Música para D. Maria Bárbara de Bragança

Há mais de 20 anos que Jordi Savall, figura maior da música antiga, é uma visita assídua da temporada da Fundação Gulbenkian e de outros eventos musicais em Portugal. Este facto não diminui, porém, as expectativas do público nem o prazer de renovadas audições, sobretudo quando o programa traz novidades.É o caso do concerto de hoje (19h), onde serão apresentadas duas obras em primeira audição moderna em Portugal, evocativas de um período áureo da música ibérica. La Capella Reial de Catalunya, Le Concert des Nations e um conjunto de solistas (onde se destacam Montserrat Fugueras, Adriana Fernandez, Elisabeta Tiso, Carlos Mena e Furio Zanasi) interpretam a Missa de Requiem para as Exéquias da Rainha D. Maria Bárbara de Bragança e os Responsórios das Matinas de Natal, de José de Nebra (1702-1768), vice-mestre da Capela Real espanhola.Filha de D. João V, Maria Bárbara tornou-se Rainha de Espanha pelo casamento com Fernando VI. Apaixonada pela música desde a infância, foi desde jovem a discípula dilecta do notável Domenico Scarlatti, contratado pela corte de Lisboa em 1719 para exercer as funções de mestre de capela e professor de cravo da família real. Quando a infanta se casou com o herdeiro da coroa espanhola, em 1728, o compositor acompanhou-a a Madrid e passou o resto da sua vida ao seu serviço.Antes e depois da ascensão do marido ao trono, Maria Bárbara converteu-se numa protectora constante da música e dos músicos da sua corte, distinguindo-se ela própria como distinta cravista e compositora e reunindo uma preciosa colecção de instrumentos de tecla.Um célebre quadro de Van Loo, que se guarda no Hermitage, em São Peterburgo, retrata Domenico Scarlatti, D. Maria Bárbara ao cravo e dois outros instrumentistas, que tocam violino e violoncelo. Sob a acção da princesa portuguesa, a Capela Real espanhola alcançou um notável esplendor musical. Além de Scarlatti, a instituição apoiava vários compositores italianos (Corselli, Corradini, Facco, Falconi e Mele) e em 1737 foi contratado o célebre "castrato" Farinelli, com o intuito de distrair Filipe V da sua depressão. O cantor acabaria por exercer também as funções de empresário, proporcionando, entre 1737 e 1759, brilhantes temporadas de ópera séria italiana, sobre libretos de Metastasio.Num meio dominado pelos italianos, José de Nebra foi um dos poucos espanhóis a distinguir-se como compositor de música teatral (as suas obras, que incluiam sempre diálogos falados, estão identificadas com designações como "zarzuela", "melodrama escénico", "comedia per música" ou ópera), da qual foi um prolífico autor.Paralelamente, e com uma progressiva incidência na última fase da sua carreira, dedicou-se também à composição de música religiosa. No Natal de 1734 o palácio real foi vítima de um incêndio e Nebra e António Literes (1673-1747) foram encarregados de compor novas partituras sacras que substituissem as que tinham sido destruídas pelas chamas. Os momentos altos do calendário litúrgico, como o Natal e a Páscoa, eram os destinatários das cerimónias litúrgicas mais monumentais e portanto os que necessitavam de obras musicais mais imponentes.Quando D. Maria Bárbara faleceu, a 27 de Agosto de 1758, José de Nebra escreveu a Missa de Requiem que poderemos ouvir no concerto de hoje, bem evocadora da sensação de perda trágica sentida pelos músicos de Madrid face à sua protectora.Na segunda parte, seremos transportados para o ambiente oposto graças à atmosfera jubilatória dos Responsórios das Matinas de Natal (1752), escritos pelo mesmo compositor para a Capela Real espanhola. O programa pretende assim colocar em confronto as duas atmosferas extremas que marcaram o repertório sacro da corte no auge do Barroco - o dramatismo intenso da música fúnebre ou das cerimónias da Semana Santa e o carácter celebrativo. Nenhuma destas obras foi ainda registada em disco, pelo que este concerto constitui uma ocasião única para contactar com a música de um dos principais compositores peninsulares do século XVIII.La Capella Reial de CatalunyaLe Concert des NationsJordi Savall (direcção)Obras de José de Nebra (1ª audição moderna em Portugal)LISBOA Grande Auditório Gulbenkian, hoje, às 19h. Bilhetes entre 25 e 35 euros.