Fábrica do Rato em exposição no Museu do Azulejo

Muitos dos exemplares de faiança portuguesa mais singulares que hoje se encontram nos antiquários saíram da Real Fábrica do Rato. Bustos de imperadores, deusas transformadas em fontes e magníficos painéis de azulejos representado figuras bíblicas ou episódios bucólicos fazem parte de um vasto conjunto de peças produzido por esta fábrica fundada pelo Marquês de Pombal, em 1767. Mas a louça do Rato não foi simplesmente um dos marcos da política industrial do polémico ministro de D. José I. A exposição "Real Fábrica de Louça do Rato", patente no Museu Nacional do Azulejo (MNA) até Setembro, conta ao público a história conturbada de uma fábrica responsável pela formação de gerações de mestres pintores e pela alteração de alguns dos hábitos alimentares da burguesia e aristocracia portuguesas do século XVIII. Com a generalização dos seus cobiçados serviços de mesa, muita coisa mudou nos salões da nobreza."Os nobres, que estavam mais habituados a serviços de prata ou porcelana, passam a ter a mesa posta com magníficos conjuntos de faiança, muitas vezes brazonados, com uma grande uniformidade decorativa", explica o director do MNA, Paulo Henriques. "A própria refeição altera-se, já que os modelos de serviços importados impunham uma determinada sucessão de pratos, uma apresentação diferente."Mais do que apresentar um núcleo exaustivo de peças, a exposição procura "definir os ciclos de produção do Rato", demonstrando em que medida a Real Fábrica é responsável pela criação de hábitos de consumo de faiança que, de alguma forma, se mantêm. "Os portugueses ainda hoje têm uma relação privilegiada com a faiança. Ela está muito inscrita no nosso imaginário", acrescenta Paulo Henriques.Uma produção míticaUma das principais preocupações dos comissários científicos da exposição - Alexandre Nobre Pais e João Pedro Monteiro - foi clarificar "o catálogo desta Fábrica Real", nascida três anos depois da de Massarelos, manufactura do norte do país a que os reis nunca deram muita atenção. "Há períodos de trabalho da fábrica que estão ainda muito mal estudados", diz Nobre Pais, o que contribui "para a criação de uma série de equívocos. Há peças que até aqui se julgava pertencerem a outras manufacturas e que nós reatribuímos ao Rato nesta exposição [as chamadas cabeças de preta]."Através de um complexo processo de pesquisa que implicou a consulta de inúmeros documentos da época, resultados de leilões, guias de exposições e uma "perseguição quase detectivesca" às peças existentes em colecções particulares foi possível elaborar um extenso catálogo em que chegam a reproduzir-se gráficos de produção dos diversos períodos de actividade. "Nem sempre foi fácil mas, com a ajuda de alguns coleccionadores e antiquários, conseguimos seguir o rasto a grande parte das peças que nos interessavam. Chegámos a encontrar uma escultura na embaixada de Madrid", recorda Nobre Pais, salientando que, por vezes, os coleccionadores olham com desconfiança o trabalho de investigação. "O que nós pretendemos é fazer um retrato das peças e inscrevê-las numa base de dados que possa vir a ser utilizada em estudos posteriores. Mas há quem pense que o fazemos para, mais tarde, as confiscarmos. É complicado porque, na maioria das vezes, os coleccionadores têm uma ligação afectiva às peças do Rato."Talvez por isso, garante Paulo Henriques, a cerâmica atinja em Portugal "valores exorbitantes". "A cerâmica nacional, à semelhança da pintura, quando aparece nos mercados internacionais vê os seus valores descerem drasticamente. A do Rato é uma das mais caras porque a sua produção é muito considerada, um pouco mítica."Seis ciclos para muitos mestresA exposição do MNA reúne 250 peças e 40 painéis de azulejos, divididos por seis módulos, cada um dos quais correspondente a uma fase de produção. "Tentámos mostrar que a fábrica vai além dos dois primeiros administradores", diz Nobre Pais. "O percurso vai fazer com que salte à vista a personalidade dos próprios mestres, o momento político que se vivia." O núcleo de entrada, onde se procura recriar a loja que a Real Fábrica tinha na Baixa, diz respeito a um dos períodos mais ricos artisticamente e corresponde aos primeiros anos de laboração (1767-1771), sob a direcção do mestre italiano Tomás Brunetto. "Brunetto é como um director artístico, sempre preocupado com a qualidade dos modelos e com a experimentação de materiais. Durante os dois primeiros anos não se produz qualquer peça. A fábrica trabalha para experimentar moldes e tintas, testando alguns dos mais modernos modelos europeus."À quantidade de formas e decorações fabricadas com Brunetto segue-se uma produção, provavelmente ligada ao modelador Severino José da Silva, caracterizada por uma série de peças brancas vidradas, que constitui um "dos pontos altos da produção cerâmica nacional".Dirigida por Sebastião de Almeida entre 1772 e 1780 , a manufactura, que se encontrava inserida no complexo industrial de Pombal - a Fábrica da Seda - conhece um dos períodos mais estáveis, com um grande desenvolvimento técnico. "Menos diversidade decorativa com maior qualidade técnica. Sebastião de Almeida dedica-se aos serviços de mesa com cromatismos azuis e introduz na fábrica a produção de azulejo", pela qual seria conhecida, sobretudo no Brasil (graças às encomendas dos seus principais mecenas - os reis e a sua corte).O ciclo mais longo da fábrica vai de 1780 a 1816. Botelho de Almeida conduz o Rato a uma situação estável e de grande sucesso comercial, divulgando, através das faianças e azulejos, "um gosto característico da fábrica, as decorações Pelliment". Estufas e decorações para jardins eram produzidas nesta época, por encomenda.Os últimos anos de Botelho de Almeida foram conturbados, com Joaquim Rodrigues Milagres a provocar uma cisão interna, ao executar uma linha de produção paralela. Na fase final (1816-1835), passaram vários mestres pela Real Fábrica. A produção de peças em "pó-de-pedra", um material que permitia sofisticadas modelações e criava uma louça mais leve e resistente, procurou ainda relançá-la, mas sem grandes resultados."Estamos a fazer história da cerâmica", diz Paulo Henriques ao referir o complexo trabalho de pesquisa que tornou possível a montagem da exposição.Mas, afinal, o que faz as louças da Real Fábrica do Rato serem tão especiais? "A sua matriz é essencialmente portuguesa, mesmo quando adopta modelos estrangeiros", explica Paulo Henriques. Além de ter peças de "grande virtuosidade", produziu faiança com "uma força emotiva extraordinária e grande liberdade interpretativa. Poderia ter sido um interessante elemento cultural de exportação se o marquês tivesse decidido comercializá-lo internacionalmente. No norte da Europa faziam-se peças mais perfeitas, mas frias, sem emoção." O facto da porcelana ter chegado a Portugal tardiamente (início do século XIX) pode dever-se, segundo Paulo Henriques, "à grande qualidade da cerâmica nacional".REAL FÁBRICA DE LOUÇA DO RATOLISBOA Museu Nacional do Azulejo. R. Madre Deus, 4. De 3ª a dom., das 10 às 18h. Até Setembro. Tel.: 218163430. Bilhetes a 2.25 euros.