Projecto que ficou conhecido como o jornal dos jornalistas

Semanário “O Jornal” desapareceu há dez anos

“Ponto Final” foi a expressão usada na primeira página para assinalar a despedida de “O Jornal”, o semanário que tinha a particularidade de ser gerido por jornalistas. Saiu para as bancas pela última vez faz hoje dez anos, depois de completar 17 anos de vida.

Era assumidamente um projecto de esquerda, independente e, sobretudo, não comunista. Chegou a ultrapassar o “Expresso” em vendas, mas o desgaste do modelo de gestão acabou por lhe ser fatal e das suas cinzas nasceu a “Visão”. Criado em 1975, “O Jornal” lançou o seu primeiro número a 2 de Maio desse ano, numa altura em que “os acontecimentos eram um tal turbilhão que havia necessidade de explicar a realidade às pessoas”, lembra Cáceres Monteiro, um dos jornalistas fundadores do semanário, ao lado de Manuel Beça Múrias, Francisco Sarsfield Cabral, José Silva Pinto, José Carlos Vasconcelos, Fernando Assis Pacheco, além de Joaquim Letria, o primeiro director.

Em termos editoriais, Cáceres Monteiro descreve “O Jornal” como “um projecto independente, alinhado à esquerda e um contraponto à tendência dominante do Movimento das Forças Armadas”. Ao longo de 17 anos passaram pelas páginas de “O Jornal” nomes como Miguel Esteves Cardoso e Inês Pedrosa, mas também Adelino Amaro da Costa, Eduardo Lourenço, Hélia Correia e Filomena Mónica. “O Jornal” atinge o seu ponto alto ao ultrapassar o seu concorrente “Expresso”, conseguindo vendas entre os 70 e os 80 mil exemplares.

Apoiados no impulso de “O Jornal” nasceram outros projectos no seio da Projornal, a empresa editora do título, nomeadamente, o “Sete”, o “Jornal de Letras Artes e Ideias” e a revista “História”, o “Jornal da Educação” e o “Correio Económico”. A Projornal foi ainda fundadora, com a cooperativa TSF, da empresa Rádio Jornal, e esteve ligada à SIC.

A particularidade do projecto residia no modelo de gestão: a Projornal pertencia a todos os profissionais de comunicação social que lá trabalhavam, designados por societários. Mas, a partir de meados dos anos 80, esta fórmula esgotou-se, “o que levou a que o jornal perdesse a sua acutilância”, na leitura de Cáceres Monteiro. Era necessário um parceiro que injectasse capital, mas que trouxesse também “know-how”. Os suíços da Edipresse entram na Projornal no início da década e percebem que a fórmula do semanário estava esgotada. Decidem então fechar “O Jornal” e lançar uma “newsmagazine”. Assim nasceu a “Visão”.

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