Powell vai apresentar novos dados contra o Iraque

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Colin Powell vai voltar a apresentar dados que sustentam a posição dos EUA em favor de uma ofensiva militar contra o Iraque Timothy A. Clary/AFP

O anúncio deverá ser confirmado hoje publicamente por Powell durante um discurso, marcado para as 19h00 (hora portuguesa), no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, influente instituto de Washington. O secretário de Estado transmitirá ao Conselho de Segurança novos elementos que "provam" que o Iraque está a esconder armas de destruição maciça, adiantou, entretanto, um alto responsável do Departamento de Estado, que pediu o anonimato.

Ao mesmo tempo, Powell deverá transmitir informações novas sobre as pressões exercidas por Bagdad sobre os cientistas iraquianos convidados para entrevistas com os inspectores da ONU. "Powell vai apresentar tudo isto em contexto, com novas informações", adiantou a fonte, acrescentando que o secretário de Estado também deverá abordar os detalhes do plano dos EUA para um Iraque pós-Saddam Hussein.

Apesar da oposição crescente da França, Alemanha e Rússia a uma segunda resolução sobre o Iraque, que abra caminho à ofensiva militar, Powell tem-se declarado "cada vez mais optimista" face ao resultado de uma votação — para ser aprovado, um segundo documento precisa de nove votos a favor e de escapar ao veto de algum dos membros permanentes do Conselho de Segurança (França e Rússia não excluem esta possibilidade, Reino Unido e EUA votam a favor, China tem partilhado das opiniões de Paris e Moscovo, mas mantém ainda algum distanciamento).

Além disso, o secretário de Estado tem realçado que Washington continua a admitir a hipótese de lançar uma ofensiva militar sem o consentimento do Conselho de Segurança. A sessão de sexta-feira poderá traçar definitivamente o caminho para uma ofensiva militar, que parece cada vez mais inevitável. Powell anunciou que estaria presente na reunião apenas depois de saber que os seus homólogos francês e alemão também estarão presentes.

Rússia, França e Alemanha mantêm defesa das inspecções

Hoje, os chefes das diplomacias francesa, russa e alemã encontraram-se em Paris e afirmaram continuar a defender que as inspecções das Nações Unidas no Iraque devem durar mais tempo e adiantaram ter o apoio da China.

Em conferência de imprensa conjunta, os ministros dos Negócios Estrangeiros francês e russo, Dominique de Villepin e Igor Ivanov, respectivamente, garantiram que Paris e Moscovo assumirão as suas responsabilidades como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou seja, ambos os países — bem como a Alemanha (membro não permanente que exerce actualmente a presidência do Conselho de Segurança), garantiu o chefe da diplomacia de Berlim, Joschka Fischer, também presente no encontro — não permitirão que seja aprovada uma segunda resolução sobre o Iraque, que abra caminho à via militar.

"Não permitiremos a aprovação de uma resolução planeada que autorizará o uso da força", declararam os ministros, reunidos para avaliarem o desenvolvimento do "dossier" sobre a crise iraquiana.

De visita a Londres, ontem, Igor Ivanov adiantou que Moscovo não tenciona abster-se em caso de votação de uma segunda resolução e que poderá, portanto, usar do poder de veto. "Posso dizer-vos que a China [outro membro permanente do Conselho de Segurança, com direito de veto] partilha da nossa abordagem", adiantou ainda.

Hoje, Dominique de Villepin afirmou que a França "está na mesma linha" de pensamento, mas recusou-se a usar a palavra veto. "As Nações Unidas são incontornáveis", sustentou o chefe da diplomacia francesa.

Na sexta-feira, o Conselho de Segurança volta a reunir-se para debater a questão iraquiana e ouvir mais um relatório do chefe da Comissão de Monitorização, Vigilância e Inspecções das Nações Unidas (UNMOVIC), Hans Blix.

Entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, EUA e Reino Unido fazem pressão para a aprovação de um segundo documento sobre o Iraque. Rússia e França opõem-se veementemente a esta opção e defendem mais inspecções, e a China vai balançando mais para o segundo campo, mas mantendo uma posição discreta.

No seio dos membros não permanentes, a posição de Espanha e da Bulgária é publicamente de apoio à segunda resolução, tendo o primeiro país contribuído, inclusivamente, para a sua elaboração. Ao contrário, a Síria, único país árabe actualmente com assento no órgão, e a Alemanha opõem-se a uma via militar. Restam seis países que ainda não se pronunciaram sobre a questão. Os representantes de Angola, Camarões, Chile, Guiné-Conacri, México e Paquistão, que têm sido assediados por ambos os campos, numa tentativa de os convencer a aderirem às suas posições.