Crítica

Os dois Solaris

Existem muito poucos, ou quase nenhuns, pontos de contacto entre o "Solaris" de Soderbergh e o filme que Andrei Tarkovski realizou em 1972. O mais sensato é constatar que estamos perante dois objectos distintos, apesar de terem sido adaptados do romance de ficção científica do polaco Stanislaw Lem.

Podemos, então, começar por recordar que "Solaris", de Tarkovsky, foi encarado, à época, como a resposta da URSS a "2001: Odisseia no Espaço" de Kubrick. É verdade que nos finais da década de 60 e princípios da de 70 (período da guerra fria e da corrida ao espaço) ocorria uma desenfreada competição entre os EUA e a antiga URSS em todas áreas - política, científica, económica, militar e artística. Até é provável que Tarkovski tenha visto o filme de Kubrick antes de realizar "Solaris", quando aquele foi exibido no Festival de Cinema de Moscovo, em 1969, e convém referir que ambas as obras abordam a temática de viagens interespaciais que culminam com uma epifania de natureza filosófica e religiosa, através do encontro com uma transcendente forma de inteligência alienígena. Mas as semelhanças terminam por aqui.

A obra de Kubrick assume um carácter mais épico, descrevendo a evolução do homem no Universo, sendo também formalmente dominada por um tom hermético e clínico, enquanto o filme de Tarkovsky tem um tom mais intimista, ao centrar-se primordialmente na problemática da natureza e realidade da psicologia humana - o espaço sideral é visto não como uma entidade insondável, mas como extensão do planeta Terra (como sempre em Tarkovski a natureza está omnipresente).

as duas versões.

"Solaris" (em ambas as versões) começa por ser a história de um psicólogo astronauta, Chris Kelvin, que, ao ser enviado a uma estação espacial abandonada, na órbita do planeta Solaris, a fim de prestar auxílio ao que resta de uma tripulação ensandecida, descobre que o planeta tem o condão de materializar em forma humana as memórias dos visitantes da estação, incluindo a memória da sua falecida esposa, Rheya. Em Tarkovski, esta premissa é pretexto para o cineasta explorar os seus temas, como a importância da fé e a relatividade do humano face a uma abstracta entidade superior que tudo determina.

Embora não esteja ao nível das suas melhores obras, continua a ser o filme mais popular de Tarkovski e tem algumas das mais assombrosas sequências da sua filmografia (o inolvidável plano final, em que a câmara descreve, através de efeitos especiais, um trajecto picado, ascendendo desde o solo até às nuvens, ou da terra ao céu, para nos revelar o derradeiro destino de Chris Kelvin).

A versão de Soderbergh é mais uma reinvenção do que um "remake" do filme de Tarkovski. Aliás, o próprio Soderbergh referiu em entrevistas que lhe interessava menos o "Solaris" de Tarkovski do que o romance de Lem. Nessa reinvenção, o impenetrável misticismo poético de Tarkovski cede, através até de um processo de compressão narrativa (este "Solaris" dura 90 minutos, em contraponto com os 160 da versão de Tarkovski), perante o romance entre Chris Kelvin (Clooney) e a esposa, Rheya (McElhone), amor assombrado na órbita de um insondável planeta, coberto por um oceano de memórias e emoções de todos os que foram bafejados pelos seus ventos e a ele ficaram aprisionados.

A nível plástico, estamos perante um objecto que quer fazer uma síntese do cinema moderno de ficção científica. Quando questionaram Soderbergh sobre os filmes que lhe tinham inspirado, respondeu: "Vi todos os filmes de Tarkovski. Todos os de Kubrick, assim como os de Antonioni. Em seguida, reescrevi o guião vezes sem conta, que passou por muitos passos até, finalmente, chegar à versão definitiva."

E, de facto, nele figuram as tonalidades clínicas (o azul é predominante) de "2001...", a alienação "chic" de Antonioni. Estão também mais presentes as atmosferas "noir" de "Alphaville" de Godard (cineasta de eleição para Soberbergh) e de "Blade Runner" - nas sequências na Terra (sempre de noite, numa cidade húmida e viscosa) - do que o abstraccionismo telúrico que é fulcral em Tarkovski.

Mas continua a ser intrigante a forma como Stanislaw Lem encara as duas adaptações do seu romance: em sua opinião, nenhuma delas faz jus pleno à sua criação literária.