Cinco meses depois do desastre ambiental

Prestige: Retomar da pesca é "abertamente irresponsável"

Cinco meses depois de o Prestige ter encalhado com 77 mil toneladas de crude, ainda há rochas e fundos marinhos por limpar
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Cinco meses depois de o Prestige ter encalhado com 77 mil toneladas de crude, ainda há rochas e fundos marinhos por limpar EFE/AFP

Cinco meses depois de o "Prestige" ter encalhado com 77 mil toneladas de crude, ainda há rochas e fundos marinhos por limpar. Maria Gargia-Negro, deputada do Bloco Nacionalista Galego no parlamento regional, responsável pela área das mulheres, tece duras críticas aos governos nacional e autónomo. Com um autocolante do movimento "Nunca Máis" ao peito, aborda também a questão da precariedade laboral das galegas.

PÚBLICO - Já há prospecções fiáveis sobre o impacte sócio-económico do naufrágio do Prestige?

Maria Pilar Garcia-negro - Não me atrevo a adiantar números, ainda estávamos a avaliar os danos provocados pela catástrofe do Aegean Sea, que naufragou na Corunha em 1992 - também 80 mil toneladas de crude. Esta catástrofe multiplica os efeitos da anterior. Temos mais de 1200 quilómetros de costa, 119 portos, 27 rias, que são uma fonte de riqueza enorme. Só da Ria de Arousa provinha 70 por cento do marisco consumido em Espanha. Há uma equipa a estudar os efeitos económicos.

P. - O Governo fala em dois mil desempregados, há analistas que avançam 300 mil...

R. - Demoraremos a ter dados fiáveis sobre desemprego. Só sabemos que o impacto é enorme. De 74 sectores económicos definidos como significativos na economia galega, 54 dependem da pesca. Há danos directos sobre os recursos, que estão contaminados [e envolvem 12 por cento da mão de obra regional], e indirectos sobre toda a rede comercial ligada ao mar. E ainda danos intangíveis - refiro-me ao prestígio (engraçada palavra) da nação como elemento atractivo para o investimento e para o turismo. Também sabemos que os 30 euros diários cedidos pelo poder público às vítimas directas [os extractores de recursos] são insuficientes.

P. - Já há zonas onde voltou a ser permitido pescar...

R. - Sim. De uma forma que consideramos abertamente irresponsável. Não estão limpos os fundos marinhos. Esta é uma maneira de deixar de pagar as ajudas. Foi mais uma opção financeira do que ambiental, por parte do Estado espanhol e da Junta da Galiza, que não têm negociado nada de positivo na União Europeia. Nós temos duas catástrofes: a primeira é um pseudo-acidente, a segunda é governamental.

P. - Pseudo-acidente?

R. - O "Prestige" foi a crónica de uma catástrofe anunciada. A Galiza está há 30 anos, sob os vários governos, sem medidas de correcção. Há petroleiros que passam muito perto da costa (um ecossistema e uma variedade geográfica únicos na Europa).

P. - O lado positivo é a mobilização social?

R. - É. Há um alargamento enorme da consciência cívica em redor do movimento "Nunca Máis". A manifestação de 1 Dezembro de 2002 em Santiago de Compostela foi histórica. A Galiza nunca tinha tido uma explosão cívica tão interclassista, tão intercidades. Houve uma grandíssima manifestação em Madrid, a 23 de Fevereiro.

É terrível pensar que a Galiza poderá ter um pequeno remendo. As consequências vão estender-se no tempo. Isto exige uma movimentação continuada, para reclamar dos poderes públicos não só medidas correctivas (barcos de duplo casco, arredamento da circulação marítima..), mas também investimentos de choque.

P. - Quais são, em seu entender, as prioridades?

R. - Primeiro: limpeza dos fundos marinhos, das rochas. Não limpeza aparente, limpeza definitiva. Segundo: investimento nas pesquisas e na reposição dos recursos. Não falo de um subsídio temporário, falo de ajudas perspectivadas na vocação pesqueira da Galiza. A Galiza [a primeira região pesqueira da Europa] deve continuar a poder viver da pesca. É preciso propaganda muito activa sobre o valor do peixe e do marisco galego, que tem todos os controlos sanitários...

P. - E o turismo?

R. - Precisa de campanhas sustentadas e muito fortes. Não só nos meses de Verão, não só de Santiago de Compostela como uma jóia artística. De todo o território. Fazem falta, também, planos plurianuais perfeitamente definidos e orçamentados. O que o Governo espanhol e o Governo galego têm feito são planos fantasiosos. Um exemplo? A Costa da Morte, muito castigada pelo Prestige, vai ter agora uma pousada. Praias e praias negras, milhares de gaivotas petroleadas. Isto é até um sacrilégio.

O que o Governo espanhol e o Governo galego têm feito são planos fantasiosos. Um exemplo? A Costa da Morte, muito castigada pelo Prestige, vai ter agora uma pousada. Praias e praias negras, milhares de gaivotas petroleadas. Isto é até um sacrilégio.