Morreu João César Monteiro

Este texto foi publicado a 4 de Fevereiro de 2003. Os epítetos mais insistentes terão sido os de desbocado e doido, criando a imagem de cineasta maldito, um incómodo num país de brandos costumes incapaz de ver por detrás da truculenta figura um autor maior do cinema português. Se um país tem o que merece, Portugal desmereceu-o.

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Este texto foi publicado a 4 de Fevereiro de 2003. 

O cineasta João César Monteiro morreu ontem à tarde, em Lisboa, aos 64 anos, na sequência de um cancro que lhe fora diagnosticado o ano passado. Deixou acabada uma última obra, Vai e Vem, cujas rodagens decorreram entre Julho e Setembro de 2002, durante uma interrupção no tratamento por quimioterapia. Em Novembro, o realizador foi a França fazer a mistura final de som do filme; o seu estado de saúde agravou-se em Janeiro, o que levou ao internamento no Hospital da CUF, em Lisboa, na passada quarta-feira. O funeral realiza-se amanhã.

"O génio chama-se João César Monteiro", escrevia-se no diário francês Le Monde em Setembro do ano passado, num artigo sobre a rodagem do último filme do cineasta, Vai e Vem. Assim: o génio. Por cá, os epítetos mais insistentes terão sido os de desbocado, doido, arruaceiro, criando a imagem de cineasta maldito, um incómodo num país de brandos costumes incapaz de ver por detrás da truculenta figura pública chamada João César Monteiro um autor maior do cinema português. Se um país tem o que merece, Portugal desmereceu-o.

Eduardo Lourenço lembrou em 1995, por altura da estreia de A Comédia de Deus: "O nosso mundo tão vertiginosamente racional e controlável perdeu a antiga familiaridade com a loucura (...) Para o acordar é preciso pegá-lo do avesso, é preciso `fazer de louco', com determinação, humor e alegria. João César Monteiro pertence a esta raça de gente que incomoda." Um homem assim só pode ser perigoso: fazendo de louco, César Monteiro construiu um universo absolutamente singular, regido por leis autónomas, sob o signo do risco.

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Daniel Rocha

Nasceu na Figueira da Foz, a 2 de Fevereiro de 1939, filho único de uma família anti-salazarista. Antecedentes familiares? Uma mãe que lhe passa o gosto pelo cinema americano e pelas comédias italianas, um tio anarquista de contornos míticos, que concebia bombas artesanais e terá acabado os seus dias nos calabouços da ditadura. César Monteiro instala-se em Lisboa na adolescência, sem vocação senão a de poeta. "Escrevia poemas, muito maus, para chamar a atenção das raparigas."

Mas já nessa altura o país pesa-lhe, decide exilar-se em Paris. O diletante é sacudido por um choque, ao descobrir O Acossado de Godard, e Muriel de Resnais. De regresso a Lisboa, cruza-se com Alberto Seixas Santos, Fernando Lopes, e a geração que viria a formar o Cinema Novo Português. Chega a fazer "o pior" — crítica de cinema —, antes de uma bolsa de estudo o levar até Londres, para estudar cinema na London School of Film Technique. Aí encontra Fritz Lang, que lhe deixa "uma lição fundamental": nunca fazer escola de cinema.

É assistente de realização de Perdigão Queiroga em O Milionário (1962) e assina a curta-metragem Sophia de Mello Breyner Andersen em 1968. Quem Espera por Sapatos de Defunto fica completo ao fim de cinco anos, em 1970, lançando Luís Miguel Cintra no cinema. A primeira longa-metragem de cinema, Veredas, surge em 1977, seguida de Silvestre (1981), que revela uma actriz, Maria de Medeiros, e À Flor do Mar (1985). Com elas, César Monteiro estabelece o seu credo estético, devedor de um romantismo solar e de uma lírica com fortes filiações literárias. "Fazemos filmes para tentar reunir os mil pedaços em que fomos jogados", escrevia por altura de Silvestre.

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dr

O seu percurso assume uma viragem em 1989, com Recordações da Casa Amarela, que lhe vale o Leão de Prata no Festival de Veneza. César Monteiro faz a sua primeira aparição como João de Deus, dandy melancólico e demiurgo, entre Nosferatu e o burlesco, personagem fétiche que o irá acompanhar nos filmes seguintes, A Comédia de Deus (1995), A Bacia de John Wayne (1997) e As Bodas de Deus (1999). Pelo meio, tenta a adaptação de A Filosofia na Alcova de Sade, que nunca chegou a ser feita. Branca de Neve (2000), o tal filme "a negro", onde só se ouvem as vozes que lêem a obra homónima de Robert Walser, toma a forma de um escândalo nacional — sob acusações de que se tratava de um filme onde não se via nada, quando a melancolia saltava à vista.

Em 1971, quando se estreou O Passado e o Presente, de Manoel de Oliveira, perante a generalizada incompreensão da obra, César Monteiro defendeu-o: "Este país descobriu que tem um cineasta maior do que ele próprio. Como não é possível alargar o país, encolhe-se o cineasta."