Crítica

Flme implacável

Não o último suspiro, mas todo o fôlego: é um "vai e vem" por Lisboa, a bordo do autocarro 100, mas é também um vai e vem entre César Monteiro e a sua obra, entre JCM e JCM - como se estivesse por detrás do espelho (como Rilke sugeria).

Obra de vibrante lucidez, nela César Monteiro expõe-se, autocritica-se, desmonta o teatro do seu cinema (para recompô-lo e voltar a baralhar tudo). É um filme implacável - o cineasta reinventa-se como novo predador, cruzamento de Nosferatu e Monsieur Verdoux - e é um filme triste, muito triste (também por isso, talvez o mais chaplinesco dos seus filmes). César Monteiro confronta-se com a morte e, no fim, há um olho azul, terrível e comovente, a fixar-nos longamente (saberemos devolver-lhe o olhar?) - afinal, uma exaltação da vida.