Convicções e dilemas, ou porque apoio esta guerra

A guerra está a correr mais ou menos como se esperava, se descontarmos a propaganda de ambos os lados. O que não terá corrido como se esperava foi a "guerra" pelo coração das opiniões públicas. Aí, fora dos Estados Unidos, os defensores da intervenção militar são quase sempre minoritários. O que quer dizer que pertenço a essa minoria, o que não me incomoda. O que me incomoda é outra coisa: é sentir que no debate se abandonou demasiadas vezes a racionalidade e se apostou quase só na emoção e nos slogans. E que se tende a tratar a realidade como se esta fosse dicotómica, sem nuances, sem dúvidas. Pior: as convicções deram lugar aos preconceitos.Pelo meu lado, há muito que deixei de ver o mundo a preto e branco. Prefiro, quando penso sobre um problema, ouvir, ou ler, todos os argumentos. Se me identifico mais com os editoriais do "Wall Street Journal", não deixo por isso de assinar a "New York Review of Books". Gosto de ler a neoconservadora "Weekly Standard" mas também compro a bíblia dos esquerdistas, o "Le Monde Diplomatique". E em casa tenho os livros de Noam Chomsky, apesar de discordar deles quase da primeira à última linha.Por isso abomino as simplificações - tão do agrado de tantos jornalistas e políticos... - que resumem o mundo ao "campo da paz" e aos "belicistas", e o fazem com a ligeireza de quem diz, ou escreve, coisas evidentes e está a ser "independente" e "objectivo". Recuso este simplismo reducionista, sem dúvidas nem pecado, mas bem português.Ao procurar diversificar as minhas fontes de informação e estudar os assuntos, faço questão de fugir - não quer dizer que sempre o consiga - às simplificações e às ideias feitas. Não esqueço porém as minhas convicções e referências democráticas e liberais. Vejamos o caso da actual guerra. Defendi a sua necessidade, desejo intensamente que termine depressa e com o menor número de vítimas. Mas hesitei, como é normal a qualquer ser humano que sabe que não há guerras "limpas", que todas têm vítimas, muitas inocentes. Vivi o dilema de argumentos contraditórios e pesei prós e contras. Mas é impossível ficar numa cómoda neutralidade.Na operação contra o Afeganistão, os motivos eram cristalinos: era lá que se acoitava a liderança da organização terrorista que os atacara, era lá que se encontravam os seus campos de treino, era lá que vigorava o regime que os protegia, e esse regime era imensamente opressor e retrógado. O que quer que acontecesse, fosse o sucesso total ou parcial, uma intervenção só poderia melhorar a situação.O caso do Iraque é menos cristalino, pelo menos à primeira vista. O regime é igualmente odioso, a desobediência às resoluções das Nações Unidas prolongada, o risco de desenvolvimento de armas de destruição maciça evidente para quem não insistir em ser cego. Mas para cada uma destas categorias de crimes e desobediências podemos encontrar outros países igualmente pecadores e, nalguns casos, de forma mais gritante. Não vigora também na Coreia do Norte uma ditadura e não possui esse país mísseis de longo alcance e armas nucleares? Não desobedece Israel a muitas resoluções das Nações Unidas? Não são numerosas as ditaduras africanas? Não comete a Rússia brutalidades imensas contra o povo tchetcheno?Sim, tudo isto é verdade. Conheço os factos e os argumentos. Mas também conheço o seu corolário: a paralisia. A tentação de evitar problemas. A atracção pela lógica de uma política sem pecado original, isto é, a atracção pelo argumentário de que não se pode atacar Bin Laden porque no passado se apoiou a resistência afegã contra a invasão soviética; ou que não se pode destituir Saddam porque no passado houve empresas ocidentais que lhe forneceram as armas e a tecnologia que hoje lhe exigimos que destrua. Seguindo esta argumentação chegamos sempre aos mesmos bloqueios. Só alguém com uma folha de serviços absolutamente impoluta, mais puro que uma virgem, teria autoridade moral para agir. Ora esse alguém não existe.O mundo não é um lugar perfeito nem os homens nascem santos. Por isso é necessário lutar por um mundo melhor e entender que só a cultura, a lei e a ordem permitem que homens imperfeitos convivam civilizadamente. Se pensarmos assim as relações internacionais, chegaremos à conclusão que nestas é necessário realismo e idealismo. O realismo é, quase por definição, cínico. Baseia-se nas relações de força, na diplomacia clássica, nos alinhamentos de interesses. O idealismo, em contrapartida, corre o risco de ser impotente num mundo onde as leis de Hobbes ainda predominam. O idealismo (incluindo a sua componente messiânica) necessita de algum realismo para se impor, pelo que qualquer ordem internacional terá sempre de ter um braço armado, uma "força da ordem".Por outras palavras: as relações internacionais não são reduzíveis a uma componente diplomática e "ética". É triste, mas como disse Clausewitz, a guerra é o prolongamento da diplomacia por outra forma. Este ponto de vista aproxima-me do pensamento estratégico dos neoconservadores. Não tenho problema em o admitir - até porque os neoconservadores norte-americanos são bem diferentes dos conservadores europeus clássicos, como Timothy Garton-Ash já explicou nas páginas do PÚBLICO.Como realista, não posso nem devo deixar de considerar os perigos que o mundo corre - e de considerar o terrorismo como a sua expressão mais grave. Escrevi-o logo a seguir ao 11 de Setembro, e tentei explicar que as raízes desse terrorismo se alimentavam de ideologias extremistas. Tivemos vários exemplos, no século XX, do poder destruidor dos fanatismos ideológicos. Tivemos no 11 de Setembro uma demonstração de como um outro tipo de fanatismo igualmente ideológico (apesar de se apresentar como religioso) pode ser destruidor.O inimigo deste novo fanatismo é o mesmo dos fanatismos extremistas do século passado: as nossas sociedades abertas, livres, democráticas, tolerantes, progressivas. Sociedades que, dê-se a volta por onde se quiser dar, têm como expressão mais antiga, estável e emblemática os Estados Unidos da América. O risco novo que esse tipo de terrorismo coloca é ser instruído, possuir meios económicos e ser tecnologicamente evoluído. Perversamente, sabe tirar partido da nossa liberdade e das tecnologias que desenvolvemos. E procura utilizá-las para provocar o maiores danos possíveis. Daí que o perigo maior seja a sua associação a Estados capazes de produzirem armas poderosas e a líderes sem escrúpulos. Ora o Iraque fica na confluência, ou ponto de encontro, destes mundos - o terrorismo, as armas poderosas e um regime sanguinário. Daí o perigo especial que representa, sobretudo quando se concorda com a síntese de Pierre Hassner - um dos raríssimos intelectuais franceses a discordar do coro antiamericano gaulês - que, no "Le Monde", afirmava que "os americanos identificaram bem as três ameaças contemporâneas: o terrorismo, as armas de destruição maciça e a tirania. Foram eles que perceberam melhor o que há de novo nos tempos que vivemos" Até aqui estaríamos no mais puro realismo e a discussão poderia passar-se entre "falcões", defensores de uma acção militar clássica, e "pombas", que prefeririam a velha estratégia de contenção ou dissuasão. A novidade de se acrescentar a esta componente realista uma outra idealista - o projecto de uma mudança de regime, o sonho de uma primeira democracia árabe capaz de contagiar os países em redor -, muda a qualidade do debate. Já não estamos num confronto entre "falcões" e "pombas", "conservadores" e "liberais", mas face a um projecto ambicioso de levar o progresso e, com ele, a estabilidade política a uma das zonas mais conturbadas do globo. Este lado messiânico pode parecer ingénuo e comporta muitos perigos - eu sei. Como sei que há o risco de abrir uma perigosa "caixa de pandora". Mas é a capacidade de correr esse risco que distingue os homens capazes de mudarem o sentido da história dos que se limitam a assistir ao fluir da vida. É a diferença entre Carter, sempre temeroso de provocar o urso soviético, e Reagan, que o enfrentou abertamente e acabou por provocar a queda desse império de pés de barro. Acredito que algo de parecido pode estar a passar-se no Iraque. Acredito que não existe incompatibilidade entre democracia, estado laico e fé islâmica. Acredito que é possível os povos daquela região tirarem partido das suas enormes riquezas para melhorarem realmente as suas vidas. E acredito, por fim, que nunca um exército como o que agora se aproxima de Bagdad teve tanto cuidado em poupar civis e em conduzir a guerra de forma ética. É por isso que entre Rumsfeld, o político, e Wolfowitz, o académico - cujo pensamento não deve amalgamar-se como é comum fazer na Europa -, prefiro o idealismo e a visão geoestratégica do segundo ao realismo puro e duro do primeiro. Talvez, no futuro, as Nações Unidas possam desempenhar o papel de liderança mundial que hoje são incapazes de cumprir. Talvez. Talvez, no futuro, a Europa possa ser uma unidade política e militar de peso. Talvez. Mas, enquanto isso não acontecer, prefiro que seja o mais benigno dos impérios que a humanidade conheceu - o império americano - a tomar nas suas mãos a liderança. E a levar aonde for necessário levar o exemplo da sua democracia, das suas instituições e do seu modo de vida. Que são, no essencial, não só os meus, como os da Europa democrática. Com uma vantagem: lá há mais pluralismo, mais capacidade de integração de gente de origem diferente, mais tolerância para a diferença e, paradoxalmente, mais convicções. Porque é de convicções fortes e diferentes que se faz o verdadeiro pluralismo - não dos nossos consensos moles e cobardes. Como o da última cimeira da UE.