanto menos tecnológicos, a China é já competitiva", avisa Spranger.

A China, explica, "sempre teve estaleiros navais, só que os números não entravam nas estatísticas por se tratar de uma economia fechada e, desde abertura ao Ocidente, os ocidentais procurando preços mais baixos, iniciaram a colocação de encomendas para construção de navios na China".

"Com uma mão-de-obra a custo muito baixo e a necessidade de comercializar, a China ampliou os seus estaleiros e prepara-se para construir novos, dotados de equipamento mais moderno que possa satisfazer a qualidade exigida pelo armamento ocidental", adianta.

Perante este quadro, o presidente da AWES sustenta que "a globalização não pode ser apenas do lado do mercado, mas tem de ser global, cabendo aos economias definir as regras de concorrência justa. Não é possível um país com normas sociais estabelecidas na saúde, educação e qualidade de vida competir com outro onde não existem quaisquer regras básicas de cidadania".

O Japão lidera o mercado da construção naval com uma quota de 37 por cento, seguido pela Coreia do Sul, com 28 por cento, enquanto a UE tem sete, segundo indicadores referentes a 2002.

Em Portugal, a situação do sector é "muito difícil para aqueles que se dedicam à construção de pequenos navios de pesca dada a quebra da actividade pesqueira".

Em contrapartida, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo tóm um mercado de cariz internacional, mas "requerem uma estratégia nacional de clarificação", porque "vivem num mercado extremamente competitivo e a indústria portuguesa montante é inexistente, acrescido do facto de praticamente não existir Marinha Mercante Portuguesa".

Em relação à Lisnave, que é um estaleiro de reparação naval, Spranger (quadro da empresa) diz que mantém um lugar de relevo mundial que conquistou, devido às características do estaleiro.

"Os navios reparam onde trabalham e, por conseguinte, a Lisnave mantém uma forte presença nos mercados de reparação naval do Atlântico e Mediterrâneo".

No entanto, avisa para a chegada de maior concorrência, vinda dos países do Leste europeu, com mão-de-obra mais barata.

O grande concorrente da Lisnave são, porém, os estaleiros espanhóis que, curiosamente, "conseguem ocasionalmente fazer preços muito baixos", conclui o gestor.