Crítica

Apenas um adereço

Haverá sempre aquele momento, na carreira de um cineasta de culto, em que, tendo razões para acreditar em tudo aquilo que o culto diz da sua obra, se deixa levar pelos caminhos do "objecto artístico"?

Do estilo: se dizem que faço arte, porque não fazer arte? Será esse o caso de Takeshi Kitano, em "Dolls". Kitano é um cineasta "naif", e é aí que reside a violência do seu universo, esquálido, atraído pelo perfume da morte e pela desfiguração. Tudo isso está em "Dolls"? Sim, mas vestido com guarda-roupa de prestígio. Marionetas? Teatro tradicional japonês? Isso já era intrínseco ao cinema de Kitano e não se vê o que ganhou em explicitar o dispositivo (entre o académico e o pretensioso), começando o filme com um espectáculo de marionetas e organizando de seguida a visualização de segmentos sobre a vida das ditas. Perdeu-se a violência e o perfume letal. "Dolls" é apenas um adereço na obra de um magnífico cineasta.

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