Polémica sobre os "Painéis de São Vicente"

O panorama cultural português tem sido agitado nas últimas semanas com mais uma página da saga dos Painéis de Nuno Gonçalves, uma nova tese que se apresenta como solução definitiva na interpretação das célebres tábuas. Defendida em livro por Jorge Filipe de Almeida e Manuela Barroso de Albuquerque (ed. Verbo), pretende-se aí retomar a velha tese de José Saraiva (1925) identificando o santo venerado nos Painéis como o Infante D. Fernando e recuando a data de factura para 1445.Esta tese não tem fundamento. Como tantas outras que vieram a debate em moldes tão sensacionalistas como inconsequentes, creio que também esta estará votada a ser (assim esmoreçam as paixões) apenas mais uma tese falhada como as de Alfredo Leal, José Saraiva, Henrique Loureiro, Pita Morgado, Rafael Monteiro, Bélard da Fonseca, Teresa Schedel e outros cujo interesse se restringe a ilustrar o escol da "painelografia" e, nalguns casos, a mostrar em termos pedagógicos o que não é fazer história da arte, disciplina com metodologias próprias e que impõe o esteio de análises globalizantes. De facto, esta tese não tem base científica. Assente na leitura de uma pretensa inscrição no Painel do Infante com sigla do pintor (NGs) e data de factura (1445), os autores constróem uma teoria de identidades, laços familiares e razões políticas que permitiriam ver na obra uma espécie de funerais nacionais do Infante Santo.Passemos a factos seguros. Sendo muitos os enigmas dos Painéis ainda insolúveis (a identidade dos retratados, o tema preciso da 'veneração'), certo é que desde 1910 (livro de José de Figueiredo) as pesquisas estabeleceram alguns dados só muito dificilmente contestáveis:a) a autoria de Nuno Gonçalves, comprovada por Adriano de Gusmão (1955) com a identificação de duas tábuas do altar da Sé com "Martírios de São Vicente" (c. 1469-70);b) o lugar de destino - capela de São Vicente da Sé de Lisboa - conforme à credibilidade de 28 referências que, como provou Dagoberto Markl em incontornável livro de 1987 (ed. Caminho), referenciam os Painéis nessa capela;c) e a data provável de factura (anos 60 do século XV), atestada após estudos integrais que o Instituto Português de Museus (IPM) cumpriu em 1994 no estilo, traje, adereços, tratamento de espaço, vínculo ao "proto-renascimento mediterrânico", suportes, desenho subjacente, etc. A nova tese faz tábua-rasa sobre estas poucas mas sólidas bases de conhecimento e assenta apenas na presunção de leitura do "texto" do botim do Painel do Infante, embora o parecer paleográfico aí veja tão-só simples ornatos mais ou menos alfabetiformes; aliás, o dito botim já deu leituras tão diversas como o nome de João Eanes (Bélard da Fonseca, Abreu Lima), as iniciais dos santos Crispim e Crispiniano (Sebastião de Carvalho) e até o mesmo texto agora "lido", mas em sentido oposto (Rosa Marreiros). Tal enfraquece como é óbvio a legitimidade de qualquer leitura coerente - a tratar-se de um texto... Mesmo que se aceite estarmos perante algo pintado com objectivo de leitura, a mera dificuldade de se interpretar a presumida data inviabilizaria qualquer séria extrapolação a ponto de se recuar em mais de vinte anos (!) a data consensualmente aceite. Qualquer tese que surja após o estudo de 1994, que forneceu dados consistentes, terá sempre de rebater com probidade científica os três referidos "pilares de consenso" - coisa que não fizeram os autores deste livro, que passam à margem dos dados históricos (e são muitos são) que infirmam a tese de José Saraiva a 80 anos de distância. Os argumentos utilizados omitem ostensivamente as provas que não favorecem essa tese, tomando outras fora de contexto a fim de extrapolar lições abusivas (caso da corda e do caixão).Defensor da tese vicentista-gonçalvista, que oferece credibilidade para a explicação dos Painéis, penso que o Santo representado não pode em nenhuma circunstância ser o Infante D. Fernando. A iconografia deste conhece-se bem, pois subsistiu o chamado Tríptico do Infante Santo, da Capela do Fundador do Mosteiro da Batalha, obra de meados do século XV onde o mártir de Fez aparece de barba longa, roupa de cativo e correntes nas mãos - iconografia retomada noutras imagens fernandinas do século XVI. Também a cronologia proposta no livro da Verbo não se adequa, por temporã, com os referenciais proto-renascentistas mediterrânicos em que é lícito situar o mestre dos Painéis - de quem conhecemos obras de identidade segura de há muito identificadas por Adriano de Gusmão e que representam (nua) a mesma figura que (vestida de diácono) centra os Painéis. Os mistérios que a obra oferece, sendo numerosos, são sobretudo estes: qual a formação do pintor? Que relações teve com o foco catalão, valenciano e norte-italiano? Que razões explicam esta absoluta modernidade, c.1460-70? Tudo o resto (identidades, programa de encomenda, etc.) terá de aguardar novos documentos credíveis.Quer isto dizer que não há méritos na nova "tese"? Sou dos que reconhece que, mesmo em proposições erróneas, subsiste sempre algo de positivo. Desde 1910 que o reforço da tese vicentina cresceu na contradita de dezenas de teses contrárias, abrindo caminho a novas reflexões (algumas positivas para esclarecer aspectos da obra, como o estudo de Henrique Loureiro sobre o Arcebispo ou o de Teresa Schedel sobre o vereador no Painel da Relíquia). Reconhece-se que esta tese - mais um capítulo na velha polémica - veio agitar os meios científicos e ajudou a relançar o processo iniciado em 1994, levando a cumprir a análise dendocronológica das madeiras - dado importante, mas que não podemos interpretar em termos redutores, como avisou Peter Klein, sabendo-se que o método não permite datar pintura e sim madeiras de suporte.É sempre imprescindível a análise inter-disciplinar. Seja como for, estou convicto que os Painéis de S. Vicente, mantendo a carga dos seus insolúveis mistérios, vão continuar a afirmar certezas já consolidadas por anos de estudo da história da arte, ou seja, o nome de Nuno Gonçalves, o temário da veneração vicentina, a origem em capela catedralícea e uma cronologia próxima aos anos 60 do século XV.Como tantas outras teses que vieram a debate em moldes tão sensacionalistas como inconsequentes, creio que também esta estará votada a ser apenas mais uma tese falhada, como outras, cujo interesse se restringe a ilustrar o escol da «painelografia» e, nalguns casos, a mostrar em termos pedagógicos o que não é fazer história da arte