A lição do Mangas

Ensinou gerações de biólogos a cheirar, provar, sentir a natureza. No dia em que completou 70 anos, Fernando Pereira Mangas Catarino, o Mangas, uma das figuras mais incontornáveis da biologia e da botânica nacional, deu ontem a última lição. Partiu sem olhar para trás pela Avenida das Palmeiras, a entrada do velho edifício da Rua da Escola Politécnica, que alberga o Jardim Botânico de Lisboa, que dirigiu nos últimos 20 anos. Levava num bolso todas as experiências vividas, no outro as dúvidas a que não conseguiu responder. E garante que não vai voltar à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa ou ao jardim. Ninguém quer acreditar.

"Adeus, árvores novas!Até logo, ó pessoas efectivas,Meus amigos formados para o adeus!"("Epígrafe" - Vitorino Nemésioin "Limite de Idade")Traz debaixo do braço um livro de culto: "Limite de idade", de Vitorino Nemésio. Aproveita para relembrar, com muita emoção, alguns dos versos preferidos, agora que chegou ele também ao limite da idade.Sentado num banco de jardim, do seu jardim, Fernando Pereira Mangas Catarino, o professor Catarino, director do Museu e Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, biólogo e contador de histórias, prepara-se para contar a sua própria história. É a história de um menino do Vale de Ourém que podia ter sido carpinteiro mas que o destino quis que fosse parar à botânica. "Tenho a sensação de que desde pequeno tive uma afeição por estas coisas da natureza. Não só a botânica, mas os pássaros...". Esta é a história do Mangas, neto, que ganhou, sabe-se lá como ou quando, a alcunha nascida do nome do avô José Vieira Mangas, um empreendedor negociante de pinheiros - a figura de referência da sua vida, "um homem bom". A mãe Josefina, "uma mulher excepcional", que gostava de abrir horizontes, foi uma das filhas do avô Mangas que ganhou uma das casas nas colinas em torno da casa paternal: "O meu avô queria poder ver da varanda da casa dele as casas de cada uma das filhas".Desde cedo que é Josefina a menina que acompanha o pai. Com a quarta classe feita durante a Primeira Guerra, é ela que vai com ele nas viagens de negócios, faz a contabilidade e representa a mãe, avó de Catarino, mulher tradicional, que nunca aparecia em público, quando chegam visitas ilustres. Um dos mais remotos episódios botânicos de que Fernando Catarino se lembra tem precisamente a ver com uma das mais ilustres figuras que frequentavam a casa do avô Mangas."O meu avô ia receber o barão de Alvaiázere e a minha mãe estava encarregue de servir uma salada de agrião". Mas a colheita do agrião não corre bem e Josefina acaba por colher uma erva chamada embude. "É uma erva até um pouquinho tóxica". Mas o barão fica deliciado com a iguaria que não conhecia mas de que gaba o requintado sabor.Depois do avô, que reconhece ser uma das figuras que mais o marcou, a mãe Josefina é uma das personagens que Catarino mais destaca na história do banco de jardim. "Empurrava os filhos e dizia sempre: 'Não tenham medo e nunca se calem se tiverem razão. Nunca se deixem enganar'. Foi sempre um conselho que guardei. Era uma mulher muito inteligente. Embora fizesse parte de uma cultura rural onde quem mandava era o homem, sempre foi ela que governou tudo, fazendo o meu avô acreditar que estava no comando da situação. Só as boas mulheres o sabem fazer", conta.Foi também a mãe Josefina que ensinou as primeiras letras a Fernando e aos seus sete irmãos. "Os filhos tinham de saber os números, as letras e soletrar antes de entrar na escola". E lembra-se também que, por causa disso, o primeiro dia de escola foi muito chato: "Fazia tudo rápido, era uma chatice e o próprio professor aborrecia-se comigo por eu ser tão rápido".Mas confessa nunca ter sido um bom aluno. Aliás, adora maus alunos. E conta que era quando não havia escola que se sentia feliz: "Vivíamos na natureza. Tinha à mão aquilo que as crianças hoje, infelizmente só vêem na televisão. Era uma sorte. Quando não havia escola passávamos os tempos a ver ninhos, nos campos. Vivi toda a vida num jardim botânico". O gosto pelo campo só rivalizava com a sede de estar informado. Lembra-se, ainda pequeno, de ouvir atentamente os relatos da guerra na loja do senhor Moreira, no vale de Ourém: "Queria estar informado, não me deixar enganar". Seguia à risca os conselhos da mãe.Depois da escola primária, o destino leva-o até Leiria, com onze anos, onde conclui o curso elementar de comércio. Aos 14, já com o curso tirado, um padrinho de crisma salva-o de ir logo trabalhar. Dizem ao avô que o menino tem jeito, que é bom aluno, e que devia ter mais oportunidades. O avô anui e Fernando fica mais dois anos numa escola de carpintaria. Lembra-se particularmente do director da escola, o culpado do seu gosto de sempre pela arte: "Chamava-se Narciso Costa. Era um apaixonado pela arte e incutia o gosto nos alunos. Foi um dos responsáveis pelo grande gosto pelas artes que sempre tive. Ali cultivava-se a exigência da qualidade e da arte".Mas o menino merece e os estudos continuam, salvando-se de ficar para carpinteiro. Segue para o Colégio do Doutor Correia Mateus. Os alunos do colégio tinham uma vida calma, confessa, mas os resultados finais nunca ficavam a baixo dos alunos do ensino oficial. "Tinha um professor que achava que quando estava Sol não se dava aula: 'Hoje devia haver liberdade para andar pelos campos' dizia".Por essa altura, Fernando começava a pensar no futuro. Mas o botânico ainda não tinha despertado. "Eu achava que ia ser engenheiro ou arquitecto". Mas quando acaba a escola, umas décimas a menos a matemática matam o engenheiro e fazem nascer o biólogo. "Vim para Lisboa em 1952, há precisamente 50 anos. Era Outono avançado. Foi tudo assim de supetão. Fiquei na Pensão Londres, ali ao Príncipe Real". O curso é adiado dois anos pelo serviço militar, onde as boas notas do curso de oficiais o impedem de ir parar à guerra na Índia. Terminada a tropa, estava livre para a biologia. O futuro esperava-o.O menino-homem do Vale de Ourém vai morar então para a República do Santo Condestável, da Juventude Universitária católica. O ambiente académico em que ingressa representou uma grande mudança. "Foi muito importante na minha vida", conta, de olhos muito abertos, com uma expressão de entusiasmo comum nele. "Convivi com estudantes de medicina, direito, letras, comecei a aperceber-me do que de facto se passava na Academia de Lisboa". Nos corredores da faculdade, o Mangas assumia quase sempre uma postura pouco comunicativa de observador: "Ficava ali encostado a um pilar e media o ambiente, os colegas, as conversas, as tomadas de posição", conta enquanto copia a tal postura de que fala, encostado a uma enorme árvore do jardim, que assiste à conversa no banco do Jardim Botânico. Mas nas aulas destacava-se por interromper e ser gozão. Na República começa também a destacar-se pelos discursos eloquentes e desenrascados. Descobre então a queda para o discurso: "Comecei logo a sentir-me mais à vontade nos exames orais. Cultivei a capacidade de manter a bola nas minhas mãos e não a passar. Acho que herdei isso da minha mãe".Em 1958 acaba o curso de biologia. Já namoriscava por essa altura com uma aluna brilhante, Maria Antonieta Nunes, hoje sua mulher. É então que surge um episódio decisivo na relação e na vida dos dois - uma vaga de assistente da faculdade, a que ambos se candidatam. "O professor Flávio Resende, o meu mestre, que eu adorava, chama-me para me comunicar que eu tinha sido o escolhido, mas faz questão de frisar que foi sem o seu voto e que a Antonieta era muito melhor. Mas a maioria queria um homem".O mestre incumbiu-o então de uma das mais duras tarefas da sua vida: "Tinha eu de lhe dizer que ela tinha ficado para trás por ser mulher. E mesmo assim ela casou comigo!", conta entre risos e olhar brilhante. "A minha mulher começou então a trabalhar como jardineira no Jardim Botânico, mas acabou por construir um currículo científico mais brilhante que o meu".Começa então a dar aulas, como assistente de Carlos Tavares, botânico da faculdade, um dos mais ilustres professores da casa, que Catarino um dia descreveu como "mestre sóbrio, distante e temido". "Ficava desvairado com a criatividade dele e o gozo que tinha pela profissão. Mesmo nos maiores desgostos profissionais mantinha um ânimo enorme. Dava-lhe tanto gozo uma grande ideia de conhecimento científico como uma pequena coisa. E só fazia sentido a investigação se houvesse disciplina, perseverança, humildade. E tinha-se de aceitar o julgamento dos pares. Era assim que ele pensava". E é assim que Fernando Catarino pensa. Durante os 20 anos de convívio com Tavares, acaba por nutrir grande admiração pelo professor. O acompanhamento da vida cultural e cívica, os tiques, que chacoteava nas aulas descuidando os apontamentos, mesmo o tratar dos alunos por "senhor" ou "senhora", ficaram marcados e são hoje a sua imagem de marca.Casa em 1960 e a viagem de núpcias é feita pela Europa, de laboratório em laboratório: "Dormíamos em quartos de laboratórios e de manhã, para irmos à casa-de-banho, tínhamos de passar no meio dos investigadores. Era uma chacota, todos se riam do casal de pombinhos", conta. "Descobri quatro coisas importantes na minha vida de botânico", descreve. A primeira, pela qual se perdeu de amores foi uma margaça, um malmequer pequenino, com características peculiares, que Fernando Catarino encontrou no seu último ano de aluno: "Era Fevereiro ou Março. Andava nas vinhas a ver plantas quando de repente encontro aquela margaça, que tinha pétalas verdes em vez de branquinhas. Trouxe-a para a faculdade e cultivei-a. Nunca ninguém tinha visto uma coisa assim. É preciso ter olhos e muita atenção. E sobretudo prezar aquilo que foge à norma. Vale sempre a pena".É Flávio Resende quem o ajuda a escrever o primeiro artigo científico, sobre a margaça. E está quase a arriscar o doutoramento sobre aquele pequeno fenómeno natural de pétalas verdes, quando decide virar agulhas para outros desafios. Na altura do doutoramento, Catarino faz a segunda maior descoberta da sua vida - apaixona-se por umas plantas já conhecidas, que, no Cabo Raso, tomam características muito próprias. Sob a influência salina do mar, o núcleo das células desta planta engorda, tornando as folhas muito gordas. As suculências salinas, assim se chama o fenómeno, acabam por ser o tema da sua tese de doutoramento. Após 1974, é envolvido no turbilhão do 25 de Abril, que também entra pelas portas da faculdade. O poder inflamado do discurso torna-no conhecido entre alunos e professores. Chega a actuar muitas vezes para acalmar os ânimos de estudantes exaltados. "Muitas vezes intervim para acalmar estudantes revoltados. Impunha a voz e já começava a ficar conhecido por lhes fazer frente. Até que percebi que me obedeciam. Um dia desatam a cantar para mim - 'Sim Catarino o-i-o-ai, sim Catarino o-ai meu bem....'. Acho que consegui desmontar a figura mítica do professor universitário, tirar o penacho da cagança universitária. Era uma das minhas características".A carreira académica dá então de novo uma volta de 180 graus: "Como quem não tem cão caça com gato, e a mim faltavam-me conhecimentos de bioquímica para continuar com as suculências salinas, virei-me para a ecologia, o 'stress' ambiental e a secura estival do mediterrâneo". Estas acabariam por se tornar nas linhas orientadoras da sua carreira. Catarino considera esta viragem o terceiro passo mais importante da sua carreira académica. O quarto prende-se com um ecossistema ao qual muito se dedicou - os sapais. Há umas microalgas que, tal como Fernando Catarino explica, têm dois relógios biológicos, regendo-se pelas marés e pela luz do Sol. Sabem perfeitamente quando podem espreitar nos lodos dos sapais, aos quais vivem agarradas, para apanhar alguma luz do Sol sem serem levadas pelas marés. Uma lição da forma e função em biologia e ecologia foi o que Catarino aprendeu com estas microalgas.Para Fernando Catarino, a ciência tem de dar satisfação à sociedade directamente. "A ciência devia ser mais uma fábrica do que uma estrutura associativa. Não precisamos de fazer grandes descobertas, precisamos só de fazer o nosso trabalho e saber dar a volta. Nem todos podem ser brilhantes ou criativos". E o estatuto da carreira docente é uma arma falsa: "A nós professores compete-nos a excelência, mas sempre com simplicidade".Para o Mangas, como ficou conhecido entre os pares, as conquistas científicas que mais prazer lhe deram foram as conquistadas pelos seus alunos: "São os alunos que constroem a inovação. É preciso animá-los. E isso dá muito trabalho. Tive a vantagem de assistir a muitos avanços científicos. Podia ter feito uma escola, mas não fiz. Se calhar porque não tive esse mérito. Mas também não quis. Tive uma pleia de estudantes que me deram um prazer que eu nunca teria tido sozinho. E reconheço que me ultrapassaram largamente. São muito melhores que eu. Essa é a grande herança que eu deixo". Confessa que do que gosta mesmo é de aprender biologia com os alunos e que viveu com a percepção de que ser professor é algo de uma grande responsabilidade: "Podemos mudar a vida das pessoas num pequeno episódio. Se somos chatos, se falhamos ou se somos injustos. Temo não ter herdado da minha mãe o sentido de justiça. Passaram milhares de alunos por mim. Tive muitas oportunidades de não ser justo".Aos 70 anos, acabadinhos de fazer ontem, dia em que comemorou a sua jubilação, lembra os últimos vinte anos passados como director do Jardim Botânico. "É vergonhoso o estado a que isto chegou", lembra, referindo a falta de dinheiro para tratar de um bem público, ou a dificuldade até em pagar a água da rega do jardim. " Mas este destino incerto do jardim não foi o suficiente para me ir embora. Já o tinha decidido antes. Reconheço que um Jardim Botânico é um luxo caro para uma universidade falida, mas tem de existir. Até que vejam isto estamos abandonados à nossa sorte". E agora, o que vai fazer? "Não vou ficar. Prometi a mim mesmo que ia fazer uma licença sabática. Há-de vir outra pessoa, nem que seja por via da força", adianta, mantendo-se firme na decisão de abandonar a direcção do jardim, de abandonar a faculdade.O futuro passa por continuar a acompanhar algumas investigações pendentes. E quem sabe se não realizará outros sonhos. Há um antigo, que o persegue: o de sobrevoar um glaciar de helicóptero. "Gostava muito de ir à Antárctida. E adoro voltar aos sítios. Só fui uma vez à Penha de Guimarães. Quero ir muitas milhares de vezes ao Gerês. Quero ir a pé ao Vale do Zêzere. Quero ir sempre ao Museu de Arte Antiga. Quero ver as terras vivas. Não me vou chatear muito. Tenho a certeza". E há sempre a mania dos carros - "só Volkswagens, claro!" - ou a dos helicópteros, para explorar. E até já sabe o que vai fazer amanhã: "Amanhã vou arrumar a minha cave, os meus livros. E sei que vou encontrar coisas velhas que me vão avivar a memória. Mas acabo por perder o tempo a recordar histórias e não vou arrumar nada!"