Colecção de cinco condecorações na base de acção judicial interposta pela neta da actriz

Espólio de Palmira Bastos entra hoje em julgamento em Famalicão

A luta judicial pela posse do espólio de condecorações da actriz Palmira Bastos (1875-1967) continua a aguardar uma conclusão e a marcar polémica entre a comunidade teatral. Está marcada para hoje a primeira audiência do julgamento, no tribunal judicial de Vila Nova de Famalicão, que decidirá a quem serão entregues as distinções atribuídas a uma das maiores intérpretes do teatro português.

De um lado está a neta, Maria de Lurdes Bastos Moreira da Cruz, que diz que as condecorações foram apenas emprestadas, requerendo a sua devolução (neste momento estão na posse do tribunal). Do outro, está o réu Mário Faria de Carvalho, de Famalicão, amigo da actriz, que alega que as condecorações lhe foram oferecidas pela filha da actriz como sinal do apreço que unia as duas famílias.

O processo iniciou-se em 1999 - quando Maria de Lurdes Bastos conseguiu a apreensão das cinco condecorações -, mas ao longo dos últimos três anos houve já dois pareceres favoráveis a Mário de Carvalho, dizendo que ele era o proprietário das condecorações e que devia, por isso, reavê-las.

Em causa está um conjunto único, constituído pela Ordem de Santiago e Espada, Ordem de Cristo, Medalha de Prata da Cidade de Lisboa, Ordem do Cruzeiro do Sul e Ordem de Cidadã Carioca, uma série de distinções apenas concedida a Palmira Bastos.

Mário de Carvalho, que é coleccionador, reúne na sua Quinta de Tibães, em Famalicão, os mais distintos objectos da actriz (e de outras personalidades ligadas ao teatro e à vida política), como adereços utilizados em peças, inúmeras cartas, fotografias, uma camisa de noite que usou na lua-de-mel e uma caixa de costura que a acompanhava sempre.

Teria sido a mãe de Mário de Carvalho a incutir-lhe o gosto pelo teatro, alguém que tinha uma paixão tal pelos artistas de teatro que fazia tudo para obter recordações suas. Fernanda Faria de Carvalho, a mãe do réu, conheceu Palmira Bastos em 1917, quando tinha 15 anos, iniciando-se aí "uma amizade extraordinária, que entretanto se foi alargando a toda a família", disse ao PÚBLICO Mário de Carvalho. A mãe deste terá acompanhado a actriz até ao final dos seus dias, em 1967, existindo na Quinta de Tibães um pequeno bloco em que Palmira Bastos confessava: "Sem poder falar é melhor morrer."

Segundo Mário de Carvalho, as condecorações foram-lhe oferecidas por uma das filhas da actriz, Amélia de Sousa Bastos, "como reconhecimento do papel que tinha representado", como se de um neto se tratasse. Outros bens, que não são reclamados nesta acção judicial, terão sido comprados pela sua família, dado que Amélia, "pelas dificuldades que vivia, foi-se desfazendo de várias coisas que tinha herdado."

Resta aguardar o final do processo judicial para descobrir qual o destino destas condecorações: o Museu Nacional do Teatro, segundo o desejo manifestado pela neta da actriz; ou a Quinta de Tibães, onde Mário de Carvalho pretende construir um museu dedicado ao teatro, reunindo todas as suas relíquias.